Imagine
o leitor uma turma com cerca de cinquenta alunos, onde a maioria está
desmotivada para o estudo (qualquer que este seja). Por mais que o professor
faça, nas aulas e fora delas, a desmotivação dos alunos é uma constante. Se,
por acaso, uma qualquer novidade quebra por breves momentos a sua apatia, logo esta
está de volta. Às vezes imagino que mesmo que o teto da sala começasse a desabar,
os alunos não se mexeriam. (Estou a ser exagerado.)
A aula começou e, quase de imediato, apercebi-me que o referido aluno estava super-motivado, intervindo continuamente, com achegas sobre os assuntos em discussão e não só. Sempre que eu projetava um “slide” ou escrevia algo no quadro negro, a sua intervenção não se fazia esperar.
Pensará o leitor que este era o milagre de que eu estava à espera para que a turma se motivasse. Não me parece. Já explicarei porquê. Antes, deixe-me dizer porque detetei a presença do novo aluno mal entrei na sala.
Já o tinha visto no corredor, no intervalo. Pensei para comigo, quando com ele
me cruzei: “Olha um avô que veio visitar o neto”. Pois é, o meu novo aluno usa
chapéu, gabardine, bengala, gravata … e tem um grau de surdez muito elevado.
Este último aspeto permite ao leitor perceber por que razão ele tende a
intervir, sobretudo, quando está disponível para a turma algum tipo de mensagem
escrita (no “slide” ou no quadro).
Mas voltemos à questão do milagre. A não ser que eu ainda não tenha compreendido em toda a dimensão o contributo da chegada do novo aluno para a motivação da turma, tenho de dizer que, até ao momento, não foi o milagre de que eu estava à espera. Não só os restantes alunos continuaram na sua apatia – entremeada por alguns sorrisos ocasionais motivados pelas intervenções do seu novo colega –, como a minha vida, na condução das aulas, se tornou muito mais complicada.
Lecionando Contabilidade Financeira de nível introdutório, para alunos do primeiro ano da licenciatura, não é claro para mim a razão porque o C., de seu nome, se inscreveu como aluno extraordinário à disciplina, dado que é um antigo contabilista. As suas intervenções, nalguns casos, seriam pertinentes no contexto de um curso mais avançado sobre a matéria. No atual, não o são. Obrigam-me, continuamente, por trazerem à liça temas que quase nunca se enquadram diretamente no assunto da aula, a contextualizar e explicar o fundamento dessas intervenções aos restantes alunos. Tarefa difícil, que corta o ritmo da aula, que evita que a respetiva planificação seja cumprida. Não é que eu seja muito rígido em relação às planificações. Pelo contrário, não tenho qualquer prurido em “atropelar” a planificação desde que isso contribua para o esclarecimento e maior compreensão das matérias por parte dos alunos. O que não é atualmente o caso. Não só a planificação é maltratada, mas também a mensagem que passo para os alunos chega em piores condições, mais entrecortada, menos linear. Para alunos à partida desmotivados, isso não é aspeto despiciente.
Em geral, as intervenções do “senhor C.”, como o chamo, começam por “não concordo!”. Por exemplo, “não concordo que se chame ‘ativos tangíveis’ aos móveis e máquinas da empresa. Deviam chamar-se ‘ativos palpáveis’, porque tangível não é o mesmo que palpável”. E, de seguida, cita alguns autores da primeira metade do século XX em defesa da sua argumentação. Digamos que, dadas as já mencionadas caraterísticas motivacionais da turma, este tipo de discussão não é, no mínimo, de molde a criar motivação. Pelo contrário.
Mas o senhor C. às vezes faz-nos sorrir. Numa das aulas, perante o meu desespero para que me ouvisse, quando eu contra-argumentava na sequência de mais uma das suas intervenções, ele cortou cerce a minha intervenção: “O senhor professor não se preocupe se eu não tiver sucesso à disciplina. Já estive inscrito a ela em 1971 … e se este ano não passar, para o ano voltarei.” Os seus colegas não deixaram de sorrir, agradados por estarem em presença de alguém que já frequentara a disciplina cerca de 25 anos antes de qualquer um deles ter nascido. Fiquei a pensar se eles encaram o seu colega como uma espécie de “fóssil” da contabilidade, ou como uma desculpa extra para lhes sossegar a consciência, e eventualmente apaziguar os papás, no caso de não virem a obter aproveitamento à disciplina. Que melhor álibi se pode ter para um eventual insucesso do que ter um colega que, depois de ter iniciado o percurso na disciplina há mais de quarenta anos, também não teve sucesso?
À segunda ou terceira sessão, depois de muito ter pensado, adotei uma estratégia que julgava poder tornar as aulas, e a minha vida, muito melhores. Propus ao senhor C. que, à medida que tivesse dúvidas, ou quisesse discutir qualquer assunto, fosse tomando nota no caderninho de que nunca se separa e, no fim da aula, viesse ter comigo para conversarmos os dois sobre esses temas. Funcionou durante uma aula. Rejubilei. Por pouco tempo, infelizmente, pois na seguinte as intervenções “fora de tempo” voltaram a ser a regra. Quando o relembrei para a tomada de notas e prometi esclarecimento no fim da aula ele disse, alto e bom som, para ser ouvido por toda a turma, que não concordava com essa atuação porque os seus colegas deviam aprender aquilo que ele tinha para dizer.
Com toda a calma que fui capaz de encontrar, mas aos berros junto a ele, procurando fazer-me ouvir, procurei explicar-lhe que havia temas que ele puxava à discussão que estavam desenquadrados, do programa da disciplina e da planificação das aulas, que só muito mais tarde os seus colegas estariam em condições de compreender … A turma estava silenciosa, expetante, escutando os argumentos de cada parte. O senhor C. não se convencia, mesmo quando eu lhe fazia ver que me competia a mim estabelecer a ordem pela qual os assuntos eram propostos e discutidos. A determinada altura, no meio da discussão em altos berros que se tinha gerado, eu apercebi-me da tensão que o consumia – a minha não era menor, embora os 25 anos de idade que nos separam jogassem a meu favor – e conclui que ele tinha caído naquele estado em que, aliada à sua limitação auditiva, estava o não querer ouvir – um tipo de estratégia muito comum em pessoas idosas (… e até em novas). Baixei o tom de voz, de repente, e disse-lhe: “Vamos parar por aqui. O senhor está a ficar muito nervoso. Concluiremos o assunto no fim da aula, os dois, a sós.” Apesar do baixo tom que usei ele ouvi-me, pois retorquiu: “Sim, o meu coração está a bater muito intensamente. Mas não se aflija. Se eu morrer aqui por favor pegue no meu telemóvel e ligue para a minha família. O número está lá.” Os colegas sorriram; eu senti o frio do suor que me escorria pelas costas abaixo.
Já desisti de procurar uma estratégia que conjugue de forma definitiva os interesses das partes em presença – restantes alunos, minha, senhor C. Em alternativa, adotei uma atuação do tipo “navegação à vista”. Quando o senhor C. aparece na aula, procuro fazer mais trabalho prático, o que o mantém entretido. Não usa máquina de calcular, mas nem por isso deixa de efetuar todos os cálculos, mentalmente. Nisto se distingue, também, dos seus colegas que, quase sem exceção, são incapazes de efetuar, sem recurso à máquina, uma conta tão simples como o valor da margem de lucro de 30% aplicada a um produto que custou 900 euros. É claro que quando ele não aparece a aula corre melhor, permitindo-me manter de modo mais adequado o fio condutor previamente planeado. Mas eu sou o professor, nos bons e nos menos bons momentos. Por isso, não me passa pela cabeça isolá-lo. Pelo contrário, procuro integrá-lo. É um dos meus alunos.
Penso que o senhor C. quer – necessita? – uma plateia que o ouça, de pessoas que compreendam e retenham as suas experiências profissionais, que não se importem com a linguagem “desbragada” que por vezes adota nas suas intervenções, nem estranhem que misturados com os temas contabilísticos apareçam a suas diatribes contra os políticos. Aspirações legítimas, mas que não cabem no contexto de uma aula de nível introdutório destinada a alunos desmotivados. Por isso, julgo que as opções de formação que fez não são as mais adequadas.
Apesar do quebra-cabeças que representou(a) para mim, lá no fundo admiro-o em múltiplos aspetos. Pela sua coragem de, aos 78 anos de idade, ter decidido voltar aos bancos da universidade, em vez de gastar os seus dias a jogar às cartas num qualquer jardim público, como faz grande parte dos aposentados. Pelo seu à-vontade para interagir com jovens imaturos que poderiam ser seus bisnetos. Admiro-o, ainda, pelo facto de não se deixar constranger pelas limitações auditivas que o afetam e que, geralmente, conduzem a que as pessoas com esse tipo de problema se fechem sobre si próprias.
Pergunto-me: porque será que pessoas como senhor C. não são aproveitadas pela sociedade? Neste ponto, aproximo-me da Lucinda e do seu sonho de levar os idosos a ter um papel interventivo na formação dos mais novos. O que era necessário, no caso concreto deste meu aluno, era encontrar o sítio e o tempo certo para o fazer. Que não é, necessariamente, uma turma de Contabilidade Financeira introdutória, no segundo semestre letivo de uma licenciatura em Economia.

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