terça-feira, 1 de maio de 2012

Anestesiados …


Há mais de uma semana que não deixava umas linhas no meu blog. Hoje, na sala de espera do hospital, decidi aproveitar o tempo para escrever umas coisitas. Para descontrair …
Esta manhã, um jornal, em grandes parangonas, informava que nos dois primeiros meses do ano a dívida pública portuguesa aumentou mais de, se não estou em erro, 2 mil milhões de euros. Aqui há dias, a propósito dos encargos com as parcerias público-privadas – onde sobressaem os respeitantes às auto-estradas –, veio a público que o montante a pagar no corrente ano excede os 2 mil e cem milhões de euros. Há duas ou três semanas, relativamente à dívida das autarquias, alguém informava que a mesma não era de 6 mil milhões, mas sim de mais de 13 mil milhões de euros.
Tomei recentemente consciência de que os números que vão sendo atirados já nem me incomodam. Referem “milhares de milhões” e eu continuo pacificamente tranquilo, como se isso não implicasse da minha parte a obrigatoriedade de vir a comparticipar no esforço “coletivo” de pagamento dessas dívidas.
Analisando o meu próprio comportamento, julgo que a regularidade com que se fala de milhares de milhões – a propósito de dívidas do Estado – levou a que nos tornássemos relativamente anestesiados face à dimensão desses valores, sem consciência do que números de tal grandeza implicam para cada cidadão.
Veja-se uma conta muito simples. Somos cerca de 10 milhões de portugueses (habitantes). Uma dívida de mil milhões de euros corresponde, portanto, a 100 euros por habitante. Refinando um pouco as contas, e assumindo que só cerca de metade da população paga algum tipo de imposto, então a parcela a distribuir (pagar!) por cada um aumenta para o dobro, ou seja 200 euros.
Por exemplo, a notícia desta manhã sobre o aumento da dívida implicará, para cada contribuinte, cerca de 400 euros de responsabilidade adicional. O “buraco” do BPN, a ser de 5 mil milhões, implica uns “meros” 1000 euros de impostos adicionais de cada cidadão.
Uf! Colocadas as verbas deste modo, em números pequeninos, a coisa assusta. Arrepia! É caso para dizer que quem vive vidas contadas em euros – como a minha – não percebe o que são “milhares de milhões de euros”.
Quando transformadas estas absurdas grandezas monetárias em “números pequenos”, tomo consciência do quão incongruente é a minha vida de cidadão português. No dia-a-dia esforço-me para poupar cêntimos, no sentido de manter o equilíbrio do orçamento mensal. Ao mesmo tempo, o Estado encarrega-se de continuamente me despejar em cima, de cada vez, centenas de euros de dívidas que espera eu pague.
Pergunto-me se valerá mesmo a pena preocupar-me em manter um orçamento equilibrado, quando à minha volta tudo parece estar desequilibrado.

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