sábado, 26 de maio de 2012

O Facebook de que não gosto …


Começo por dizer que tenho uma conta no Facebook. Confesso, porém, que nem sei bem por que a mantenho. Há cerca de dois anos tive de a abrir por razões profissionais, para aí colocar e partilhar um pequeno texto de minha autoria. Desde então, passam-se meses sem a abrir, apesar dos constantes lembretes que recebo sobre os pedidos de amizade que esperam por resposta. Ontem, por exemplo, fui lá e “despachei” o expediente, num rápido. Tenho de confessar, também, que não conheço bem as funcionalidades da aplicação e que fico surpreso sempre que ouço pessoas dizerem que a visitam dezenas de vezes ao dia, aí colocando todas as suas vidas. Fico com a sensação - exagerada, certamente - de que para tais pessoas o Facebook é quase tão importante como o ar que respiram.

Meter a mão na bolsa alheia
No final da passada semana a principal notícia foi a admissão em bolsa da empresa que está por detrás da aplicação Facebook. Os seus acionistas originais fizeram uma oferta pública de venda (OPV em português, IPO em inglês, de “initial public offering”), dispersando o capital através da respetiva venda a muitos pequenos investidores.
Como se trata de um assunto que cai dentro da minha área de especialização, fui seguindo o “folhetim”. Ficou claro, desde há algumas semanas, que a procura das ações colocadas para venda não tinha a intensidade esperada. Ora, como desta intensidade depende o preço a que as referidas ações são vendidas, os bancos que estavam por detrás da operação, e a própria empresa, desdobraram-se em contactos e entrevistas no sentido de espevitarem essa procura. No dia da operação, o número de ações procuradas superou a quantidade oferecida e o preço fixou-se no limite máximo do intervalo previamente fixado. Os acionistas originais, e os bancos, devem ter esfregado as mãos de contentes. Porém, desde então as coisas não pararam de correr mal … para os compradores (investidores) das ações, claro.
Ao segundo dia da negociação em bolsa o preço caiu cerca de 17% (qualquer coisa equivalente a um redução do valor da empresa em 17 mil milhões de dólares) e a partir de então não voltou a recuperar para o valor a que as ações foram inicialmente vendidas. Os compradores (investidores) sentem-se ludibriados. Presumo que no Facebook, aqueles que aí têm uma conta, devem ter selecionado um “não gosto disto”.
E não é de gostar se, efetivamente, as coisas se tiverem passado como a imprensa referiu: antes do dia da operação os bancos que estavam a apoiar o negócio terão informado alguns clientes especiais – alguns(!), não todos – de que as perspetivas futuras do negócio da empresa não eram tão favoráveis como inicialmente tinham dito que era. Ou seja, com esta atitude violaram um dos princípios básicos do negócio em bolsa – não pode haver investidores com informação privilegiada.
Se fosse em Portugal, possivelmente o assunto terminaria por aqui com um aviso subliminar aos investidores aldrabados: “da próxima vez não se deixem aldrabar”. Mas nos Estados Unidos as regras de proteção dos investidores tendem a funcionar: choveram processos nos tribunais, reclamando indemnizações da Facebook e dos bancos que a apoiaram. O quererem ganhar dinheiro para além do razoável muito possivelmente vai-lhes sair caro. Vejamos se no fim podemos dizer, a propósito das sentenças judiciais, “gosto disto!”

A culpa é de quem quer dar nas vistas
Já tinha lido que os materiais colocados no Facebook pelas pessoas estavam a ser usados por empregadores quando queriam contratar alguém. Confrontando esses materiais, relacionados com a vida privada do candidato, com as informações por ele(a) prestadas durante a entrevista, podiam constatar até que ponto ele ou ela estavam a ser verdadeiros.
Também era do conhecimento público que, noutros casos, as entidades patronais usam os materiais disponibilizados nas contas do Facebook pelos seus empregados para arranjarem motivos para os despedirem, nomeadamente quando esses materiais contêm informação relacionada com as empresas onde os titulares das contas trabalham.
Mais recentemente, veio a público, a partir de um estudo efetuado no México, junto de bandos de delinquentes, que estes usam o Facebook para selecionar as suas vítimas, seja para o roubo das respetivas habitações, seja para sequestros e posteriores pedidos de resgastes. Segundo esses delinquentes, deixaram de necessitar de fazer morosos e detalhados estudos sobre a vida privada das suas potenciais vítimas. Tudo está ao alcance de um click, no Facebook: as potenciais vítimas informam sobre os seus bens, quando estão em casa e quando se ausentam, os seus ritmos de trabalho e percursos por onde se deslocam … Enfim, está lá tudo que um criminoso possa necessitar para selecionar, pela certa, as suas vítimas.
A culpa, nestes casos, não é do Facebook. É das pessoas, que na ânsia de partilharem a sua vida com os “amigos”, se “desnudam” perante “amigos” e menos amigos, perante uma rede onde há cordeiros mas, sobretudo, parece haver muitos lobos. E, infelizmente, acabam por pagar um preço elevado, mais tarde ou mais cedo, por essa ousadia.
Mas, como se tudo isto não bastasse, possivelmente poucos dos utilizadores conhecerão o poder que a Facebook tem sobre eles. Não terão lido as cláusulas contratuais subjacentes à abertura da conta. Tal como eu, ter-se-ão limitado a clicar no “aceito”, sem verem que tipo de compromisso estavam a assumir. Uma das cláusulas dá à Facebook direitos de propriedade sobre todos os materiais colocados na rede, podendo inclusive passar a terceiros e ssa informação. Mesmo quando o utilizador decide encerrar a conta, os materiais anteriormente disponibilizados ficam na posse do Facebook. Em suma, as pessoas ficam presas à Facebook, com todas as consequências (desagradáveis) que daí podem resultar. “Não gosto!” é a minha apreciação da atitude da Facebook.

Quanto à atitude de cada um, em se expor na rede, não faço apreciação. Compete-lhes, em cada momento, avaliar as potenciais consequências da partilha de aspetos da sua vida privada. Porém, pergunto-me: será que o desejo de terem muitos “amigos” compensa os riscos em que incorrem?

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