quarta-feira, 11 de abril de 2012

A meta


[na sala de espera]
Uma meta existe para ser cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente. E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a “corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista dos passos percorridos e a percorrer. 
As forças por vezes escasseavam, o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o “12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial, o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas “metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à saúde.
Hoje é, pois, um dia especial. O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o “12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida, por ser mais uma batalha vencida.
[na sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente, a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da segunda.
Paciência. A vida é mesmo assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.   

[em tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".   

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