[na
sala de espera]
Uma meta existe para ser
cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente.
E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma
miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a
“corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de
ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em
especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância
da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem
metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no
último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente
dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi
uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse
objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista
dos passos percorridos e a percorrer.
As forças por vezes escasseavam,
o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de
todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está
aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que
me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a
meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do
hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o
“12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me
parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um
pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo
existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o
tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho
plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um
doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa
realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial,
o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra
é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas
“metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas
permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à
saúde.
Hoje é, pois, um dia especial.
O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o
“12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo
desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida,
por ser mais uma batalha vencida.
[na
sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu
murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que
a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em
que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no
decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente,
a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde
estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar
onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que
não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este
seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam
dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das
regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto
químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de
sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da
segunda.
Paciência. A vida é mesmo
assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja
o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem
decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.
[em
tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou
preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um
pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal
e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".
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