terça-feira, 1 de maio de 2012

Dez anos passados …


Dia 2 de Maio de 2002. Às 14:00 horas, numa pequena sala da Lancaster University Management School, frente a dois arguentes, iniciei a defesa da minha tese de doutoramento. Duas horas e meia para justificar um trabalho que me levou cerca de quatro anos a elaborar.
Olhando para trás no tempo, para esse momento, eu não consigo lembrar-me do quão nervoso estaria. Penso que não estava muito e que encarei a sessão com relativa calma. Lembro-me, sim, no término, quando os arguentes deram por encerrado o questionamento do meu trabalho, que olhei para o relógio e fiquei admirado por ter passado tanto tempo desde o início da sessão. O tempo “voara” enquanto eu esgrima argumentos em defesa do trabalho compactado numa brochura com cerca de 250 páginas. Fui aprovado, com a obrigação de efetuar umas ligeiras correções ao trabalho. Algo que, numa tarde de trabalho, facilmente resolvi.
Lancaster University - Chaplaincy Centre
Foi um alívio. Respirei fundo, olhei para o fim de tarde soalheiro e dei graças a Deus por me ter guiado ao longo de um processo longo e nem sempre isento de dúvidas, de receios e de pressão. O meu orientador, o Prof. Peter Pope, no final da sessão, quando passei pelo seu gabinete para lhe dar conta do resultado da prova, sorriu, como que a querer significar que já sabia qual seria o desfecho, e convidou-me para ir com ele e um professor visitante que estava no seu gabinete beber uma “pint” de cerveja à cidade, a um desses “pubs” bem ingleses. Aceitei o convite. Quando voltei para casa era quase hora do jantar. Eu sentia aquela paz interior que está associada ao “dever cumprido”.
A Lucinda costuma dizer que da sua infância só se lembra de dias soalheiros. A nossa memória, quando funciona convenientemente, tende a esquecer os tempos negros, as sensações desagradáveis, os momentos menos bons. Com o passar do tempo, só tendemos a lembrar as sensações boas. Aliás, deve ser por isso que somos, em geral, saudosos do passado … “ai naquele tempo é que era bom” … porque o que de menos bom aquele tempo tinha já foi esquecido, já se varreu da memória.
Quando olho em retrospetiva os cerca de quatro anos e meio que passei em Lancaster, dez anos passados sobre o regresso, também o que sobressai mais intensamente em termos de memórias são os momentos bons. Espantosos momentos que me foram proporcionados … quando eu já tinha 39 anos de idade. O prazer de estudar a tempo inteiro, o aprender uma língua que não dominava, a novidade de me integrar num ambiente novo e diferente do que eu estava habituado, as amizades que fiz, as caminhadas imensas por trilhos relvados junto aos canais, o aprender a cozinhar e a tratar da “casa”, o sentir-me cidadão do mundo … enfim, um conjunto imenso de situações que saboreei com prazer.
Situações que, tenho de referir, nem sempre foram isentas de dificuldades. Porém, mesmo quando os problemas surgiam, eu procurava encará-los com “desportivismo” e valorar a vertente hilariante que alguns deles tinham. Por exemplo, o meu fraco domínio da língua inglesa deu origem a bastantes situações de comunicação menos conseguidas (para ser “soft” …), algumas das quais poderiam constar, pelo seu “non sense”, em episódios da famosa série britânica Monty Python’s Flying Circus.
Algumas das situações mais desagradáveis, no entanto, não me permitiram encontrar nelas o mais leve resquício de humor. Culpa minha, certamente, em não lhes conseguir ver essa vertente mais descontraída e hilariante. Foram momentos menos bons, que me acompanharam ao longo de quase todo o tempo que passei em terras de Sua Majestade a Rainha Isabel II. Deles teria prescindido de boa vontade, se isso tivesse sido possível.
Olhando para trás, a pressão pessoal que senti desde que cheguei à universidade, até que regressei a Portugal, foi uma constante. Ela não evitou que eu tivesse gozado os bons momentos e experiências que acima referi. Mas esteve sempre presente, determinada por razões diversas, em momentos diversos do tempo. Antes de me referir a algumas dessas razões, tenho de reconhecer que a pressão que senti pode ter sido despoletada por tais razões, mas também pelo modo como eu as encarei. Isto é, eu e a minha maneira de ser, não somos independentes dessa pressão sentida. Mas este é um domínio em que as relações de causa-efeito não são fáceis, diria mesmo possíveis, de estabelecer. Por exemplo, se o facto de ser um adulto maduro pode ter contribuído para que a pressão fosse sentida de modo mais intenso, também é verdade que foi a minha maturidade que me permitiu ir racionalizando as situações e passar incólume por esse período de intensa pressão.
Há uma razão principal, transversal a todo o tempo em que permaneci em Lancaster, que foi fonte de grande pressão. O doutoramento que eu estava a procurar concretizar não era só meu. Havia muitas outras partes interessadas neste projeto. O meu “sponsor”, a Bolsa de Valores de Lisboa, que financiava através de uma bolsa de estudo a minha estadia e custo de estudar; a Faculdade, que me dispensara para levar a cabo o projeto; a família e os amigos, para quem o meu projeto era, também, o seu projeto, para quem o meu sucesso na sua concretização era algo que davam por adquirido. Apesar de nenhuma destas partes alguma vez ter deliberadamente colocado sobre mim algum tipo de pressão, o facto é que eu sabia que não podia falhar. Eu não os podia desiludir. Como poderia eu encará-los se voltasse para casa sem ter respondido positivamente aos anseios e expetativas que em mim, incondicionalmente, depositaram? Esta pressão que eu sentia, de forma suave mas constante, era como uma espécie de “sombra” que, pontualmente, em virtude de outras razões que ao longo do percurso foram aparecendo, ia escurecendo ou clareando conforme os momentos e a natureza de tais razões.
No início, quando cheguei a Lancaster, o meu fraco domínio da língua foi uma fonte de pressão. Se no dia-a-dia, no contacto com os colegas, o problema era facilmente ultrapassado, com mais ou menos humor à mistura, dado o caricato de algumas dessas situações, o mesmo não acontecia nas reuniões de supervisão, com os meus orientadores. Eram reuniões extenuantes para mim. Tinha dois orientadores: o Peter, que acima referi, que ficou comigo até ao final dos estudos; o Ken Peasnell, mais velho, que deixou de ser meu orientador no final do primeiro ano, com um forte sotaque nortenho, muito difícil de perceber, que tinha a caraterística de não se expressar de forma linear. Não, ele falava “em ziguezague”: começava a falar de uma coisa, passava para outra, voltava à primeira, saltava novamente, … Horrível perceber a sua mensagem, apesar do meu cérebro funcionar a toda a velocidade, procurando fazer sentido do que ouvia e, adicionalmente, juntando palavras em frases que, supostamente, seriam a resposta às mensagens auditivas que me chegavam. O que nem sempre acontecia. Como uma pessoa que ouve mal – e hoje sei em concreto o que isso significa –, o sentido de uma mensagem auditiva, no decurso de uma conversação, tira-se, muitas vezes, por palavras apanhadas dessa mensagem, uma aqui, outra acolá, que o cérebro se encarrega, depois, de as contextualizar para propor esse sentido. Este modo de funcionamento do binómio audição-cérebro pode funcionar se o sujeito perceber o contexto e, também, se a mensagem que lhe foi dirigida for mais ou menos linear. Quando o não é, como no caso do Ken, dificilmente o sujeito apanha a mensagem e, só por acaso, a resposta pode ser a adequada. Justiça seja feita ao Peter que, apesar da pressão que em outros momentos sobre mim colocou, nesta fase cedo compreendeu o meu problema e procurou ajudar. Depois do Ken falar, Peter fazia uma espécie de resumo com as ideias principais expressas, permitindo-me apanhar o sentido das mensagens. Para se ter ideia do que este tipo de pressão significou, quando voltei a casa pelo Natal de 1997, quatro meses depois de ter assentado arraiais em Lancaster, havia perdido 8 quilos de peso, apesar de não ter passado fome. Tiveram de apertar as minhas roupas, pois eu “navegava” dentro delas. Até o empregado de um restaurante onde esporadicamente eu ia, se apercebeu do meu desgaste físico quando nessa viagem a Portugal por lá passei para jantar. Disse-me ele, quando recolhia a minha escolha, meio a sorrir: “Eu não sei onde o senhor tem estado, nem o que tem andado a fazer. Mas parece-me que a cozinha por esses lados é muito fraca …”. Mas, com o passar do tempo, com mais “calinada” linguística ou menos, este tipo de pressão foi-se diluindo, a língua inglesa passou a ser parte de mim. Cheguei ao ponto de “sonhar em inglês”. [A minha aprendizagem da língua funcionou, pois, um pouco como o ensinar alguém a nadar atirando-o para uma piscina profunda. Com mais ou menos esbracejar, com mais ou menos água bebida, lá acabará por se manter a flutuar, cansado, mas satisfeito consigo próprio pelo desafio vencido.]
À pressão da aprendizagem da língua seguiu-se uma outra mais intensa: a de formatação de um projeto de investigação que tardava em aparecer. Passei quase todo o primeiro ano a ler. Algumas aulas à mistura, dois seminários semanais e pouco mais. O resto do tempo era dedicado a leituras, em busca da “tal ideia brilhante, bonita e inovadora” que me abrisse as portas da investigação propriamente dita. O tempo ia passando – “voava”, para ser mais próximo do que eu sentia – e a dita ideia não aparecia. Quando eu julgava que a tinha apanhado, o orientador se encarregava de, facilmente, a deitar para o “caixote do lixo” por inadequada. De cada reunião de orientação eu voltava mais vazio, sem saber como encontrar outra ideia para substituir a que fora desprezada. E o tempo ia passando. Outras vezes era a orientação que, na minha opinião deixava a desejar. Por exemplo, uma das vezes o Peter sugeriu, no decurso de uma reunião de orientação, que eu investigasse um determinado fenómeno, que ainda não tinha sido abordado na literatura da especialidade. Trabalhei dois meses inteiros para me documentar sobre o assunto, para lançar potenciais questões, para fazer um resumo do que sobre o assunto existia publicado. Quando na reunião seguinte lhe apresentei um pequeno texto com os resultados a que cheguei ele olhou para o título e disse. “José, não sei porque perdes tempo com este tipo de assuntos. Isto não é publicável.” E a reunião terminou ali. Senti-me a mais desgraçada das pessoas, e injustiçado. Mas, depois de cada “queda”, eu fazia das fraquezas forças, procurava sarar as “feridas” e continuar a avançar. Aprendi a viver com os “limites” do orientador. De uma semana para a outra ele já não se lembrava do que havia sugerido e, por via disso, com frequência surgiam situações como a referida antes, em que ele refutava ideias que anteriormente havia proposto. Comecei, portanto, a marcar uma reunião de orientação cada semana. Mais do que isso, marcava-as ao início da manhã, quando ele estava “fresco”. Como tinha dez ou doze orientandos, e muito do seu dia era passado em reuniões consecutivas, eu constatei que a partir do fim da manhã, piorando para a tarde, as reuniões eram improdutivas, as suas sugestões pouco interessantes e claras. Ele estava cansado. Comecei a pedir à sua secretária, a Freda, para arranjar um tempinho bem cedo, se possível a primeira reunião do dia. Tentei ainda fazer algo mais. Propus ao Peter que um ou dois dias antes de cada reunião lhe enviasse um pequeno documento com uma súmula da reunião anterior, o que ficara em suspenso, o que queria discutir na próxima reunião. Ele aceitou. Porém, ao fim de duas tentativas, deixei de usar essa estratégia. Ele não lia os documentos. Da primeira vez que enviei um, quando cheguei ao encontro e comecei por lhe dizer que tinha enviado o documento, ele levantou-se de onde estava e foi remexer na enorme pilha de papéis e revistas que estavam em cima da sua secretária. Em vão procurou. Não o encontrou, não o havido lido.
Outro projeto que me marcou foi o do modelo teórico que durante oito meses (!) desenvolvi, para no fim ter ido parar ao “caixote do lixo”. Ainda hoje quando abro a pasta do computador onde guardo esse ficheiro, me lembro do tempo que lhe dediquei e do que ele exigiu da minha pessoa. Posso dizer, sem exagero, que foi uma tarefa que me levou aos limites da resistência emocional, que me levou onde eu julguei que nunca seria capaz de ir. Tudo começou com a réplica de uma estudo americano que fiz. Depois de concretizada, a minha proposta ao orientador foi no sentido de se procurar teorizar esse estudo, modelizando em termos matemáticos o assunto que ele tratava. Ele achou interessante e, pelo menos pareceu-me, mostrou abertura para que eu avançasse. Assim fiz. Comecei a estudar estatística avançada, iniciando uma caminhada cheia de todo o tipo de perigos e obstáculos que, como referi, haveria de consumir oito meses do meu tempo em Lancaster, numa altura em que já sentia de modo muito intenso a pressão do tempo a passar. A modelização teórica, para alguém como eu que não tinha bases no assunto, era tarefa ciclópica. Partia de um conjunto de pressupostos a partir dos quais, como se estes fossem alicerces, se erguia o “edifício” teórico que se pretendia construir. Se um dos pressupostos não fosse adequado ou fosse questionável, havia que refazer todo o modelo. E foi isso que aconteceu vezes sem conta. Apesar de ter pedido inúmeras vezes ao orientador para ler todo o trabalho ele nunca o fez. Cada reunião semanal começava, portanto, comigo a fornecer-lhe o texto onde o modelo estava expresso, após o que ele começava a ler as primeiras linhas da primeira página. E logo que detetasse um pressuposto menos adequado, ou não sustentável em termos teóricos, a sugestão vinha expressa nos mesmos moldes: “José, isto não pode ser assim. Tens de encontrar outra solução para este pressuposto.” A reunião terminava e eu voltava ao meu gabinete, desanimado, vazio, sem saber o que fazer. Uma semana de trabalho tinha sido varrida por aquela curta frase e, pior do que isso, eu não sabia que outra solução usar. “Se eu já pensei em todas as soluções disponíveis, como será possível encontrar outra que seja superior à usada?”, perguntava eu a mim próprio vezes sem conta. Depois de cada reunião, sobrevinha, pois, o vazio, o desânimo, o não saber que fazer. Eram horas pesadas, angustiantes, horas de solidão imensa. Cotovelos apoiados na secretária, mãos entre a cabeça, olhar perdido algures, eu pensava o que fazer. E, geralmente, o que eu fazia no imediato era fechar o gabinete, sair para o exterior e ir dar uma volta pelos imensos relvados que circundam a universidade. Os pés calcavam a relva macia, o cérebro ia-se oxigenando, a pressão diluía um pouco e a abertura para recomeçar o processo surgia. Voltava ao gabinete e recomeçava a tarefa de encontrar uma solução que respondesse à crítica recebida, após o que iniciava a reconstrução do modelo, de raiz Mais uma semana de trabalho intenso. E, no entanto, na próxima reunião tudo acontecia de modo idêntico. Se o orientador não encontrava um obstáculo à primeira linha, era algures na primeira página. Tudo voltava ao início. “Again, and again!”. E ninguém me podia ajudar, pois era o meu projeto, era eu que sabia mais sobre o assunto, era eu que imaginara o edifício teórico que estava a construir. O solitário trabalho de investigação.   
O tempo ia passando. A pressão que eu sentia era cada vez maior. Chegava à sexta-feira e a minha oração era “Oh my God it’s Friday again!” [Oh meu Deus, é sexta-feira outra vez!]. Haveria de descobrir anos mais tarde, no Hawai, que há uma cadeia americana de restaurantes que se chama “Thanks God it’s Friday” [Graças a Deus é sexta-feira]. Isto espelha, pois, o modo como eu sentia o tempo passar, mesmo que para mim a sexta-feira não fosse o fim de semana, pois ao sábado à tarde – depois de fazer as compras semanais, na cidade, durante a manhã – ia trabalhar para o departamento, o mesmo acontecendo ao domingo, depois de dedicar a manhã à prática religiosa que nunca abandonei.
Antes de continuar, convirá referir que a pressão do tempo a passar era tanto mais sentida quanto tínhamos consciência de que o nosso lugar na escola não era definitivo e que nos podiam “convidar” a voltar o nosso país de origem caso considerassem que o nosso trabalho não era minimamente satisfatório ou as nossas capacidades não correspondessem às adequadas a um investigador. Ou seja, antes dos doutorandos poderem falhar no teste final da defesa da tese, a escola encarregava-se de os “despachar” de volta. Imagine-se, pois, o que isto significava para alguém, como eu, que sentia a pressão de não poder falhar. Essa pressão atingia o seu apogeu uma vez por ano, na altura da avaliação a que éramos sujeitos, por parte do orientador, que fazia um relatório para a reitoria, em que avaliava as capacidades e trabalho do orientando – que este tinha de assinar em como dele tomou conhecimento –, a que seguia a submissão a um painel de professores da escola, que nos questionavam sobre o andamento dos nossos trabalhos e o que esperávamos fazer durante o ano seguinte. Era este painel, em última análise, que tomava uma decisão sobre o futuro de cada um de nós doutorandos.
No final do terceiro ano a avaliação que o orientador fez de mim no relatório foi demolidora, numa clara intenção de descartar responsabilidades próprias no meu eventual falhanço. Embora o não dissesse expressamente nas linhas que escreveu, o relatório antecipava esse falhanço. Dizia, nomeadamente, que eu não aceitava orientação, que escolhia sempre buracos sem saída, que não tinha conseguido concretizar nenhuma das ideias em que me metera. Foi pesado conviver com este quase “certificado de falhanço”. Tomei consciência, então, que durante todo o tempo o meu orientador não se revia no que eu fazia e as suas sugestões era as de alguém pouco comprometido com o processo. A pressão atingiu os limites, que continuariam a ser testados até à data do painel de avaliação. Eu temia que este me fosse encostar a parede, que me “convidasse” a sair. Chegou o dia, aquele em que, tenho hoje consciência, se jogou o meu futuro. Julgo que a sessão decorreu ao início da tarde. Eram quatro os membros do painel, um dos quais o orientador. Este abriu as “hostilidades”, repetindo as ideias que tinha expresso no relatório. Deixei-o falar. Pedi a palavra a seguir e “despejei o saco”, como costuma o povo dizer, sem no entanto hostilizar o orientador, pois perdê-lo naquela fase adiantada do processo era quase como uma “certidão de falhanço”, dado que dificilmente outro orientador quereria orientar-nos. Com uma serenidade que julgava não possuir, rebati perante o painel os argumentos que o orientador havia usado: que se eu podia ser acusado de alguma coisa era de ter sempre privilegiado as opiniões do orientador, a quem reconhecia competência; que parte dos eventuais mal-entendidos resultariam de diferenças culturais, pois no meu país quando o trabalho de alguém não prestava a outra parte diria “não presta, parta para outra”, enquanto no atual contexto uma apreciação de “interessante” por parte do orientador, julgada por mim como um incentivo a continuar, era, na verdade, o mesmo que “é lixo, esquece”; que desde o primeiro minuto da minha estada em Lancaster tinha dedicado todo o meu tempo ao estudo e assim iria continuar, consciente de que todo o investimento em termos de leituras, de ferramentas estatísticas e de manejo de bases de dados que havia feito não poderiam deixar de dar o seu fruto e levar a que eu pudesse concluir os meus estudos com aproveitamento. Não sei, da minha argumentação, o que terá pesado mais na apreciação do painel. Talvez tenha sido a minha confiança de que iria dar a volta por cima. Quando voltei para o gabinete estava de rastos, física e emocionalmente. O parecer do painel viria a ser positivo, com recomendações genéricas em termos de atuação a ter para futuro. [Hoje, olhando para trás, se outro tivesse sido o desfecho, não sei onde estaria, o que seria de mim. Talvez estivesse melhor, ou não. O que eu sei é que o meu futuro teria sido necessariamente diferente.]
Foi neste período que eu tomei consciência, em toda a sua plenitude, e com os custos referidos, de como as diferenças culturais podem influenciar o entendimento e a compreensão entre as pessoas. Se eu, mais cedo, tivesse consciência do significado dos “interesting” do meu orientador, ou lhe tivesse feito ver as inconsistências da sua orientação, não teria chegado a experimentar o que experimentei. Paguei um preço elevado para aprender. Pior ainda foi o preço pago pela minha colega Victoria, que vinda de uma cultura onde um aluno nem sequer se digna olhar para o professor, quando com ele fala, mantendo o olhar baixo, chegou mesmo a ter “convite” da parte da escola para regressar a casa, um orientador que desistiu de a orientar … O que ela não sofreu. Fruto da sua teimosia e persistência acabou por terminar o doutoramento com sucesso.
A partir da dita reunião do painel, contrariamente ao que poderia ser de esperar, a orientação melhorou. O Peter apareceu mais atento, deixou de usar o “interesting” e passou a fazer verdadeiras sugestões. Há bastante tempo que eu arquivara a modelização teórica na pasta dos “assuntos a tratar no futuro”. Um dia o “click” chegou. Olhei para o trabalho que estava a fazer, para os resultados a que chegara, e tudo fez sentido. Foi como se de repente eu visse aquilo que antes não tinha visto. O Peter concordou, com interesse. A partir dessa data, em cerca de seis meses, fiz todo o trabalho que constitui a minha tese. O tempo estava a esgotar-se. Tinha de me apressar se o queria terminar antes de voltar para casa. E eu queria. Sabia que ou terminava antes de regressar, ou ia ser difícil fazê-lo nos meses seguintes ao do regresso. Tinha à minha espera quatro disciplinas novas para lecionar, cerca de 22 horas de aulas por semana. Ainda existiram altos e baixos, mas agora eu via o fim da linha, sabia para onde estava a caminhar. Ainda tive de pressionar o orientador para ler o trabalho final, pois ele não o queria fazer, a coberto de que “sabia o que ele continha”. Olhei-o olhos nos olhos e disse-lhe: “Professor, may I ask you a favour?”. Ele ficou surpreso, quase em choque, talvez porque eu nunca antes lhe tinha pedido qualquer favor. E era um favor pequenino: que lesse a versão final da minha tese. Ele acedeu. Vim celebrar o Natal de 2001, mas voltei para Lancaster logo de imediato, tendo pela primeira vez passado o ano novo no “campus” quase deserto. Encadernei e submeti o trabalho no dia 31 de Janeiro de 2002. Empacotei as coisas e voltei para Portugal a 7 de Fevereiro. Comecei a lecionar a 15 desse mês. Voltaria a Lancaster, para a defesa, a 2 de Maio de 2002.
Dez anos passaram. Como acima referi, teria prescindido de bom grado da pressão a que me submeti e a que fui submetido. Porém, ela existiu e deixou a sua marca. Por exemplo, moldou a minha capacidade de encarar os problemas. Às vezes fico com a ideia de que, a partir dessa altura, o meu cérebro passou a funcionar de modo diferente. Quando me defronto com qualquer problema há uma parte daquele que começa logo à procura de uma solução para o mesmo. E não apenas ao nível da investigação, mas até em circunstâncias quotidianas e de natureza meramente utilitária. Por outro lado, quando como no meu caso quase “se foi ao tapete”, o ter conseguido “sobreviver” dá uma sensação de confiança pessoal que perdura para o futuro. Paguei um “preço” elevado, sim, mas colhi benefícios ao nível da minha formação como pessoa e como investigador. Se ser investigador é ter a capacidade de procurar respostas para questões que as não possuem, eu julgo, talvez imodestamente, que tive uma boa formação nesse domínio, por força das circunstâncias.
Três notas a terminar este já longo texto que é um revisitar da memória. A primeira, para referir que procurei nunca deixar transparecer aos que me eram mais próximos a pressão a que me sentia sujeito. Se eles não me podiam ajudar, por muito que o quisessem fazer, terem conhecimento do meu estado anímico só os iria pressionar também.
A segunda, para salientar o importante papel que a minha crença e vivência religiosa teve na minha disposição para ultrapassar os obstáculos. Quando os dias eram pesados, e parecia não haver solução, alguns momentos de recolhimento no silêncio da capela da Universidade, noite escura, no meu percurso do departamento para casa, eram como que um lenitivo para os meus medos e dúvidas. Voltava de lá, sempre, mais calmo, mais confiante, mais apto a enfrentar os problemas que tinha pela frente.
A terceira, a terminar, para deixar uma nota sobre as minhas relações com o  orientador. No dia em que, logo após a defesa, me fui despedir dele antes de regressar a Portugal, ele mandou-me sentar no seu gabinete e disse-me que eu era uma bom investigador e que gostaria de poder continuar a trabalhar comigo. Propôs-me, inclusive, para “research fellow” (investigador associado) da Universidade de Lancaster, posição que tive durante seis anos. Mais recentemente, convidou a minha universidade para integrar um projeto europeu de investigação, de que ele era o líder, ficando eu como coordenador-local do mesmo. Ou seja, de uma relação algo tormentosa num determinado período, acabámos por construir uma relação fluida, onde todas as portas continuam abertas.

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