terça-feira, 1 de maio de 2012

Um bom bife …


No passado domingo, a propósito do dia da Terra, o jornal Público, na respetiva revista, oferecia um conjunto de trabalhos sobre o consumo de recursos no dia-a-dia. Num deles, a jornalista Alexandra Prado Coelho descrevia a tarefa a que se devotou durante um dia para poupar água.
Poupou uns quantos litros ao reduzir a duração do chuveiro, ao usar sabonete em vez de gel de banho – segundo ela, o primeiro é mais fácil de ser retirado do corpo –, ao lavar os dentes sem ter a torneira abrta. Toda a sua poupança foi “pelo cano abaixo” (passe a expressão) quando ao almoço comeu um bife. Segundo ela, um bife de 300 gramas corresponde a um gasto de água de cerca de 4650 litros! Gasto com a água ingerida pelo animal e com a produção das rações e pastos que o alimentaram.
A aceitarem-se como válidos os valores que, como neste caso, nos são propostos, é na alimentação que está a maior parte da “pegada da água” de cada um de nós. Por exemplo, um quilo de arroz corresponde a um consumo de água de cerca de 3600 litros.
Talvez para apaziguar a minha consciência de cidadão que gosta de um bom bife, dei comigo a pensar na razoabilidade dos valores propostos. Pensei na Lei de Lavoisier, a que diz que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. E conclui que tem de haver algo errado nos consumos de água propostos ou, pelo menos, tais consumos têm subjacentes pressupostos não enunciados.
Voltando ao caso do bife. Se, tal como no corpo humano, 80% da carne for composta por água, então um bife de 300 gramas conterá, aproximadamente, 240 mililitros. Quantidade bem modesta. A restante água, para os quase 5000 litros acima referidos, ficou na natureza e foi parar às nuvens, evaporada, ou foi absorvida pelo solo e parou nos lençóis freáticos. Portanto, não foi efetivamente consumida. Significa isto que os valores de água atribuídos à produção dos alimentos têm subjacentes quantidades que participaram no processo mas que, por várias formas, foram na quase totalidade retornados à natureza.
Nada de grave, portanto, salvo se, como acontece com os consumos domésticos, essa água tiver de ser tratada para voltar ao ciclo da natureza – aos rios, por exemplo. Neste último caso, os consumos implicam um custo de reciclagem não despiciendo e, em minha opinião, era aí que devia ser colocada a tónica, se o objetivo é levar os cidadãos a conterem-se em termos de consumos. Caso contrário, ao atirar-se a um amante de um bom bife o ónus de estar a “desperdiçar” uns quantos milhares de litros de água, pode estar-se a torná-lo insensível aos pequenos consumos domésticos onde pode (deve) poupar, sem conseguir, entretanto, que ele deixe de comer o bife (com ou sem ovo a cavalo).
Em tempo. Tudo isto não significa que não devamos ser modestos no consumo de alimentos, sobretudo de carne. Não necessariamente por causa da “pegada da água”, mas por questões de saúde. Na parte ocidental do planeta, uma parte substancial dos problemas de saúde estão associados ao excesso de consumo de alimentos, em conjunto com insuficiente atividade física.

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