quinta-feira, 29 de março de 2012

As tertúlias pós-modernas

Nunca tive apetência por ler ou fazer blogues. No entanto, sempre que procuro uma informação na net, qualquer que seja, há sempre um blogue que salta para o ecrã do meu PC, como castanhas a assar em lume forte. Vivemos na era do “Eu acho que …”; “Eu julgo que …” ou “Eu penso que…”. A partir de finais dos anos 90 toda a gente desatou a ter opinião sobre quase tudo. É claro que é muito importante ter opinião, principalmente se essa opinião for alicerçada em pressupostos, mesmo que sejam distintos daqueles que nós usaríamos para opinar sobre o mesmo assunto. Caberá ao leitor decidir fazer correr o cursor para ler essa opinião ou fechar a página. É isso que eu faço muitas vezes porque aprendi a seleccionar a informação.
Na década de oitenta, quando comecei a lidar com a internet, fiquei maravilhada com a facilidade com que se obtinha informação e com a quantidade que estava ao nosso dispor. As subidas e descidas que fazia à prateleira superior da minha estante para consultar a enciclopédia tinham acabado. Já não corria o risco de cair quando ficava entusiasmada por encontrar, ainda no local de arrumação da obra (leia-se no cimo da escada), o assunto que procurava. Apesar da dificuldade em aceder à Internet (era quase necessário ter um curso de programação!) e do tempo que demorava a fazer a ligação (o ruído também não é despiciente nesta avaliação), entrar na World Wide Web era entrar no paraíso. Na década de setenta e oitenta os jovens mais endinheirados iam de propósito a Paris e a Londres comprar livros e discos. Os menos abonados, como eu, iam a Vigo. Cá, em Portugal, só por encomenda se conseguiam comprar determinadas obras (arte, principalmente) e/ou discos. Tal como no conto de Charles Dickens, A Tale of Two Cities, para mim foi o melhor dos tempos, mas foi também o pior dos tempos. Como não conseguia processar toda a informação em conhecimento julguei estar a desenvolver uma doença chamada “estupidez aguda”. À medida que aumentava a frequência de utilização da Web, mais “deprimida” ficava com a incapacidade de guardar a informação na minha cabeça. A noção de que a informação estava ao alcance de um click era muito remota.
Nessa altura, as discussões sobre um determinado assunto (quase sempre sobre política ou arte no sentido lato do termo - cinema, fotografia…) faziam-se nos cafés. Éramos capazes de estar agarrados às palavras, aos gestos e aos olhares toda a tarde e toda a noite. Parte da minha formação foi feita dessa maneira. A outra foi lendo os livros (os tais que nem sempre estavam à venda em Portugal) que eram referidos nessas discussões. A escola era muito conservadora e nada criativa.
Se quero acompanhar os tempos, tenho que olhar os blogues como as tertúlias da década de setenta e oitenta. Por isso, seria bom que os assuntos aqui tratados fossem discutidos, principalmente por todos aqueles que vierem por bem.

terça-feira, 27 de março de 2012

No hospital ...

Hoje estou escrever fora do recato do gabinete de trabalho do meu lar. Estou numa sala de espera de um hospital, aguardando que chegue a minha vez de ser chamado para tratamento. Há muitas pessoas sentadas nas cadeiras disponíveis, caras fechadas e denotando o que parece ser medo ou, no mínimo, preocupação. As poucas conversas que têm lugar decorrem em voz moderada, como se houvesse o cuidado da parte de quem fala de não perturbar a introspeção dos restantes pacientes e acompanhantes. Como tende a acontecer em todos os espaços públicos, uma das paredes da sala acolhe um enorme televisor, plano, onde passam as imagens da "Praça da Alegria", sem som. Também aqui, o televisor faz as vezes de um quadro, de uma gravura para a qual quase ninguém olha. A mais elementar justiça impõem que se diga, no entanto, que o espaço é agradável e está decorado com fotografias do rio Douro e das suas pontes, e na parede junto à saída tem uma enorme tela de Armanda Passos, onde em fundo branco a tradicional matrona colorida aparece acompanhada de um dos seus pássaros.

[chegou a minha vez]

Uf! Uma boa notícia. A análise sanguínea que havia feito mostrou que o sangue estava em condições de receber mais um tratamento. Tenho que confessar que os momentos de espera, preliminares ao tratamento, provocam sempre um pouquinho de tensão interior, devido ao receio de não se poder fazer o almejado tratamento. Há sentimentos contraditórios associados à vinda ao hospital pela razão que cá me trouxe hoje: por um lado, o desejo de fazer o tratamento; por outro, o antecipar do desconforto e mau-estar provocado por esse mesmo tratamento, que perdurará por vários dias. Vence sempre o primeiro deles, pois tem subjacente que quanto mais depressa esses tratamentos tiverem lugar mais depressa se chega ao fim (assim se espera) dos tratamentos e do dito desconforto.

Do meu cadeirão, costas voltadas para a janela, o ecrã de televisão individual onde passa um programa do National Geographic, sem som, do meu lado esquerdo, olho em redor para os meus colegas de tratamento. As faces parecem ainda mais fechadas do que na sala de espera, mas todos os rostos, ou quase, transmitem uma sensação de resignação. Lá no fundo, cada um deve pensar, como eu, que esta provação é temporária, que melhores dias virão, dias em que sentiremos a doçura inefável da saúde, doçura que só sentimos em plenitude depois da provação. Por exemplo, hoje de manhã, quando saí de casa o Sol ainda não se tinha levantado no horizonte. Havia uma luminosidade especial, alaranjada, que salientava os contornos escuros do perfil das casas, das árvores, da linha do horizonte. Simultaneamente, a temperatura era amena, com uma ligeira brisa. Enquanto abria o carro, tive uma tomada de consciência de como é bom estar vivo e estar na posse de todas as faculdades físicas e mentais.

[o líquido vai correndo, gota a gota, do pequeno saco pendurado num suporte de aço inoxidável, deslizando pelo tubo que penetra no meu corpo] 

Aqui, agora, apesar do desconforto, físico e psicológico associado a este tipo de lugares e tratamentos, dou Graças por haver hospitais para nos tratarem e pessoas que, para além do seu profissionalismo, nos dispensam, aqui e ali, um sorriso que ameniza a tensão que nos preenche; outras que, voluntariamente, nos trazem um pouco de alimento para aconchegar o estômago.
Os meus vizinhos da frente foram agora embora, terminado o respetivo tratamento. A minha vez também não deve tardar, embora a enfermeira me tenha dito agora mesmo que a "bomba" ainda não chegou da farmácia. Este pequeno atraso até nem é mau de todo, pois permite que a Lucinda chegue antes de eu terminar. Ela, que nunca me abandona e sempre me apoia, hoje não pôde estar aqui todo o tempo devido a reunião na escola a que não podia faltar. Senti a tristeza na sua voz por estar ausente, e mal a reunião terminou pôs-se a caminho para aqui se encontrar comigo. Deve estar a chegar.


domingo, 25 de março de 2012

Ao jantar …

  1.     Jantar agradável, em Coimbra. Incluiu fado, mas também conversa sobre a crise. E, como é habitual, apareceu alguém a alocar as culpas da crise: a banca. Não concordei. Não há um único culpado, mas vários. A banca não está isenta, mas é escamotear a realidade deixar de fora, nomeadamente, a responsabilidade de cada indivíduo no volume de endividamento que contratou. Há evidência que aponta no sentido de que os maiores problemas de endividamento ocorrem com pessoas que contraíram empréstimos junto de diversas entidades, pois esses volumes de crédito seriam impossíveis de obter junto de um único financiador, dado o risco que não poderia deixar de ser reconhecido ao devedor. Portanto, não há aqui um desconhecimento do que cada indivíduo estava a fazer, nem do que as instituições estavam a fazer. “Ah!”, diz-se, “mas a banca fez publicidade agressiva, quase que obrigava as pessoas a ficar com eles!”. Pois é, mas as Testemunhas de Jeová também fazem uma Evangelização agressiva, e não consta que os seus centros de culto estejam cheios de crentes. “E os bancos não sabiam que muitos dos seus potenciais clientes tinham um défice de cultura financeira?”, também se costuma argumentar. Mas o que diria cada sujeito que, dirigindo-se a uma instituição financeira para obter um financiamento, fosse barrado por ser considerado “financeiramente iletrado”? E entra-se no domínio da liberdade de cada sujeito em contratar. Aliás, questiono-me sobre qual seria a reação da sociedade se o Governo, ou qualquer outra entidade reguladora, tivesse imposto que determinada camada da população não poderia aceder ao crédito. Argumentos à parte, eu julgo que houve três falhas fundamentais para chegarmos ao sobre-endividamento das famílias: i) até muito tarde no tempo, cada banco ou instituição de crédito tendeu a tratar cada caso de crédito a particulares internamente, sobretudo nos créditos pessoais e garantidos por hipotecas reais, sem ter em consideração responsabilidades do sujeito junto de outras instituições. Só a partir da centralização das responsabilidades financeiras numa base de dados no Banco de Portugal houve possibilidade de, mais facilmente, essas instituições terem uma perspetiva abrangente das responsabilidades globais de cada sujeito; ii) se a cada banco cabia a responsabilidade de ajuizar cada operação particular, ao Banco de Portugal caberia ajuizar das consequências macroeconómicas de uma generalização do acesso ao crédito. E parece não o ter feito, até muito tarde, e nunca, tanto quanto se sabe, de forma clara e incisiva. (o “castigo” do seu Governador foi um lugar principescamente pago no BCE.) Duas falhas grave por parte de uma instituição pejada de técnicos principescamente pagos, o considerar que um país do Euro não tinha limites ao endividamento e o não antecipar o problema macro do endividamento das famílias; iii) o silêncio das agências de “rating” durante quase dez anos, não pontuando o risco crescente de cada país à medida que o seu endividamento aumentava. A terem feito isso, com um “downgrading” do “rating” atempado, não se teria chegado onde se chegou, pois o custo do dinheiro teria aumentado e, por essa via, reduzido a procura de crédito. Agora, essas agências procuram recuperar o tempo perdido … com os nefastos efeitos que se conhecem.

2.   O Teixeira dos Santos esteve indicado para ocupar um lugar na administração da PT, indicado pelo governo (!). “Uau!, afinal não se olha à cor da camisola”, terão pensado os mais inocentes, onde me incluo. Pois é, mas um lugar tão apetecível não deixaria de provocar acesa luta. Foi o que aconteceu e o ex-ministro das Finanças parece ter perdido a hipótese de ser recompensado do esforço mal pago que fez durante os anos que esteve no Governo.

3.      Um olhar sobre o mundo da academia, concretamente sobre o domínio dos júris de provas académicas de doutoramento. Não há júri que não tenha mais de cinco elementos. Podem ser sete, nove ou até mais. Um desperdício de esforços/recursos, que o Simplex não acautelou. Começa pela dificuldade em definir uma data e hora que sirva a todos os membros … implicando, por vezes, meses de dilação das provas, com o que isso pode significar de custos para o candidato. Depois, surge o custo financeiro de deslocar pessoas de diversos pontos do país, quando não do estrangeiro, para o lugar das provas. E termina, para se ser breve, com o facto de a dimensão do júri não ser sinónimo de melhor avaliação do trabalho do candidato. Pelo contrário, quanto maior o número de membros do júri, maior parece ser a diluição de responsabilidades na definição e votação do veredicto final. Seria um estudo interessante voltar às teses de doutoramento arquivadas nas bolorentas prateleiras das bibliotecas universitárias e reavaliar os contributos científicos desses trabalhos e relacioná-los com as classificações atribuídas. Talvez se chegasse à conclusão de que tem algum grau de verdade aquela “piada” que os ingleses usam de que, para o resultado final das provas de doutoramento, não interessa o tópico escolhido pelo candidato, a profundidade do seu trabalho e os contributos científicos (ou falta deles), mas sim o nome e posição do respetivo orientador (cujas qualidades profissionais nem sempre coincidem com a qualidade da orientação efetuada). Os ingleses, pelo menos, se não podem obviar a tal facto, são mais comedidos na questão dos júris: duas pessoas é o suficiente para avaliar os trabalhos. E num júri tão pequeno, qual dos membros não pensa na respetiva responsabilidade pessoal ao pronunciar o veredicto final?