A
semana passada fui convidado para moderar um painel de peritos, num encontro
sobre “economia paralela”. Para os menos familiarizados com o termo, significa
a parte das transações económicas efetuadas num país (vendas de bens e
serviços) que não são registadas. Para ser mais concreto, uma parte substancial
dessa economia paralela resulta de algo que se ouve falar com frequência, as
denominadas “vendas sem fatura”.
Na
generalidade dos casos, como foi o presente, o papel do moderador é residual.
Abre a sessão, com meia dúzia de palavras sobre o modo como ela será alinhada;
apresenta cada um dos oradores; na fase da participação da audiência, vai
gerindo as perguntas colocadas, distribuindo-as por cada orador; no final,
encerra os trabalhos, com algumas palavras que sumariem as ideias principiais
da sessão – mas que não podem ser muitas, já que a audiência se começa a
movimentar com vista a preparar a saída.
Chegou
o momento de encerrar o painel. Achei que faltava olhar o referido fenómeno por
um outro prisma. Contei uma história. Os presentes, que já se aprestavam para
abandonar a sala, aquietaram-se e escutaram-me.
“Termináramos
a refeição no restaurante. Paguei a conta e pedi a respetiva fatura. De volta
ao carro, disse à minha acompanhante, em termos de justificação para o meu ato
de pedir a fatura: “Temos de pedir a fatura, caso contrário é mais uma
transação que passa ao lado do pagamento de impostos.” A resposta dela foi
inesperada: “Eu não sou fiscal dos impostos, pelo que não peço fatura. Compete
ao Governo efetuar este tipo de controlo.” Fiquei momentaneamente sem fala ao
escutar este tipo de argumentação vinda de uma pessoa culta e socialmente comprometida.
Mas, recuperado do choque inicial, não
desarmei. “Sabes, o Estado é como um glutão. Todos os anos come um bolo enorme
feito com os nossos impostos. Se o dono do restaurante não paga os seus
impostos, porque não lhe exigimos que registe a transação e emita a fatura, como
o apetite do Estado não diminui, o tamanho do bolo tem de se manter e, por
isso, alguém tem de fazer uma maior contribuição para cozinhar esse bolo. Por
outras palavras, se o sr. A não paga, temos de ser nós, eu e tu, que temos de
fazer uma maior contribuição para alimentar o Estado.” O silêncio sobreveio a
este meu discurso. Fosse pelo que eu disse, ou não, nunca mais a minha
acompanhante deixou de pedir a fatura nas compras de bens e serviços que
efetua.”
Terminei
a minha intervenção com um corolário. É importante estabelecermos instituições
para vigiarmos o cumprimento das normas. Porém, se não se tiver a ajuda do
cidadão comum os resultados do combate à “economia paralela” serão sempre reduzidos.
Não se pode esquecer, por conseguinte, a necessidade de se adotarem políticas
que despertem os cidadãos para que, no dia-a-dia, tenham comportamentos
civicamente irrepreensíveis. No caso em discussão, para a imprescindibilidade
de exigirem justificativos de todas as transações. Ganharão eles, ganhará a
sociedade como um todo.
A
salva de palmas que ecoou na sala pareceu-me significar que os presentes, ou
parte substancial, concordavam com a perspetiva complementar de combate à “economia
paralela” que eu havia formulado.
Sem comentários:
Enviar um comentário