No espaço de poucos dias os meios de comunicação
social fizeram eco de duas situações do mesmo teor: há atividades que
necessitam de trabalhadores para trabalhos sazonais – como a apanha do tomate
ou das uvas – e não os conseguem obter.
Pode-se argumentar que este tipo de notícias, e o enquadramento
que lhes é dado, é enviesado; que notícias pontuais de procura de trabalhadores
não refletem a realidade nacional, onde escasseia o trabalho; que desencontros
de natureza geográfica, entre a oferta e a procura de trabalho, nunca são tidos
em consideração para enquadrar as notícias.
Pode-se, efetivamente. Porém, é justo pensar que há
instrumentos de política social, como o caso da atribuição de um subsídio a
quem cai numa situação de desemprego, que são justificáveis no contexto de um
país solidário e socialmente comprometido, mas que podem acabar por ter um
efeito nefasto sobre o funcionamento do mercado de trabalho e o “casamento”
entre oferta e procura.
Quer se trate de hipotético perigo, ou de efetiva
constatação de uma distorção do mercado de trabalho, não é fácil de gerir tal
tipo de situações. Por um lado, porque não se pretende erradicar a
solidariedade da sociedade em que vivemos; por outro, porque se compreende o
sentimento de quem contribui para pagar essa solidariedade e sente que os
“beneficiados” não fazem todos os esforços possíveis para alterarem a situação
em que estão; por outro ainda, porque os “beneficiados” tendem a atuar
racionalmente, em termos económicos, comparando o rendimento líquido que obtêm
na situação em que estão com a que teriam se optassem pela aceitação do
trabalho que lhes é proposto, descontado do esforço que esse trabalho lhes vai
exigir. Três vértices, de um triângulo em cujo centro estão pessoas vivendo
situações pesadas.
Mas alguma coisa tem de ser feita se se pretende
que o referido triângulo seja sustentável, acautelando os interesses associados
a cada um dos seus vértices. Os passos cautelosos do Governo nesta matéria, ao
reduzir o período máximo de atribuição das subvenções de desemprego, ao mesmo
tempo que permite que o “beneficiado” possa acumular rendimento de trabalho com
o do subsídio – dentro de determinados limites e durante algum tempo –, não são
a solução que responde a todos os interesses, mas poderão criar alguma
flexibilidade no sistema.
A gestão deste tem de cuidar, acima de tudo e para
bem de todos, que a “subsidiação” não se torne num modo de vida. Para evitar
respostas, como a do miúdo, numa escola, que, ao ser questionado sobre o que
queria ser quando fosse grande, disse que não queria ser nada, que ia viver do
subsídio de reinserção.
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