segunda-feira, 27 de agosto de 2012

“Cortinas de fumo”, em ambiente de desconfiança …


Foi há cerca de uma semana. A notícia surgiu de repente, primeiro num jornal eletrónico, depois num canal televisivo com uma entrevista à respetiva “fonte”: o Governo já tem plano para a RTP, passando por encerrar o Canal 2 e concessionar o restante serviço por 15 ou 20 anos.

1. Desde então não se tem falado de outra coisa. Sem que o Governo expressamente tenha assumido a notícia como credível, as opiniões são esgrimidas sem descanso nos órgãos de comunicação. Partidários versus opositores. Entre estes últimos, sobressai em tons garridos aquela desconfiança endémica que é um traço caraterístico da nossa cultura: a medida é um meio para favorecer os amigos dos partidos no Governo.
Eu não posso afirmar que não venha a produzir esse resultado. O que eu não concordo é que, mesmo antes de se conhecerem os contornos da operação – supondo que efetivamente se trata de uma notícia verdadeira – se comece por assumir que há favorecimentos, que há ilicitude, que os poderes públicos instituídos não são capazes de contrariar e punir comportamentos menos adequados no tratamento da “rés publica”. É triste que a discussão de aspetos importantes da nossa vida coletiva nunca seja feita com argumentos esclarecedores e fomentadores de uma troca de opiniões sã e abrangente. Não, as “discussões” versam sempre a desconfiança no outro, partem sempre do princípio de que ele é criminoso, mesmo antes de se ter encetado qualquer ação.

2. Segundo o Jornal de Negócios, a RTP teria custado ao erário público, desde 2009, cerca de 1000 milhões de euros. (Para se ter uma ideia da ordem de grandeza deste número, diga-se que corresponde a metade do montante que o Governo arrecadou com a supressão dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos.) Mais, haverá ainda uma dívida acumulada de cerca de 1700 milhões de euros, que o Estado terá de pagar. Isto, sem contar com a taxa que cada um paga mensalmente como “contribuição para o audiovisual” juntamente com a fatura da energia elétrica. Perante números desta grandeza, e numa altura em que se cortam despesas públicas a torto e a direito em áreas bem mais sensíveis e prioritárias, como é o caso da saúde ou da solidariedade social, seria de esperar que a “berraria” em torno do tema aflorasse, ainda que ao de leve, os respetivos contornos financeiros. Não tem sido o caso. Quando se fala de números é para salientar o que os futuros concessionários vão ganhar de benesses atribuídas pelo Governo, não para se perceber o que custa e porquê. Assim não dá. Não é discussão séria.

3. Também não é séria a atitude do Governo num caso sensível como este. A notícia, não oficial como referi, mas proveniente do Governo, é uma “cortina de fumo”. Parece ter tido em vista dois objetivos. Primeiro, “apalpar” terreno para ver como reage “a malta” à programada privatização da RTP. Não me admiraria que dentro de dias, no início de setembro, o Governo viesse dizer que tudo aquilo não passou de uma especulação à qual é alheio, aproveitando na altura para apresentar o verdadeiro plano. É mau que assim seja, sobretudo num assunto sensível como este. Uma atitude mais séria, que passasse inclusive pelo diálogo com a oposição, evitaria o desperdício de forças em vãs querelas, evitaria que o principal partido da oposição viesse afirmar a pés juntos que quando for governo voltará a haver serviço público de televisão – mesmo antes de saber o que realmente vai acontecer à RTP –, e permitiria, potencialmente, encontrar pontos de contacto entre as principais forças que permitissem construir verdadeiras soluções de futuro.

4. Segundo objetivo, a “cortina de fumo” foi suficientemente espessa para dispensar o Governo de explicar aspetos sensíveis ligados às finanças públicas. Na altura em que o este teve de assumir publicamente que não seria possível atingir o défice orçamental programado para este ano, em virtude do efeito da recessão sobre as receitas fiscais, surge a notícia sobre a RTP. Após esta notícia, não me lembro de ter ouvido falar do “défice”, da atitude que o Governo vai tomar para responder perante a “troika”, de como pensa para futuro conduzir a política económica e financeira seguida até agora. É este o problema das “cortinas de fumo”. Quando aparecem, ninguém mais nunca mais se lembra do que estava a dizer ou a fazer, ou consegue separar o importante do acessório.

5. “Cortinas de fumo”. Lançadas por aqueles que elegemos e pagamos para dirigirem os nossos destinos coletivos. Temos o que merecemos.

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