No caminho para Vila Pouca de
Aguiar, à saída de Cerva, aparece lá em baixo, num pequeno vale profundo, a
aldeia de Cabriz, cujo núcleo é composto por um conjunto de grandes casas de
granito que parecem remontar a meados do século VXIII. Casas que deixam antever
terem sido pertença de famílias ricas. Uma pergunta cruza a mente: como é que uma
localidade tão pequena, com pouca terra agrícola disponível, tinha condições
para albergar no seu seio tantas casas grandes e ricas? Seria o pastoreio a explicação?
Ficou a vontade de pesquisar mais tarde a resposta para estas perguntas.
A parte urbana de Vila Pouca de Aguiar é muito
agradável. Um núcleo estruturado em torno da parte mais antiga, numa simbiose
pensada e executada para agradar ao visitante. Foi uma primeira visita, mas permitiu
constatar que por lá havia noutros tempos passado o comboio. Não que os carris
de ferro fossem prova disso, pois não existem, mas a estação de ontem estava lá
a atestar esse passado, bem preservada e transformada em centro cultural. O
comboio, que existiu e hoje não existe. Um passado que é olhado, por alguns,
como condicionante (negativa) do presente.
Na visita a Vigado, que se
seguiu, a realidade que é a ausência do comboio foi ainda mais evidente – e
voltaria a sê-lo nos dias seguintes, em Vila Real –, pois ainda se viam bocados
de linha férrea e a estação, fechada, denotava o passar dos anos sem
utilização. Em Vidago, para o visitante que aborda a localidade pelo sul, ido
de Vila Pouca, a estação devia ser olhada como uma espécie de “metáfora
tangível” da atual situação desta terra, outrora próspera e vivendo do turismo
termal. Encontra-se decadente, no seu modo de vida – o turismo termal – e nos
seus espaços: hotéis e mais (grandes) hotéis decrépitos, encerrados, tristes.
Só brilha o Palace Hotel,
recuperado, com as suas cores vivas, o parque frondoso bem tratado, as fontes
termais, o campo de golfe. Atrai um conjunto restrito de clientes,
endinheirados, que, quase sem exceção, nem sequer na vila param. Muito pouco
para uma terra que noutros tempos acolhia multidões. Dizia a funcionária do
posto de turismo, falando do pesadelo que se abateu sobre a terra, que então,
nesse passado cada vez mais longínquo, vinham famílias inteiras no comboio
passar quinze ou vinte dias nas termas. Agora não há nada disso. A única
esperança, disse, é o balneário termal que se pensa construir, num prazo de
três anos, na velha estação de comboio. É a única esperança de dar vida à vila.
Oxalá o consigam, se bem que os hábitos e comportamentos das famílias tenham
entretanto mudado muito. A estação, para já, permanece de pé, sem ser ponto de
chegada, nem de partida, mas apenas um sinal de esperança num futuro melhor.
A viagem para Vila Real, via Carrazeda
de Montenegro (Valpaços), implicou subir e descer serras, numa estrada sinuosa
estendida pelo meio de pomares e matas de castanheiros. Todo o terreno
aproveitado, numa manta multicolor tecida de plantações.
Um hotel acolhedor,
encavalitado na escarpa do Rio Corgo – o Miracorgo –, esperava, acolhedor, em
Vila Real. Um mergulho e umas braçadas na sua piscina, antes de um jantar numa
esplanada do centro da cidade. Saiu gorada a expetativa de um bom repasto. Mau
serviço, má qualidade, um restaurante para não visitar de novo.
A noite terminou no bar do
hotel, diante de um Baileys. A televisão com o som muito alto, a difundir as
últimas sobre o futebol. Foi pena, pois o espaço físico bem decorado e
confortável merecia outro tratamento do som ambiente.
O dia seguinte esperava-se
pesado, com caminhadas no parque natural da Serra do Alvão.
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