O
plano era simples. Sábado de manhã, com calçado apropriado, ir ao posto de
turismo buscar informação sobre o Parque Nacional do Alvão e partir para longas
caminhadas. Mas, como diz o ditado, “a ração não é para quem a talha, mas para
quem a come”.
Quem
não gosta de mostrar a visitantes a cidade onde nasceu e cresceu? Isso
acontecia com H., que nos levou a conhecer alguns cantos históricos e
pitorescos de Vila Real. O plano estava alterado, mas nem por isso o programa
foi menos interessante. Pelo meu lado, fiquei com vontade de lá voltar e
usufruir do aconchego desta pequena cidade cheia de história … e de “estórias”
(o seminário maior das 365 janelas; o escudo dos Távoras limpo pelo Marquês; a
coleta dos 100 contos para colocar o primeiro elevador num prédio de Vila Real,
edifício que hoje é considerado uma aberração em plena zona histórica; a
taberna da Baca Belha, onde conhecemos o C.G., um inglês há quinze anos na
cidade, com uma visão muito própria da cidade e do país …).
Quando
chegámos à serra, a Muas, à entrada do parque, onde se tem uma visão
esplendorosa da cidade, já eram quase duas da tarde. A partir daí, depois de H.
nos ter deixado para ir tratar do “seu” andor que haveria de bater o record
mundial de altura, o carro começou a galgar subidas e descidas, parando aqui e
ali para um olhar mais demorado sobre algumas das atrações. Foi o caso da barragem
do Alvão, da típica aldeia de Lamas de Olo, das Fisgas de Ermelo, consideradas
as maiores da Europa.
A
visita às fisgas teve história. A fome apertava, parámos para uma pequena bucha
num parque cheio de carros, no meio de um pinhal. Os carros estavam vazios,
poucas pessoas por perto. No fim do ligeiro repasto, seguimos em busca delas,
conscientes de que teriam ido para uma qualquer praia fluvial. Caminhamos, sem
saber para onde, atrás vinham outros que nos seguiam, montanha abaixo sob
intenso sol e calor. Nem viv’ alma vimos, sempre a descer. Medo da subida, que
se seguiria, fez parar a meio da serra. O mesmo fizeram os que nos seguiram.
Voltámos para trás, encontrámos um atalho que nos tinha passado despercebido e,
então, após mais alguma caminhada, desta vez contornando a montanha,
descobrimos, lá muito ao longe, no fundo de uma ravina, as “pessoas
desaparecidas” que se banhavam no rio. A ideia de um banho fresco era
tentadora, mas o esforço que seria necessário despender para descer e voltar a subir
acabou por sobrepor-se ao potencial prazer. E, assim, acabámos a subir a serra,
sim, mas de volta ao conforto de uma viatura com ar condicionado, partindo para
“descobrir” as ditas fisgas.
A
viagem continuou, contornámos a montanha e fomos descobrir as fisgas quase no
ponto onde, ao descer a pé, depois do almoço, parámos e voltámos para trás. Uma
certa desilusão, por estarem tão longe e terem pouca água. Tanto esforço, para
podermos dizer “já lá estivemos”.
As
visitas teriam terminado por esse dia não fora, no retorno das
fisgas, já na estrada para Vila Real, ter aparecido no caminho uma tabuleta indicativa
de uma ponte românica. Quem é capaz de resistir a visitar mais uma? Estava em
bom estado, perdida num vale apertado entre duas montanhas, acompanhada de um
grande canastro (espigueiro) que, em tempos idos, teria acolhido o pão de um
ano de labuta. Agora estava vazio, porta escancarada, sem esperança de
utilização.
Aí,
depois das fotos da praxe, sucumbimos à tentação e decidimos voltar para “casa”
por outro caminho. O espírito de aventura que nos empurra. Desta vez,
trouxe-nos um valente susto. Montanha acima, em estrada muito estreita, sem
indicação de direção, o carro prosseguia o caminho sob baixa velocidade. Para a
esquerda ou para a direita? Em mais um cruzamento sem placas de direcionamento,
a esquerda implicou que continuássemos a subir, a estrada cada vez mais
estreita, serpenteando junto a precipícios de que se não via o fundo. A buzina
era acionada constantemente, no intuito de prevenir qualquer viatura que viesse
em sentido contrário. Olhar para o abismo era proibido, a atenção era pouca para
controlar a viatura nas dezenas de metros de estrada que se abriam pela frente
antes da próxima curva.
Os quilómetros sucediam-se sem fim, curva e mais
curva, em direção ao céu. O “espírito de aventura domingueira” há muito que
havia desaparecido, o que nos movia era encontrar uma saída, que implica
prosseguir em frente, pois não dava para voltar atrás.
A
tensão era enorme, o medo de um veículo aparecer pela frente sobrepunha-se a
qualquer pensamento mais racional do tipo “se isto é tão deserto também não
devem abundar viajantes por estes lados”. Finalmente, pois de se ter atingido o
topo da montanha, junto a um parque eólico, lá se vislumbrou a estrada para a
“civilização”. Um suspiro de alívio, um ligeiro descontrair.
Voltámos
ao hotel já o sol se escondia, o cansaço latente nos rostos e fazendo-se sentir
nos corpos. O jantar, mais agradável do que o anterior, já tarde, fez-nos
atrasar e, com isso, perdemos o H. que, cheio de boa vontade, combinara
levar-nos a conhecer “Vila Real by night”. A mensagem que nos deixou no hotel,
quando nos procurou lá, não teve seguimento.
Talvez até tenha sido
melhor, pois o cansaço era muito e as aventuras do dia tinham sido em
quantidade mais do que suficiente. Ficará para uma outra vez conhecer mais esse
lado de uma cidade “mignone” e
agradável como é Vila Real.
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