[7:40 horas, à saída de
casa]
Saí
de casa, fechando a porta atrás de mim, em direção ao carro, estacionado do
outro lado da rua. Não sei explicar o como ou o porquê, mas o facto é que
fiquei extasiado. Parei e olhei à minha volta. Imperava o silêncio, o céu
estava azul profundo e a luminosidade da manhã, antes de o Sol estar visível,
emprestava ao ambiente uma tonalidade irreal. O verde de diferentes tonalidades
nas árvores matizava o colorido do espaço. Respirei fundo e dei Graças a Deus
pela vida e pelo usufruto dos sentidos que Ele me proporcionava. Sentia-me
enlevado, bem comigo próprio e com o Mundo.
Abri
a porta do carro, instalei-me, rodei a chave na ignição. O rádio estava ligado
e começou a difundir música clássica: o concerto para piano e orquestra nº 23
de Mozart. A “cereja no topo do bolo”. Apetecia-me ter ficado ali parado, a
escutar a música e a viver o momento. Não podia. Iniciei a viagem, mas
contrariamente ao que faço habitualmente – em que desligo o rádio –, não o
desliguei. Coloquei o som mais baixo e fui conduzindo, enquanto rezava as
minhas orações matinais.
As
três aulas matinais chegaram ao fim. Correram bem, apesar da complexidade das
matérias discutidas. O meu aluno “maduro”, de quem falarei em próximo “post”,
esteve menos interventivo do que o costume e isso facilitou a minha vida na
lecionação à turma a que pertence. Senti-me bem com o meu desempenho, não sendo
alheio a este a colaboração proporcionada pelos alunos.
O
tempo urgia. Tinha consulta de avaliação no IPO e já estava atrasado. Fiz o
percurso a pé, quase em jeito de corrida. Com o calor que se fazia sentir,
cheguei lá em quinze, a suar. A Lucinda ainda não tinha chegado. Chegaria
minutos depois, a tempo da consulta.
[14:10 horas, na sala de espera
do IPO]
O
meu nome é chamado no intercomunicador. No gabinete, a médica recebeu-nos com
um sorriso e um sólido aperto de mão.
Cada
consulta tem uma espécie de “ordem de trabalhos” implícita. O paciente fala de
como se sente e dos acontecimentos relevantes ocorridos desde a última consulta.
Falei da minha ida à urgência cinco dias antes, devido às dores sentidas na
zona abdominal. A médica leu o relatório que lhe forneci e explicou que o tipo
de ocorrência era considerado normal para alguém, como eu, que tinha sido sofrido
duas intervenções na zona abdominal.
Chegou
o ponto seguinte da “ordem de trabalhos”: o diagnóstico da médica. Não havendo
sinais de doença, tendo sido efetuados integralmente os tratamentos prescritos,
íamos passar à fase seguinte: ao acompanhamento médico em consultas intervaladas
de três meses. Deu-me os parabéns pelos resultados conseguidos até ao momento.
Não se falou de cura, pois um doente crónico, antes de passados muitos anos,
não é considerado curado. (O meu caso é prova disso.)
“Quando
é que posso voltar à piscina pública para praticar natação?”, perguntei. “Amanhã,
se quiser.”, respondeu. Eu sorri, relaxado, descontraído … bem mais
descontraído do que estava à entrada para a consulta.
Fui
acompanhar a Lucinda à paragem do autocarro, mão-na-mão. Também ela deve ter
respirado de alívio com o diagnóstico. Se não havia certeza da guerra estar
ganha, havia pelo menos a consciência de que vencêramos esta batalha. Se o
último ano tinha sido difícil para mim, não o foi menos para ela.
O
meu dia de trabalho ainda não terminara. Esperavam-me mais três horas de aula,
agora com uma pequena turma de pós-graduação.
[16:50 horas, na Escola de
Gestão do Porto]
No
átrio, revia mentalmente o plano da sessão que ia ministrar. Dois ex-alunos –
frequentaram o curso anterior – vieram cumprimentar-me. Estavam na Escola a frequentar
um outro curso e queriam saber notícias minhas. Sobretudo da minha saúde. (Não
sei como ou por quem souberam da minha doença.) Quando lhes dei a boa notícia
de passagem a uma nova fase do meu tratamento, o sorriso nas suas faces era
jubiloso. Era autêntico. “Temos de transmitir a notícia aos nossos colegas.
Temos estado em contacto, preocupados com o evoluir da sua saúde. Vão ficar
radiantes! Até porque foi o nosso professor preferido.” Senti-me comovido com
tal prova. Foi um daqueles momentos em que eu senti que vale a pena ser
professor, pelos relacionamentos que se estabelecem, por sentir que o meu
esforço tinha deixado marcas positivas nos alunos. Dei Graças a Deus por me
permitir ter uma profissão que me realiza.
[18:55 horas, na sala de
aulas deserta]
Os
alunos haviam partido, eu arrumei o computador e materiais. A sessão correra
muito bem. A audiência esteve interessada e participativa – o A. até extravasou
o que seria razoável em termos de participação –, eu consegui responder às suas
questões, propus-lhes desafios, trouxe-lhes casos reais que tocavam em
problemas que alguns deles tinham nas suas vidas. Conseguira, num universo de
pessoas com formações de base bem diversas – indo da biologia, à química e passando
pela engenharia –, que o cálculo financeiro fosse olhado e percebido como uma
ferramenta útil e importante para as suas vidas pessoais e profissionais. A sessão
não tinha sido o que eu delineara, fora colorida com exemplos imaginados no
momento e despoletados pelas questões dos participantes, mas sem nunca perder o
fio condutor. Aquilo que eu considero uma verdadeira sessão letiva, que parte
de um ponto conhecido e desejado, evolui por terrenos virgens e não previstos
mas, que na sua unidade, chega ao ponto que se pretendia.
Respirei
fundo, relaxei. Pela janela entreaberta via-se o reflexo da luminosidade quente
do fim do dia no relvado aparado que atapetava o solo. O cansaço que sentia, à
medida que ia descomprimindo, vinha acompanhado daquela sensação boa de dever
cumprido. Sentia-me bem.
[21:10 horas, em frente ao
televisor]
Passara
os olhos pelo jornal. O Canal 1 transmite uma reportagem sobre a Auto-Europa.
Fiquei preso ao ecrã. Dei comigo a pensar: “Por que é que as outras empresas
não podem funcionar de modo harmonioso como esta, em que trabalhadores e patrões
se dão as mãos na prossecução do objetivo comum que é o desempenho económico, financeiro
e social da empresa que une os seus destinos?” Não encontrei resposta.
[24:00 horas, na cama]
Relaxara
do dia intenso que vivera com alguns minutos de leitura de um policial que tenho
em cima da mesa de cabeceira. Apaguei a luz. Virei-me de lado e devo ter
adormecido de imediato. Nem me lembro de ter rezado as orações da noite.
Fora
um dia perfeito.
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