O
plano era simples. Sábado de manhã, com calçado apropriado, ir ao posto de
turismo buscar informação sobre o Parque Nacional do Alvão e partir para longas
caminhadas. Mas, como diz o ditado, “a ração não é para quem a talha, mas para
quem a come”.
Primeiro,
o posto de turismo estava encerrado ao sábado. Custou, e custa, a perceber a
razão desse encerramento, quando se pretende fomentar o turismo e acolher os
visitantes. Desanimados, ao tomar café numa agradável esplanada próxima,
aparece o H., um colega da Lucinda, e dois dedos de conversa levaram a uma
manhã de caminhada … na cidade.
Quem
não gosta de mostrar a visitantes a cidade onde nasceu e cresceu? Isso
acontecia com H., que nos levou a conhecer alguns cantos históricos e
pitorescos de Vila Real. O plano estava alterado, mas nem por isso o programa
foi menos interessante. Pelo meu lado, fiquei com vontade de lá voltar e
usufruir do aconchego desta pequena cidade cheia de história … e de “estórias”
(o seminário maior das 365 janelas; o escudo dos Távoras limpo pelo Marquês; a
coleta dos 100 contos para colocar o primeiro elevador num prédio de Vila Real,
edifício que hoje é considerado uma aberração em plena zona histórica; a
taberna da Baca Belha, onde conhecemos o C.G., um inglês há quinze anos na
cidade, com uma visão muito própria da cidade e do país …).
No caminho para Vila Pouca de
Aguiar, à saída de Cerva, aparece lá em baixo, num pequeno vale profundo, a
aldeia de Cabriz, cujo núcleo é composto por um conjunto de grandes casas de
granito que parecem remontar a meados do século VXIII. Casas que deixam antever
terem sido pertença de famílias ricas. Uma pergunta cruza a mente: como é que uma
localidade tão pequena, com pouca terra agrícola disponível, tinha condições
para albergar no seu seio tantas casas grandes e ricas? Seria o pastoreio a explicação?
Ficou a vontade de pesquisar mais tarde a resposta para estas perguntas.
A parte urbana de Vila Pouca de Aguiar é muito
agradável. Um núcleo estruturado em torno da parte mais antiga, numa simbiose
pensada e executada para agradar ao visitante. Foi uma primeira visita, mas permitiu
constatar que por lá havia noutros tempos passado o comboio. Não que os carris
de ferro fossem prova disso, pois não existem, mas a estação de ontem estava lá
a atestar esse passado, bem preservada e transformada em centro cultural. O
comboio, que existiu e hoje não existe. Um passado que é olhado, por alguns,
como condicionante (negativa) do presente.
“Sardinha,
chucharro, salmão, camarão, polvo e outros peixes … a bom preço”, apregoados
em alto som, tendo como música de fundo um vira minhoto. Eram 9:30 horas da
manhã, o carro do peixeiro parado mesmo por baixo da janela do hotel. Um modo
inesperado de acordar. Se o sono tivesse varrido essa consciência, o barulho
não permitia escamoteá-la: estava-se no Portugal profundo, onde o tempo parece decorrer
mais vagarosamente.
A chegada à sala do
pequeno-almoço foi feita já para além de hora aceitável. Porém, o sorriso da
gerente foi aberto e sincero: “Não há problema. Não se esqueçam de provar o
doce de figos.” E para que assim fosse, foi buscar o frasco e colocou-o na
mesa. Uma maravilha, adicionada a um pão gostoso com sementes. “Eis uma das
vantagens de se estar instalado num hotel pequeno, onde cada cliente é tratado de
modo particular”, pensei para com os meus botões, enquanto saboreava o pão com
doce.
Há uma ideia que é do mais
elementar bom-senso: não se deve improvisar. Deve-se, sim, planear, programar,
definir objetivos ou destinos. Comungo dessa ideia. Porém, uma pequena dose de
improviso, sobretudo em viagem, coloca um pouco de “sal” e aproxima o simples
viajar da aventura.
Foi o que aconteceu desta vez.
Destino: “Parque Nacional do Alvão”, com entrada pelo norte. Pesquisa-se um
hotel de preço acessível, numa localidade que se não conhece – de nome Cerva –,
não se faz reserva. Chega-se ao hotel quase por acaso, pois o trajeto não foi
pródigo em sinalização. A sorte está presente: só havia um quarto disponível.
De caminho, ainda houve
oportunidade de aprender que Mondim de Basto, encostada ao cónico monte da Sra.
da Graça, não se confunde com Celorico ou Cabeceiras, também das terras de
Basto.
Cerva foi uma agradável
surpresa. Plena de história, com as suas pontes românicas e as suas casas
brasonadas; com infraestruturas atuais, que tornam agradável a vida dos seus
moradores e daqueles que a visitam, onde avulta uma belíssima praia fluvial e
variados restaurantes e estabelecimentos comerciais.
Fim de dia, hora de procurar
local para jantar. Muita oferta, mas quase todos os locais vazios. E isso é um
problema, pois um restaurante vazio tende a ser frio, despido daquele mínimo de
calor humano que torna minimamente agradável qualquer repasto.
No espaço de poucos dias os meios de comunicação
social fizeram eco de duas situações do mesmo teor: há atividades que
necessitam de trabalhadores para trabalhos sazonais – como a apanha do tomate
ou das uvas – e não os conseguem obter.
Tendo em consideração o desemprego galopante que
castiga o país, este tipo de notícias é sempre objeto de parangonas que
confrontam as duas realidades – o desemprego e a escassez de trabalhadores – de
forma a realçarem o paradoxo associado. Um terceiro elemento é, também,
geralmente associado à publicitação deste tipo de notícias: o dos subsídios que
os desempregados, ou as famílias com muito baixos recursos, recebem dos
sistemas de segurança social e solidariedade, alimentados pelos impostos dos
contribuintes.
Pode-se argumentar que este tipo de notícias, e o enquadramento
que lhes é dado, é enviesado; que notícias pontuais de procura de trabalhadores
não refletem a realidade nacional, onde escasseia o trabalho; que desencontros
de natureza geográfica, entre a oferta e a procura de trabalho, nunca são tidos
em consideração para enquadrar as notícias.
Pode-se, efetivamente. Porém, é justo pensar que há
instrumentos de política social, como o caso da atribuição de um subsídio a
quem cai numa situação de desemprego, que são justificáveis no contexto de um
país solidário e socialmente comprometido, mas que podem acabar por ter um
efeito nefasto sobre o funcionamento do mercado de trabalho e o “casamento”
entre oferta e procura.
Foi há cerca de uma semana. A notícia surgiu de repente,
primeiro num jornal eletrónico, depois num canal televisivo com uma entrevista
à respetiva “fonte”: o Governo já tem plano para a RTP, passando por encerrar o
Canal 2 e concessionar o restante serviço por 15 ou 20 anos.
1. Desde então não se tem falado de outra coisa. Sem que o
Governo expressamente tenha assumido a notícia como credível, as opiniões são
esgrimidas sem descanso nos órgãos de comunicação. Partidários versus opositores. Entre estes últimos,
sobressai em tons garridos aquela desconfiança endémica que é um traço
caraterístico da nossa cultura: a medida é um meio para favorecer os amigos dos
partidos no Governo.
Eu não posso afirmar que não venha a produzir esse
resultado. O que eu não concordo é que, mesmo antes de se conhecerem os
contornos da operação – supondo que efetivamente se trata de uma notícia
verdadeira – se comece por assumir que há favorecimentos, que há ilicitude, que
os poderes públicos instituídos não são capazes de contrariar e punir
comportamentos menos adequados no tratamento da “rés publica”. É triste que a
discussão de aspetos importantes da nossa vida coletiva nunca seja feita com
argumentos esclarecedores e fomentadores de uma troca de opiniões sã e abrangente. Não,
as “discussões” versam sempre a desconfiança no outro, partem sempre do
princípio de que ele é criminoso, mesmo antes de se ter encetado qualquer ação.
Caso 1: Em 2001 o Estado português adquiriu um conjunto
de helicópteros. Como na altura não havia fundos para os pagar, os responsáveis
do Ministério da Defesa à altura inventaram um complexo esquema de engenharia
financeira destinado a possibilitar a compra. Na prática, simplificando as
teias das intrincadas relações de sociedades envolvidas no caso, aquilo que
aconteceu foi os referidos equipamentos terem sido adquiridos em “locação
operacional”. Traduzido, significa terem sido alugados, contra pagamento de uma
renda à sociedade que efetivamente os adquiriu. Resultado: o custo efetivo dos
equipamentos verificou um desvio para mais, relativo ao preço original, de mais
de 50%, ou seja, qualquer coisa como mais 120 milhões de euros!
Como se tudo isto não bastasse para se pedirem
responsabilidades, vem agora o Tribunal de Contas alertar para o facto de se terem
vindo a pagar em duplicado faturas relativas à referida operação. Pura e
simplesmente, no meio de tanta engenharia financeira, não se assegurou que um
qualquer organismo tivesse ficado responsável pelo controlo das “contas”.
O Ministério da Defesa vai mandar fazer um
inquérito ao sucedido. Já sabemos o que significa isso: mais tempo e recursos desperdiçados,
pois nunca se apuram responsáveis e responsabilidades.
Jornal Público de 21/7/2012: “Anúncios de emprego oferecem mais dinheiro a serralheiros que a engenheiros”. A informação que substanciava tal título referia que “No site da Netemprego [Instituto do Emprego e Formação Profissional] oferece-se um lugar para um engenheiro mecânico, em Lousada, com conhecimento de três línguas (Inglês, Francês e Espanhol) e um salário de 600 euros, inferior aos 800 euros pagos a um torneiro mecânico, em Alcobaça, um serralheiro mecânico, em Pombal ou a um montador de tubagens, em Valença.”
Depois de nas últimas semanas termos ficado chocados com os 3,5 Euros/hora que o Ministério da Saúde tinha recebido como oferta a uma consulta de mercado para a aquisição de serviços de enfermagem, ou os 4,5 Euros para serviços médicos, esta notícia é mais uma achega que nos remete para os enviesamentos que ao longo das últimas décadas a formação (educação) profissional no país verificou. Ser “doutor”, num país que tinham falta de licenciados, era (é )o sonho de todo o jovem. E ao longo dos anos uma grande parte dos recursos públicos foi afeta a criar as condições para que o sistema de ensino, publico e privado, possibilitasse esse desiderato. Os cursos de licenciatura brotaram a esmo, às centenas, nalguns casos diplomando pessoas em especialidades bizarras para as quais, nem com muita imaginação, se conseguia perspetivar uma aplicação profissional direta.
O
tema do seminário era a discussão das perspetivas de evolução futura da
economia portuguesa. Dois oradores. O primeiro, apresentando dados
macroeconómicos relativos à evolução recente e tendências de evolução futura
das exportações portuguesas. O segundo, administrador de uma empresa portuguesa
dedicada ao fabrico e comercialização de azeite e óleo alimentar – a Sovena –,
descrevendo as principais etapas do respetivo processo de internacionalização.
Centro-me
nesta última apresentação. O referido senhor, a determinada altura, a propósito
do azeite, referia o facto da sua empresa ao longo dos anos ter vindo a fazer
vultuosos investimentos.
"A nossa atividade, que é verticalizada,
abrange desde a produção da azeitona à comercialização do azeite e é totalmente
automatizada." – referiu. Com mais detalhe, explicou que a plantação das
oliveiras em imensos olivais é mecanizada; a rega das oliveiras é automatizada,
sendo controlada a partir do Alentejo, não só para os olivais que têm nessa
região, mas também para os que têm em Espanha e em Marrocos; a recolha da
azeitona é mecânica, e é automatizado o processo fabril inerente ao fabrico e o
engarrafamento.
Em
virtude disso, uma empresa verticalizada como esta, que tem uma quota superior
a 6% do mercado mundial de azeite, não emprega no conjunto, nos diversos países
onde está implantada, mais de 1000 pessoas.
Por
questões profissionais, há dias participei num jantar de negócios. Um daqueles
encontros agradáveis, descontraídos, num restaurante bonito que, além de outros
predicados, tinha o aliciante de proporcionar boa comida.
Os
restantes convivas, pessoas simpáticas e bem-falantes, denotavam traquejo de
participação em muitos encontros sociais semelhantes. Isso era facilmente percetível
pelo modo como cada um contribuía para a conversa sem, no entanto, a monopolizar;
como cada um, qual ator ensaiado, assegurava que a conversa não esmorecia,
alimentando-a, esticando o assunto umas vezes, outras introduzindo-lhe subtis
mudanças de rumo.
Neste
ambiente deveras agradável a nota menos positiva, para alguém com o meu orçamento
mensal, foi pensar no preço da refeição. Sem ser uma refeição de exageros, uma
pequena entrada, o prato principal, a sobremesa e um pouco de vinho – uma
garrafa para seis – rondou os 50 euros por pessoa. Um montante que, confesso,
não é irrelevante no meu orçamento. É, em termos médios, o montante mensal que
me permito gastar em atividades sociais e ou de lazer.
Face
a este nível de preços e ao facto de se tratar de uma quinta-feira, esperava
outra afluência ao restaurante. Porém, durante as mais de duas horas que a
refeição durou ele esteve sempre completamente cheio. Cedo me convenci que
aquela situação que então vivia era mais uma evidência de que os efeitos da
crise são assimétricos, esmagando os financeiramente mais débeis, passando ao
lado dos restantes.
Não
é preciso alguém ser um observador muito atento para se aperceber, com
facilidade, que de há cerca de dois anos a esta parte as lojas de compra de
ouro usado têm surgido quase como “cogumelos em tempo de chuva”.
Primeiro
nas zonas urbanas mais populosas, depois, quase como um “tsunami” que se
desloca para os arredores das grandes cidades e, daí, para o interior. Por mais
intensa que seja a crise para alguns dos cidadãos portugueses, dificilmente se
consegue acreditar que haja tanto ouro para vender de modo a gerar negócio para
todas as lojas existentes. [Mesmo que as margens de lucro do negócio sejam
elevadas.] Em certas localidades, mesmo que pequenas, este tipo de negócio
aparece implantado (quase) porta sim, porta sim, com as suas janelas pintadas
de cores vivas opacas, permitindo salvaguardar a privacidade de quem em
desespero se socorre de tal fonte de financiamento e servindo de superfície
onde se anuncia em grandes parangonas “Compra-se ouro usado”.
De
acordo com a imprensa escrita de ontem (15 de junho), a Madeira recebeu a
primeira prestação do acordo financeiro que negociou com o governo da República
Portuguesa. Esse montante destina-se a pagar uma pequena parte das muitas
dívidas que a Região Autónoma foi acumulando ao longo dos últimos anos. Dívidas
que, recorde-se, em parte foram escondidas até ao limite em que a respectiva
dimensão já não possibilitava continuar a fazê-lo.
Ontem,
também, essa mesma imprensa fazia eco de mais um relatório do Tribunal de
Contas onde se denuncia que, na área do desporto e turismo, o governo da
Madeira escondeu quase duas centenas de milhões de euros de dívidas.
Mas
o caso da Madeira não é único. Ainda há poucos dias se ficou a saber, a partir
gualmente do Tribunal de Contas, que no caso da renegociação de parcerias
público-privadas relativas a auto-estradas houve sonegação de informação, o que
levou a que o respectivo contrato tivesse sido (indevidamente) despachado de
modo favorável por aquele tribunal.
Apesar
destes casos de fraude na prestação de contas, o facto é que não se notam
indícios de que as autoridades judiciais se aprestem para apurar responsabilidades
e penalizar as pessoas que cometeram tais atos. O que
pontualmente se toma conhecimento é de estes episódios serem objecto de
“chicana política” numa qualquer comissão parlamentar.
Há
minutos a rádio noticiava que a agência de notação Fitch tinha cortado o “rating”
de Espanha – uma medida da capacidade deste país solver os seus compromissos –
em três níveis de uma só vez. É preocupante a notícia. Refiro duas razões.
Primeira,
um corte desta dimensão indicia uma alteração muito substancial num curto prazo
das condições inerentes à economia espanhola. Se bem que a Espanha já há muito não
estivesse na “crista da onda” em termos das boas graças dos mercados, as
últimas semanas neste domínio têm sido devastadoras. No centro, a má situação
de parte dos bancos espanhóis, a necessitarem urgentemente de injeções astronómicas
de dinheiro para evitarem a falência. Se é comumente aceite que os responsáveis
do recentemente empossado governo espanhol não têm sido eficazes ao nível da
gestão mediática dos problemas que o país atravessa, demonstrando uma enorme
inabilidade – com constantes “tiros nos pés” –, o facto é que até o cidadão
comum vai tomando consciência a cada dia que passa da muito difícil situação do
sistema bancário espanhol, bem pior do que se poderia pensar.
Imagine
o leitor uma turma com cerca de cinquenta alunos, onde a maioria está
desmotivada para o estudo (qualquer que este seja). Por mais que o professor
faça, nas aulas e fora delas, a desmotivação dos alunos é uma constante. Se,
por acaso, uma qualquer novidade quebra por breves momentos a sua apatia, logo esta
está de volta. Às vezes imagino que mesmo que o teto da sala começasse a desabar,
os alunos não se mexeriam. (Estou a ser exagerado.)
Mas
eis que um dia – há algumas semanas –, quando entrei na sala de aula, constatei
que havia um aluno novo. Pode parecer estranho que disso me tenha apercebido,
no meio de quase meia centena de estudantes, em particular num contexto em que
a turma tem uma composição variável no tempo. Não tivesse eu notado a
existência de um novo aluno e rapidamente me teria confrontado com tal
situação, pois ele veio ter comigo, apresentou-se, pediu desculpa por desde o
início do semestre ainda não ter vindo às aulas e justificou a ausência com o
ter estado adoentado.
A
aula começou e, quase de imediato, apercebi-me que o referido aluno estava
super-motivado, intervindo continuamente, com achegas sobre os assuntos em
discussão e não só. Sempre que eu projetava um “slide” ou escrevia algo no
quadro negro, a sua intervenção não se fazia esperar.
Pensará
o leitor que este era o milagre de que eu estava à espera para que a turma se
motivasse. Não me parece. Já explicarei porquê. Antes, deixe-me dizer porque detetei
a presença do novo aluno mal entrei na sala.
No jornal Público Online de hoje
li a seguinte notícia (reproduzo extrato):
“Utilizar telemóvel no carro resulta em sete multas por hora
Quando o condutor atende uma chamada telefónica ou escreve
uma mensagem está a desviar o olhar da estrada. O uso incorrecto do telemóvel
ao volante está a dar origem a sete multas por hora. … no primeiro trimestre
deste ano, houve uma média de 163 contra-ordenações por dia, sete por hora. Ao
todo, somaram-se 14.649 autos. Se assim continuar, este ano haverá mais
registos do que no ano passado, altura em que se verificaram 57.905. … A multa
para este tipo de infracção tem o valor mínimo de 120 euros mas pode chegar ao
máximo de 600. Ao contrário do que muitos condutores acreditam, não é por se
estar parado no semáforo, à espera que o sinal passe para verde, que não se
pode ser multado. Os semáforos fazem parte do percurso. Por isso, a alternativa
para falar ao telefone ou enviar mensagens é estacionar o carro.”
Sorri. Duas razões
explicam esta minha reação.
Primeira, porque pensei que estes
números não mostram mais do que a ponta do “iceberg”. São tantos os condutores
que vemos ao telemóvel enquanto conduzem, que estes “apanhados” são apenas uma
pequena amostra … aqueles que tiveram "azar".
Segunda, porque me trouxe à mente uma
cena que tinha presenciado um par de horas antes. De manhã cedo, no
trajeto para o emprego e num troço da auto-estrada particularmente difícil pelo
grande fluxo de trânsito e pelas manobras perigosas que aí ocorrem – a
confluência da A4 com a A3 –, uma viatura seguia à minha frente em marcha
“moderada” (cerca de 70 km
hora), em longos ziguezagues, dentro da faixa em que se deslocava, por vezes chegando
a entrar na faixa adjacente.
Fui
convidado para fazer parte do comité científico de um congresso na área da
Contabilidade, que decorrerá em Setembro, em Ofir. O efeito mais imediato deste tipo de
convites, quando aceite, é recebermos um conjunto de potenciais comunicações ao
congresso, para efeitos de avaliação. O objetivo desta tarefa é selecionar,
para apresentação, comunicações que proponham algo de inovador e sejam bem
elaboradas.
Dos
cinco trabalhos que me couberam, todos na área da Contabilidade Pública, quatro
podem ser considerados como “eventualmente apresentáveis”, embora se situem, em
termos de qualidade, na metade inferior da tabela. Por outras palavras,
trata-se de trabalhos a pender para o fraco. Uns porque não propõem nada de
novo; outros porque apresentam lacunas metodológico-científicas.
Quando
eu já desesperava face à fraca qualidade do lote que me coubera avaliar, eis
que o quinto, e último, apareceu como uma “lufada de ar fresco” para aliviar o
meu desconforto.
Começo
por dizer que tenho uma conta no Facebook. Confesso, porém, que nem sei bem por
que a mantenho. Há cerca de dois anos tive de a abrir por razões profissionais,
para aí colocar e partilhar um pequeno texto de minha autoria. Desde então,
passam-se meses sem a abrir, apesar dos constantes lembretes que recebo sobre
os pedidos de amizade que esperam por resposta. Ontem, por exemplo, fui lá e “despachei”
o expediente, num rápido. Tenho de confessar, também, que não conheço bem as
funcionalidades da aplicação e que fico surpreso sempre que ouço pessoas dizerem
que a visitam dezenas de vezes ao dia, aí colocando todas as suas vidas. Fico
com a sensação - exagerada, certamente - de que para tais pessoas o Facebook é quase tão importante como
o ar que respiram.
Saí
de casa, fechando a porta atrás de mim, em direção ao carro, estacionado do
outro lado da rua. Não sei explicar o como ou o porquê, mas o facto é que
fiquei extasiado. Parei e olhei à minha volta. Imperava o silêncio, o céu
estava azul profundo e a luminosidade da manhã, antes de o Sol estar visível,
emprestava ao ambiente uma tonalidade irreal. O verde de diferentes tonalidades
nas árvores matizava o colorido do espaço. Respirei fundo e dei Graças a Deus
pela vida e pelo usufruto dos sentidos que Ele me proporcionava. Sentia-me
enlevado, bem comigo próprio e com o Mundo.
Abri
a porta do carro, instalei-me, rodei a chave na ignição. O rádio estava ligado
e começou a difundir música clássica: o concerto para piano e orquestra nº 23
de Mozart. A “cereja no topo do bolo”. Apetecia-me ter ficado ali parado, a
escutar a música e a viver o momento. Não podia. Iniciei a viagem, mas
contrariamente ao que faço habitualmente – em que desligo o rádio –, não o
desliguei. Coloquei o som mais baixo e fui conduzindo, enquanto rezava as
minhas orações matinais.
A
semana passada fui convidado para moderar um painel de peritos, num encontro
sobre “economia paralela”. Para os menos familiarizados com o termo, significa
a parte das transações económicas efetuadas num país (vendas de bens e
serviços) que não são registadas. Para ser mais concreto, uma parte substancial
dessa economia paralela resulta de algo que se ouve falar com frequência, as
denominadas “vendas sem fatura”.
Na
generalidade dos casos, como foi o presente, o papel do moderador é residual.
Abre a sessão, com meia dúzia de palavras sobre o modo como ela será alinhada;
apresenta cada um dos oradores; na fase da participação da audiência, vai
gerindo as perguntas colocadas, distribuindo-as por cada orador; no final,
encerra os trabalhos, com algumas palavras que sumariem as ideias principiais
da sessão – mas que não podem ser muitas, já que a audiência se começa a
movimentar com vista a preparar a saída.
São
16:30 horas. Estou na sala de espera do IPO, aguardando a chamada para o
tratamento. A Lucinda está aqui ao meu lado, às voltas com “dossiers” de alunos
que, durante as horas de trabalho na escola, não teve tempo de atualizar.
Fomos
almoçar a Matosinhos. Como o tratamento estava agendado para meio da tarde, deu
tempo para um almoço diferente, um pouco mais calmo e variado. As sardinhas
eram “secas (aviso do funcionário do restaurante O Tito) e por isso optámos pelo
salmão. Usufruímos de uma belíssima refeição. No retorno, em direção ao
hospital, parámos no Continente para comprar uns bombons destinados às
enfermeiras de serviço.
Dia
2 de Maio de 2002. Às 14:00 horas, numa pequena sala da Lancaster University Management School, frente a dois arguentes,
iniciei a defesa da minha tese de doutoramento. Duas horas e meia para
justificar um trabalho que me levou cerca de quatro anos a elaborar.
Olhando
para trás no tempo, para esse momento, eu não consigo lembrar-me do quão
nervoso estaria. Penso que não estava muito e que encarei a sessão com relativa
calma. Lembro-me, sim, no término, quando os arguentes deram por encerrado o
questionamento do meu trabalho, que olhei para o relógio e fiquei admirado por
ter passado tanto tempo desde o início da sessão. O tempo “voara” enquanto eu
esgrima argumentos em defesa do trabalho compactado numa brochura com cerca de
250 páginas. Fui aprovado, com a obrigação de efetuar umas ligeiras correções
ao trabalho. Algo que, numa tarde de trabalho, facilmente resolvi.
Lancaster University - Chaplaincy Centre
Foi
um alívio. Respirei fundo, olhei para o fim de tarde soalheiro e dei graças a
Deus por me ter guiado ao longo de um processo longo e nem sempre isento de
dúvidas, de receios e de pressão. O meu orientador, o Prof. Peter Pope, no
final da sessão, quando passei pelo seu gabinete para lhe dar conta do
resultado da prova, sorriu, como que a querer significar que já sabia qual seria
o desfecho, e convidou-me para ir com ele e um professor visitante que estava
no seu gabinete beber uma “pint” de cerveja à cidade, a um desses “pubs” bem
ingleses. Aceitei o convite. Quando voltei para casa era quase hora do jantar.
Eu sentia aquela paz interior que está associada ao “dever cumprido”.
No decurso da minha juventude, devorei
muitos livros de aventuras marítimas. Ainda hoje não me ponho de fora quando
tenho oportunidade de me deixar embalar nas ondas de uma boa aventura por mares
“nunca dantes navegados”. Talvez por isso, formei uma ideia do capitão de um
navio como a pessoa que guia os seus homens, que sofre as mesmas vicissitudes
destes e, além disso, quando a aventura corre mal, é o último a abandonar o
navio.
Esta minha ideia da figura do capitão
pode ser considerada idílica, a julgar pelo exemplo mais recente do capitão do
famigerado navio de cruzeiro Costa
Concordia, em que ele foi um dos primeiros a fugir, enquanto aquele
naufragava. Porém, aceitando que possa tratar-se de uma visão idílica, continuo
a achar que ela se confunde com a ideia que eu tenho do que deve ser um líder.
No passado domingo, a propósito do dia da
Terra, o jornal Público, na respetiva revista, oferecia um conjunto de
trabalhos sobre o consumo de recursos no dia-a-dia. Num deles, a jornalista
Alexandra Prado Coelho descrevia a tarefa a que se devotou durante um dia para
poupar água.
Poupou uns quantos litros ao reduzir a
duração do chuveiro, ao usar sabonete em vez de gel de banho – segundo ela, o
primeiro é mais fácil de ser retirado do corpo –, ao lavar os dentes sem ter a
torneira abrta. Toda a sua poupança foi “pelo cano abaixo” (passe a expressão)
quando ao almoço comeu um bife. Segundo ela, um bife de 300 gramas corresponde a
um gasto de água de cerca de 4650 litros! Gasto com a água ingerida pelo
animal e com a produção das rações e pastos que o alimentaram.
Há mais de uma semana que não deixava
umas linhas no meu blog. Hoje, na
sala de espera do hospital, decidi aproveitar o tempo para escrever umas
coisitas. Para descontrair …
Esta manhã, um jornal, em grandes
parangonas, informava que nos dois primeiros meses do ano a dívida pública
portuguesa aumentou mais de, se não estou em erro, 2 mil milhões de euros. Aqui
há dias, a propósito dos encargos com as parcerias público-privadas – onde
sobressaem os respeitantes às auto-estradas –, veio a público que o montante a
pagar no corrente ano excede os 2 mil e cem milhões de euros. Há duas ou três
semanas, relativamente à dívida das autarquias, alguém informava que a mesma
não era de 6 mil milhões, mas sim de mais de 13 mil milhões de euros.
Tomei recentemente consciência de que os
números que vão sendo atirados já nem me incomodam. Referem “milhares de
milhões” e eu continuo pacificamente tranquilo, como se isso não implicasse da
minha parte a obrigatoriedade de vir a comparticipar no esforço “coletivo” de
pagamento dessas dívidas.
Analisando o meu próprio comportamento,
julgo que a regularidade com que se fala de milhares de milhões – a propósito
de dívidas do Estado – levou a que nos tornássemos relativamente anestesiados
face à dimensão desses valores, sem consciência do que números de tal grandeza
implicam para cada cidadão.
Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para
todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise
pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular,
quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda
de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma
redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar
de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente
justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que
acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas
que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até
tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São
aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos
rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os
primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas
preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando
e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira
necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos,
colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas
os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros
não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao
luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São
detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que
fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países
longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se
deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de
onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza
que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o
pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que
é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que
se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para
a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a
totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de
consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou
criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é
efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na
economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do
país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação
económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise
esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um
por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o
sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com
eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem
atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que
menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a
que se vive atualmente.
Uma meta existe para ser
cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente.
E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma
miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a
“corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de
ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em
especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância
da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem
metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no
último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente
dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi
uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse
objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista
dos passos percorridos e a percorrer.
As forças por vezes escasseavam,
o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de
todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está
aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que
me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a
meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do
hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o
“12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me
parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um
pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo
existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o
tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho
plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um
doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa
realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial,
o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra
é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas
“metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas
permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à
saúde.
Hoje é, pois, um dia especial.
O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o
“12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo
desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida,
por ser mais uma batalha vencida.
[na
sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu
murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que
a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em
que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no
decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente,
a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde
estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar
onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que
não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este
seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam
dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das
regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto
químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de
sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da
segunda.
Paciência. A vida é mesmo
assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja
o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem
decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.
[em
tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou
preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um
pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal
e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".