No passado domingo, a propósito do dia da
Terra, o jornal Público, na respetiva revista, oferecia um conjunto de
trabalhos sobre o consumo de recursos no dia-a-dia. Num deles, a jornalista
Alexandra Prado Coelho descrevia a tarefa a que se devotou durante um dia para
poupar água.
Poupou uns quantos litros ao reduzir a
duração do chuveiro, ao usar sabonete em vez de gel de banho – segundo ela, o
primeiro é mais fácil de ser retirado do corpo –, ao lavar os dentes sem ter a
torneira abrta. Toda a sua poupança foi “pelo cano abaixo” (passe a expressão)
quando ao almoço comeu um bife. Segundo ela, um bife de 300 gramas corresponde a
um gasto de água de cerca de 4650 litros! Gasto com a água ingerida pelo
animal e com a produção das rações e pastos que o alimentaram.
A aceitarem-se como válidos os valores
que, como neste caso, nos são propostos, é na alimentação que está a maior
parte da “pegada da água” de cada um de nós. Por exemplo, um quilo de arroz
corresponde a um consumo de água de cerca de 3600 litros.
Talvez para apaziguar a minha consciência
de cidadão que gosta de um bom bife, dei comigo a pensar na razoabilidade dos
valores propostos. Pensei na Lei de Lavoisier, a que diz que “na natureza nada
se perde, nada se cria, tudo se transforma”. E conclui que tem de haver algo
errado nos consumos de água propostos ou, pelo menos, tais consumos têm
subjacentes pressupostos não enunciados.
Voltando ao caso do bife. Se, tal como no
corpo humano, 80% da carne for composta por água, então um bife de 300 gramas conterá,
aproximadamente, 240 mililitros. Quantidade bem modesta. A restante água, para
os quase 5000 litros
acima referidos, ficou na natureza e foi parar às nuvens, evaporada, ou foi absorvida
pelo solo e parou nos lençóis freáticos. Portanto, não foi efetivamente
consumida. Significa isto que os valores de água atribuídos à produção dos
alimentos têm subjacentes quantidades que participaram no processo mas que, por
várias formas, foram na quase totalidade retornados à natureza.
Nada de grave, portanto, salvo se, como
acontece com os consumos domésticos, essa água tiver de ser tratada para voltar
ao ciclo da natureza – aos rios, por exemplo. Neste último caso, os consumos
implicam um custo de reciclagem não despiciendo e, em minha opinião, era aí que
devia ser colocada a tónica, se o objetivo é levar os cidadãos a conterem-se em
termos de consumos. Caso contrário, ao atirar-se a um amante de um bom bife o
ónus de estar a “desperdiçar” uns quantos milhares de litros de água, pode
estar-se a torná-lo insensível aos pequenos consumos domésticos onde pode
(deve) poupar, sem conseguir, entretanto, que ele deixe de comer o bife (com ou
sem ovo a cavalo).
Em tempo. Tudo isto não
significa que não devamos ser modestos no consumo de alimentos, sobretudo de
carne. Não necessariamente por causa da “pegada da água”, mas por questões de
saúde. Na parte ocidental do planeta, uma parte substancial dos problemas de
saúde estão associados ao excesso de consumo de alimentos, em conjunto com
insuficiente atividade física.
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