No decurso da minha juventude, devorei
muitos livros de aventuras marítimas. Ainda hoje não me ponho de fora quando
tenho oportunidade de me deixar embalar nas ondas de uma boa aventura por mares
“nunca dantes navegados”. Talvez por isso, formei uma ideia do capitão de um
navio como a pessoa que guia os seus homens, que sofre as mesmas vicissitudes
destes e, além disso, quando a aventura corre mal, é o último a abandonar o
navio.
Esta minha ideia da figura do capitão
pode ser considerada idílica, a julgar pelo exemplo mais recente do capitão do
famigerado navio de cruzeiro Costa
Concordia, em que ele foi um dos primeiros a fugir, enquanto aquele
naufragava. Porém, aceitando que possa tratar-se de uma visão idílica, continuo
a achar que ela se confunde com a ideia que eu tenho do que deve ser um líder.
Vem isto a propósito do recente episódio
que envolveu o rei de Espanha, “apanhado” numa caçada aos elefantes em África.
A crítica à sua atitude foi generalizada. Para uns, porque tendo ele
responsabilidades dirigentes numa associação de defesa da vida selvagem devia
abster-se de tal atividade; para outros, porque em tempos de crise aguda no
país se devia coibir de gastar uns milhares de euros na caçada (“a posteriori”
foi divulgada informação de que ele não teria pago nada, tendo usufruído de uma
oferta …).
Eu subscrevo estes argumentos. Porém,
acrescento aquele que julgo ser o mais relevante face à ideia que tenho do que
é um líder. Num tempo de crise aguda, com cerca de um quarto da população
espanhola desempregada, um líder (como deve ser um rei) não pode alhear-se do
sofrimento do seu povo. Tem de partilhá-lo, mesmo que em termos figurativos,
através do comedimento das atitudes que toma. Por exemplo, não sou extremista
ao ponto de defender que o rei não possa ter férias e descansar. No entanto,
defendo que nestes tempos difíceis o exemplo de comedimento pode advir, por
exemplo, por via de férias passadas no país, em ambiente recatado e sem
excessos. Se um líder não servir como exemplo de atuação, se não mostrar que
partilha dos sacrifícios dos seus concidadãos e súbditos, para que serve então?
O caso do rei de Espanha é o exemplo mais
recente e mediático. Mas outros existem. Não há muito tempo os jornais
portugueses, a propósito de existir ou não tolerância de ponto no Carnaval,
fazia eco de que o presidente da câmara de Gaia, Luis Filipe Menezes, apesar de
ter eliminado tal tolerância no município, tinha ido nessa altura passar uma
semana de férias a esquiar nos Alpes. Para mim, pelo seu comportamento, ele não
pode ser considerado um líder. Num concelho que tem das maiores taxas de
desemprego no país, em que há famílias com carências extremas, como aceitar que
o homem a quem incumbe “levar o barco a bom porto” se comporte como se nada de
dramático estivesse a passar-se com aqueles a quem ele tem de proteger e guiar?
Devo salientar, no entanto, para
clarificar o meu entendimento, que não espero, nem defendo, que o presidente da
câmara ande por aí andrajoso, de modo a espelhar a situação atual. O que
espero, isso sim, é que independentemente das suas disponibilidades
financeiras, adote um estilo de vida que não agrida (moralmente) a população
esmagada por uma crise financeira à qual, em parte, é alheia.
Hoje quando se refere que a atual
situação e o futuro da Europa são sombrios, por falta de líderes como os de
antigamente, eu costumo traduzir essa falta de líderes como a falta de
dirigentes que, pelo menos enquanto ocupantes desses lugares de direção, adotem
um estilo de vida que não se distinga sobremodo do dos seus concidadãos e, na
adversidade, não atuem como se esta não existisse.
Para mim, um líder é, pois, alguém que
aceita um lugar para servir (os seus concidadãos/subordinados), e não para se
servir do lugar. Alguém que não se limita a ser sério, mas que mostra inequivocamente
que o é.
Sim, eu sei que sou um lírico neste mundo em que vivemos.
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