sexta-feira, 13 de abril de 2012

A crise não é para todos …


Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular, quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos, colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a que se vive atualmente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A meta


[na sala de espera]
Uma meta existe para ser cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente. E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a “corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista dos passos percorridos e a percorrer. 
As forças por vezes escasseavam, o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o “12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial, o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas “metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à saúde.
Hoje é, pois, um dia especial. O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o “12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida, por ser mais uma batalha vencida.
[na sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente, a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da segunda.
Paciência. A vida é mesmo assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.   

[em tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".   

domingo, 8 de abril de 2012

Acabem com as praxes académicas … Já!


A notícia chegou pelos jornais, sem grande destaque. Em Coimbra, alguns “doutores”, no âmbito das atividades da praxe académica, agrediram duas colegas estudantes cujo único “crime” foi o serem “caloiras” na Universidade e não quererem entrar na (estúpida) brincadeira. A gravidade da situação não provocou outra consequência para além de uma suspensão temporária, por parte da Associação Académica (AA), até que se apurassem responsabilidades.
Isto já seria suficiente grave. Porém, há sempre umas “bestas” (não me ocorre forma mais suave de os apelidar, com o devido respeito pelos animais assim chamados) que se arvoram defensores do indefensável. A fazer fé na informação veiculada pela imprensa, não desmentida, um grupo de estudantes (“doutores”) da Faculdade de Economia do Porto viajou de propósito para Coimbra, para continuar as atividades da praxe, porque a decisão suspensiva da AA não se lhes aplicava e era a forma de protestarem contra a suspensão da praxe. Incrível! Incrível por existirem tais “bestas”, que com tantas formas de serem úteis à sociedade – a começar pela obtenção de aproveitamento escolar – aplicam os seus esforços a dar cabo da vida dos outros.
Incrível, também, por as autoridades não tomarem medidas para colocarem termo, de uma vez por todas, a essa aberração que se dá peno nome de praxe académica. Os reitores das universidades não querem comprar uma briga, apesar dos graves incidentes que ao longo dos últimos anos foram ocorrendo. Viram a cara para o lado, assobiam para o ar. E não é por falta de aviso e de pressão por parte dos docentes do ensino superior, que veem parte do seu esforço letivo esvair-se no tempo desperdiçado pelos alunos nesse tipo de atividade. Um exemplo concreto. Ao longo dos últimos anos, a denominada semana da Queima das Fitas era período em que não havia aulas, de modo a permitir aos alunos dedicarem-se de “alma e coração” a todos os excessos e desmandos. Este ano, a Reitoria da universidade deve ter considerado, finalmente, que não fazia sentido parar as aulas a poucas semanas do final do semestre letivo. O que fez?! Quando aprovou o calendário letivo deixou as coisas numa situação dúbia, porque não marcou a semana como período de “férias”, mas também não foi assertiva quanto ao facto de ser semana de trabalho. Empurrou, portanto, a “batata quente” para os diretores das escolas, deixando ao cuidado de cada um tomar a decisão adequada. E se um empurra o assunto com a barriga, porque não pode o seguinte fazê-lo também? O diretor da Faculdade, com o beneplácito do Conselho Pedagógico, também empurrou o assunto, agora para os docentes. Cabe a estes, em cada disciplina, decidir se existe ou não aulas nessa semana. Parece impossível, mas é verdade! Assim, as entidades que deviam assumir a responsabilidade por introduzir algum sentido de responsabilidade neste processo, têm as suas mãos limpas, qual Pilatos, deixando para o fim da linha o odioso de contrariar as camadas jovens cujos interesses se centram em aberrantes brincadeiras que, na maior parte dos casos, conflituam com a dignidade dos estudantes que acabam de chegar à Universidade.   
Não compreendo como é que o Governo do país, sempre pronto a fazer tábua rasa de qualquer direito ou autonomia que permita poupar uns tostões, não decide intervir neste domínio, onde se esbanjam milhões anualmente – sem falar dos efeitos de longo prazo – por via do efeito da praxe sobre o aproveitamento escolar dos alunos.
Por favor, haja alguém que nos livre das praxes! Por favor …

Acudam-nos! Livrem-nos dos porcos …


No sábado fomos jantar a casa de uma colega. Foi bom. Ambiente agradável, comida boa, conversa amena. Perfeito, para umas horas de descontração. A determinada altura, no meio da conversa, veio a lume o considerada “insuficiente” cuidado dos franceses com a limpeza pessoal e dos seus espaços privados. Na altura, lembrei-me também do caso dos ingleses, que parecem afinar pelo mesmo diapasão. Pelo menos para mim, quando com eles convivi de modo mais intenso e usufrui da respetiva hospitalidade, sempre me fez um pouco de confusão o respetivo desprendimento para com as questões da higiene (modo simpático de dizer que me pareciam sujos).
Na segunda-feira, cedo pela manhã, tive de viajar de comboio, rumo a Caminha. Cada vez gosto mais de usar o transporte público e, de modo particular, o comboio. Para além, claro, da questão de (menor) custo que lhe está associada e que, na atual conjuntura, não é despicienda. Portanto, com os campos ainda cobertos pelo orvalho da manhã, onde o Sol incidia criando reflexos de pérolas, recostei-me na confortável poltrona, e pese o menos agradável cheiro a gasóleo libertado pela locomotiva, preparei-me para uma agradável viagem.
Infelizmente, não foi tão agradável como isso. Duas razões explicam que o prazer da viagem não tenha sido o desejável. Primeiro, o caos arquitetónico que me foi dado ver. Não se tratou apenas de uma mera questão de gosto pessoal, mas sim de situações de uma fealdade atroz que povoa uma paisagem natural que seria agradável, a que se junta a falta de manutenção das construções implantadas no meio do verde dos campos e ou dos pinhais. As construções nas bermas da linha causavam arrepios, tão feias eram. Aliás, aquilo que me pareceu era que os proprietários se preocupam essencialmente com a frente das suas propriedades, desmazelando os “fundos” das mesmas, a parte virada para a linha, que são sujos e feios.
Segundo motivo, mas muito estreitamente ligado ao primeiro, o lixo atirado para a berma da linha que, em determinados zonas, principalmente junto de estradas que cruzavam a via-férrea, eram autênticas lixeiras a céu aberto. Horrível, mesmo para mim que habitualmente não me perco com os detalhes e prefiro olhar para o longe e procurar abarcar o belo da paisagem na linha do horizonte.
Não pude evitar voltar a reviver a conversa durante o jantar de sábado e a opinião que formulámos dos franceses (e ingleses). Com pena minha, tive de concluir que se estes povos não prezam pelo asseio e limpeza no interior das suas casas, ou mesmo na sua higiene pessoal, são de extremo asseio no domínio público. Nós, os portugueses, tendemos a apresentar comportamentos diametralmente opostos. No domínio privado somos exímios na limpeza e asseio; no domínio público, somos o terror. Tudo o que nos estorva em casa, tende a ser lançado no espaço público, sem cuidarmos de que este não nos pertence integralmente, mas tem de ser partilhado com todos os restantes. Apesar dos investimentos efetuados na recolha de lixos, que nalgumas localidades, chega a ser personalizado, no sentido de que as autarquias respondem objetivamente às necessidades dos cidadãos e a pedido destes, as mentalidades tendem não mudar. Fora dos muros dos nossos “castelos” todo o terreno é propício para alijarmos a porcaria que fazemos, atropelando sem dó nem piedade os direitos dos nossos concidadãos.
Que vergonha!   

Lenitivos morais …


A conversa seguia agradável, passado de uns assuntos a outros, numa espécie de contínuo. E chegou à corrupção, vinda da quase nunca clara e consistente fraseologia da Lei. “Não compreendo como alguém pode deixar-se corromper.”, disse. “Será que essas pessoas [os corruptos] conseguem dormir descansados?”. Atirei para a conversa algumas ideias recolhidas na literatura da especialidade: “Eu penso que sim. Aquilo que essas pessoas tendem a fazer é encontrar uma justificação para o ato que cometem, uma espécie de lenitivo moral. A partir daí o ato deixa de ser reprovável para o sujeito, encontrando-se justificado à luz da respetiva consciência.” Concordámos que, por exemplo, um funcionário público que sinta que está a ser injustiçado e a ser remunerado abaixo do esforço dispendido, como é o caso dos cortes nos subsídios de férias e de Natal, poderá encontrar aí uma justificação para um eventual ato de corrupção passiva. Para ele(a) o ato de corrupção tenderá a ser um ato plenamente justificado, pois é apenas um ato de justiça.
Diz o povo que as conversas são como as cerejas: atrás de uma vem outra. E assim foi. A corrupção puxou a questão dos impostos e da evasão fiscal. “Se puder não pagar o IVA, não pago.”, disse. “Isto porque toda a gente ‘foge’ ao imposto.” E alinhavou um quantos exemplos, como o do imposto sobre imóveis, para demonstrar que não era racional ser cumpridor, até porque, em sua opinião, a Lei já está preparada para que cada um não cumpra na totalidade as suas obrigações fiscais. Sem pretender julgar a moralidade de tal raciocínio, não pude deixar de sorrir interiormente, ao verificar que juntamente com a confissão do ato associal que é a evasão fiscal veio a justificação (pessoal) para o cometimento do reprovável ato. Comportamento consistente com o que a literatura teoriza sobre o assunto.
A conversa avançou para outros temas, com a mesma vivacidade. Porém, na minha mente ficou a bailar a questão que não me atrevi a colocar ao meu interlocutor: “Porque será que alguém recusa liminarmente a possibilidade de ser parte de um ato de corrupção e, no entanto, encara com normalidade um ato igualmente associal (e criminoso) como é a evasão fiscal?”
Gostaria de ter uma resposta para dar a mim próprio, mas não tenho. O mais que consigo aventar são meras hipóteses explicativas, sob a forma de outras questões. Será o “amor próprio” do profissional, o denominado “brio profissional”, que se sobrepõe à expetativa do provento associado à corrupção? Será a dificuldade de ter de tratar, “olhar no olhar”, com o corruptor os detalhes de uma ação menos corrente, apesar de tudo, do que a evasão fiscal? Será o medo da eventual penalização, potencialmente mais gravosa do que o da evasão fiscal?
Não sei qual será a explicação, embora, em abstrato, me incline mais para a primeira. Porquê maior inclinação para esta?! Não sei.