Por
questões profissionais, há dias participei num jantar de negócios. Um daqueles
encontros agradáveis, descontraídos, num restaurante bonito que, além de outros
predicados, tinha o aliciante de proporcionar boa comida.
Os
restantes convivas, pessoas simpáticas e bem-falantes, denotavam traquejo de
participação em muitos encontros sociais semelhantes. Isso era facilmente percetível
pelo modo como cada um contribuía para a conversa sem, no entanto, a monopolizar;
como cada um, qual ator ensaiado, assegurava que a conversa não esmorecia,
alimentando-a, esticando o assunto umas vezes, outras introduzindo-lhe subtis
mudanças de rumo.
Neste
ambiente deveras agradável a nota menos positiva, para alguém com o meu orçamento
mensal, foi pensar no preço da refeição. Sem ser uma refeição de exageros, uma
pequena entrada, o prato principal, a sobremesa e um pouco de vinho – uma
garrafa para seis – rondou os 50 euros por pessoa. Um montante que, confesso,
não é irrelevante no meu orçamento. É, em termos médios, o montante mensal que
me permito gastar em atividades sociais e ou de lazer.
Face
a este nível de preços e ao facto de se tratar de uma quinta-feira, esperava
outra afluência ao restaurante. Porém, durante as mais de duas horas que a
refeição durou ele esteve sempre completamente cheio. Cedo me convenci que
aquela situação que então vivia era mais uma evidência de que os efeitos da
crise são assimétricos, esmagando os financeiramente mais débeis, passando ao
lado dos restantes.
Apesar
de me procurar convencer a mim mesmo de que era importante estarmos ali a gastar
o nosso dinheiro, pois era isso que garantia os postos de trabalho do
restaurante e dos seus variados fornecedores, o facto é que não conseguia
deixar de pensar no que significa para o orçamento de muitas famílias os 50
euros daquela refeição. Não conseguia deixar de pensar, por exemplo, no que o farmacêutico
me dissera há dias: que é cada vez maior o número das pessoas que vai à
farmácia e, depois de perguntar o preço dos medicamentos, diz com ar
envergonhado que não os vai levar e que volta num outro dia.
A
crise. Tenebrosa para muitos; para outros, algo de que ouvem falar mas não
sentem verdadeiramente. Como eu gostava que tudo não passasse de um pesadelo
que desaparecesse ao acordarmos.
Em
cada dia me pergunto: que posso eu fazer de diferente que ajude a
ultrapassarmos esta situação que vivemos e, de modo particular, contribua para
criar o emprego de que tantos dos meus concidadãos estão necessitados?
Ainda
que no meu subconsciente, ando à procura de, como por golpe de mágica,
descobrir uma “poção” que miraculosamente resolva no momento todos os
problemas. Talvez esteja a menosprezar o contributo que dou para atingir tal
objetivo quando, dentro das minhas possibilidades orçamentais, vou a um
restaurante e faço a estravagância de gastar 50 euros numa (agradável)
refeição.
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