Começo
por dizer que tenho uma conta no Facebook. Confesso, porém, que nem sei bem por
que a mantenho. Há cerca de dois anos tive de a abrir por razões profissionais,
para aí colocar e partilhar um pequeno texto de minha autoria. Desde então,
passam-se meses sem a abrir, apesar dos constantes lembretes que recebo sobre
os pedidos de amizade que esperam por resposta. Ontem, por exemplo, fui lá e “despachei”
o expediente, num rápido. Tenho de confessar, também, que não conheço bem as
funcionalidades da aplicação e que fico surpreso sempre que ouço pessoas dizerem
que a visitam dezenas de vezes ao dia, aí colocando todas as suas vidas. Fico
com a sensação - exagerada, certamente - de que para tais pessoas o Facebook é quase tão importante como
o ar que respiram.
No
final da passada semana a principal notícia foi a admissão em bolsa da empresa
que está por detrás da aplicação Facebook. Os seus acionistas originais fizeram
uma oferta pública de venda (OPV em português, IPO em inglês, de “initial
public offering”), dispersando o capital através da respetiva venda a muitos
pequenos investidores.
Como
se trata de um assunto que cai dentro da minha área de especialização, fui
seguindo o “folhetim”. Ficou claro, desde há algumas semanas, que a procura das
ações colocadas para venda não tinha a intensidade esperada. Ora, como desta
intensidade depende o preço a que as referidas ações são vendidas, os bancos
que estavam por detrás da operação, e a própria empresa, desdobraram-se em contactos
e entrevistas no sentido de espevitarem essa procura. No dia da operação, o
número de ações procuradas superou a quantidade oferecida e o preço fixou-se no
limite máximo do intervalo previamente fixado. Os acionistas originais, e os
bancos, devem ter esfregado as mãos de contentes. Porém, desde então as coisas não
pararam de correr mal … para os compradores (investidores) das ações, claro.
Ao
segundo dia da negociação em bolsa o preço caiu cerca de 17% (qualquer coisa equivalente
a um redução do valor da empresa em 17 mil milhões de dólares) e a partir de
então não voltou a recuperar para o valor a que as ações foram inicialmente
vendidas. Os compradores (investidores) sentem-se ludibriados. Presumo que no
Facebook, aqueles que aí têm uma conta, devem ter selecionado um “não gosto
disto”.
E
não é de gostar se, efetivamente, as coisas se tiverem passado como a imprensa
referiu: antes do dia da operação os bancos que estavam a apoiar o negócio
terão informado alguns clientes especiais – alguns(!), não todos – de que as
perspetivas futuras do negócio da empresa não eram tão favoráveis como
inicialmente tinham dito que era. Ou seja, com esta atitude violaram um dos
princípios básicos do negócio em bolsa – não pode haver investidores com
informação privilegiada.
A culpa é de quem quer dar
nas vistas
Já
tinha lido que os materiais colocados no Facebook pelas pessoas estavam a ser
usados por empregadores quando queriam contratar alguém. Confrontando esses
materiais, relacionados com a vida privada do candidato, com as informações por
ele(a) prestadas durante a entrevista, podiam constatar até que ponto ele ou
ela estavam a ser verdadeiros.
Também
era do conhecimento público que, noutros casos, as entidades patronais usam os
materiais disponibilizados nas contas do Facebook pelos seus empregados para arranjarem
motivos para os despedirem, nomeadamente quando esses materiais contêm
informação relacionada com as empresas onde os titulares das contas trabalham.
Mais
recentemente, veio a público, a partir de um estudo efetuado no México, junto
de bandos de delinquentes, que estes usam o Facebook para selecionar as suas
vítimas, seja para o roubo das respetivas habitações, seja para sequestros e
posteriores pedidos de resgastes. Segundo esses delinquentes, deixaram de
necessitar de fazer morosos e detalhados estudos sobre a vida privada das suas
potenciais vítimas. Tudo está ao alcance de um click, no Facebook: as potenciais vítimas informam sobre os seus
bens, quando estão em casa e quando se ausentam, os seus ritmos de trabalho e percursos
por onde se deslocam … Enfim, está lá tudo que um criminoso possa necessitar
para selecionar, pela certa, as suas vítimas.
A
culpa, nestes casos, não é do Facebook. É das pessoas, que na ânsia de
partilharem a sua vida com os “amigos”, se “desnudam” perante “amigos” e menos
amigos, perante uma rede onde há cordeiros mas, sobretudo, parece haver muitos
lobos. E, infelizmente, acabam por pagar um preço elevado, mais tarde ou mais
cedo, por essa ousadia.
Quanto
à atitude de cada um, em se expor na rede, não faço apreciação. Compete-lhes,
em cada momento, avaliar as potenciais consequências da partilha de aspetos da
sua vida privada. Porém, pergunto-me: será que o desejo de terem muitos “amigos”
compensa os riscos em que incorrem?
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