domingo, 1 de abril de 2012

Educação e matérias relacionadas …


Exames
Uma aula prática. Deambulava pelo meio dos alunos, incentivando-os a resolver o problema que lhes havia proposto e, também, prestando esclarecimentos sempre que solicitado. Uma aluna chamou-me. Queria saber se a solução que encontrara era a correta. Olhei e disse-lhe que não. Comecei a explicar-lhe, passo por passo, o procedimento adequado para resolver o problema, esperando entre cada dois passos que ela, no seu caderno, concretizasse o anterior. A determinada altura chegou ao seguinte resultado: a empresa poderia comprar 10 000 ações ao preço de 6,4 euros cada. Esperava eu que ela escrevesse o montante gasto na compra para passarmos ao passo seguinte. Ela olhou para mim à espera, penso, que eu lhe indicasse esse montante. Quando lhe disse que estava à espera que ela o fizesse para passarmos ao passo seguinte, respondeu-me que não tinha máquina de calcular. Olhei para ela e a minha cara devia expressar a minha incredulidade. Ela fez um sorriso amarelo e encolheu os ombros. “Faça a conta e depois chame-me.”, disse-lhe, virando as costas e indo atender outro aluno que por mim chamava.
Eu até nem me devia surpreender com o acontecido porque, infelizmente, não é caso raro alunos não conseguirem fazer mentalmente operações de multiplicação/divisão por 10, 100 ou 1 000. Porém, sempre que disso me apercebo não deixo de me interrogar sobre o tipo de formação escolar que esses alunos receberam até chegarem à Universidade. Tenha-se presente que, para poderem ter entrado na Faculdade onde leciono, os alunos a que me refiro obtiveram média superior a 16 valores no ensino secundário.
Nesse mesmo dia, ou no dia anterior, já não me lembro bem, o Ministro da Educação foi ao Parlamento apresentar uma proposta de lei que introduz a obrigatoriedade dos alunos, no final do primeiro ciclo (antiga 4ª classe), serem submetidos a um exame cuja classificação conta para efeitos de passagem de ciclo. Foi o bom e o bonito, com uma “certa esquerda” a considerar que essa medida era o retorno ao tempo do fascismo e que essa medida era o equivalente a separar os alunos, no início do respetivo percurso escolar, entre os que vão para a Universidade e os que vão trabalhar como operários pelo salário mínimo! Se o ridículo matasse, nessa sessão o país teria perdido uma parte substancial dos seus parlamentares (não discuto as vantagens de uma redução do número de deputados ...). Não discuto, também, o papel das oposições, quaisquer que sejam, nem o facto de que poderão não colher benefícios junto dos seus eleitorados quando votam favoravelmente propostas do Governo. Mas, caramba, é possível votar contra sem ter necessidade de usar tal tipo de atoardas.
Quase quatro décadas após a revolução, se é um facto que o acesso ao ensino se democratizou, tornando-se universal, também é iniludível que essa universalização tem ocorrido em simultâneo com uma baixa do nível de exigência da formação escolar.
A educação tem sido alfobre onde se têm cruzado todo o tipo de “teorias”, sem se cuidar das consequências daí resultantes para a formação dos alunos. Quem não se lembra, por exemplo, das “teorias” de que o ensino tem de ser lúdico, ou de que não devem existir exames para não se correr o risco de traumatizar as “criancinhas”? A consequência mais perceptível dessas e outras experiências no ensino é a chegada dos alunos ao ensino superior sem algumas das ferramentas básicas – como na ilustração supra, o cálculo mental –, sem capacidade de trabalho e com o que parece ser a certeza de que o sistema de ensino, com maior ou menor protelamento, lhes há-de certificar, com diploma e título de doutor, competências que eles na verdade não possuem.
De quem é a culpa?! De todos em geral, de ninguém em particular. Ainda que inconscientemente, os intervenientes no sistema de ensino, face à mole de alunos mal preparados que lhes chegam do nível de ensino anterior, acabam por “baixar a fasquia” da exigência, deixando pessoas mal preparadas passar para o nível seguinte e, no fim do processo, entrar no mercado de trabalho. Não é alheio a este baixar do nível de exigência o facto do sistema exigir “resultados”, mesmo quando estes realmente não existem para mostrar. O docente que reprova os alunos terá de fazer relatórios e mais relatórios para se defender, pois o ónus da culpa das reprovações está sempre sobre ele e nunca, ou quase nunca, sobre os alunos e o insuficiente volume de trabalho escolar que desenvolvem.
Neste contexto, mesmo que as medidas agora propostas não venham a resolver completamente o problema – as famílias, que não referi, não são isentas de culpas no processo –, pelo menos ajudar-nos-ão a ir queimando etapas no percurso para percebermos as (verdadeiras) raízes do problema.


Emigração
Caiu o Carmo e a Trindade quando, há um par de meses, o Primeiro-Ministro (PM) disse que os nossos jovens diplomados deviam incluir entre as suas opções profissionais a possibilidade de emigrarem para locais onde exista aquilo que no presente Portugal não tem para lhes oferecer: trabalho.
É triste que o país não consiga no momento gerar o emprego necessário para permitir aos nossos jovens poderem planear as suas vidas pessoais e profissionais. A “tirada” do PM chocou porque, em minha opinião, não estamos habituados a que os nossos políticos nos dêem más notícias abertamente, com todas as letras. Estamos habituados, sim, é que eles as escondam de nós.
Quanto à emigração, não considero que seja um “bicho de sete cabeças”. Pelo contrário, julgo que daí podem advir vantagens para as pessoas e para o país. Por exemplo, permitirá que quem parte recolha uma experiência de vida junto de povos que agem e pensam de forma diferente da nossa, permitindo que cada um confronte o que é com o que pode ser, retendo aquilo que os outros fazem melhor do que nós (pontualidade, empreendedorismo, planeamento, ritmo de trabalho, produtividade, etc., etc.). Deste modo, voltem as pessoas mais tarde ao país – e este é o verdadeiro risco social, o de que não retornem – e poderão dar um valioso contributo para que a sociedade “pendurada” no Estado em que nos transformamos evolua no sentido de que cada um seja mais autónomo e, desse modo, possa dar um maior contributo para uma sociedade mais justa e equitativa.