Jornal Público de 21/7/2012: “Anúncios de emprego oferecem mais dinheiro a serralheiros que a engenheiros”. A informação que substanciava tal título referia que “No site da Netemprego [Instituto do Emprego e Formação Profissional] oferece-se um lugar para um engenheiro mecânico, em Lousada, com conhecimento de três línguas (Inglês, Francês e Espanhol) e um salário de 600 euros, inferior aos 800 euros pagos a um torneiro mecânico, em Alcobaça, um serralheiro mecânico, em Pombal ou a um montador de tubagens, em Valença.” Depois de nas últimas semanas termos ficado chocados com os 3,5 Euros/hora que o Ministério da Saúde tinha recebido como oferta a uma consulta de mercado para a aquisição de serviços de enfermagem, ou os 4,5 Euros para serviços médicos, esta notícia é mais uma achega que nos remete para os enviesamentos que ao longo das últimas décadas a formação (educação) profissional no país verificou.
Ser “doutor”, num país que tinham falta de licenciados, era (é )o sonho de todo o jovem. E ao longo dos anos uma grande parte dos recursos públicos foi afeta a criar as condições para que o sistema de ensino, publico e privado, possibilitasse esse desiderato. Os cursos de licenciatura brotaram a esmo, às centenas, nalguns casos diplomando pessoas em especialidades bizarras para as quais, nem com muita imaginação, se conseguia perspetivar uma aplicação profissional direta.
Simultaneamente, descurou-se a formação de técnicos intermédios e, talvez mais importante, num país em que um “canudo” é visto como o mais importante cartão-de-visita, descurou-se a necessidade de dignificar esse tipo de formação. O resultado era esperado: só seguiam para uma formação de tipo intermédio os (academicamente) muito fracos, aqueles que não tinham entrada num qualquer curso superior.
Ao longo dos anos os dinheiros comunitários foram despejados “às carradas” na formação profissional, mas o aproveitamento fraudulento que alguns desses dinheiros fizeram, associado ao facto de não se ter conseguido reabilitar publicamente a nobreza desse tipo de formação, redundou em carências que as empresas tentavam suprir formando os seus próprios trabalhadores.
Os efeitos desastrosos de tal tipo de política foram tornando-se visíveis, lentamente a princípio, mais recentemente em toda a sua grandeza: temos muitos “doutores” e não temos que lhes dar que fazer – nalguns casos porque a formação que lhes foi ministrada não correspondeu, nem de perto nem de longe, ao que os empregadores precisavam, em termos de especialidade e também de qualidade – e faltam-nos os quadros intermédios que são o suporte da atividade das empresas.
As consequências para esses diplomados são de fácil intuição. Quando num mercado os produtores oferecem todos o mesmo produto indiferenciado a consequência é a baixa do preço deste. Com as devidas adaptações, acontece às nossas formações académicas e profissionais. Oferecemos todos o mesmo tipo de qualificações, que se repercute no baixo preço do nosso trabalho. E a situação só não é mais grave porque existem alguns constrangimentos legais – como o salário mínimo nacional – que evitam níveis salariais ainda “obscenamente” mais baixos.
Lembro-me de, quando jovem, ouvir as pessoas contarem, umas às outras, com voz denotando incredulidade, que na Suécia existiam porteiros de hotel que eram “doutores” (licenciados). Aqui estamos nós numa situação idêntica, para pior. Uma situação em que, para muitas especialidades profissionais, ou as pessoas abdicam da formação universitária que escolheram, reciclando os seus conhecimentos, ou então vão ter necessariamente de emigrar.
Há alguém que pense que é possível, por exemplo, o país dar emprego às muitas centenas de enfermeiros que em cada ano se diplomam? O preço/hora acima referido é o sinónimo de que não é. Ou aos milhares de licenciados em Direito formados anualmente? Ou aos milhares de candidatos a professores, num tempo de diminuição do número de alunos? Outros exemplos poderiam ser apresentados, igualmente com idênticos contornos.
A tendência será no sentido da deterioração da situação. De modo particular num contexto em que, a juntar ao afunilamento das formações se junta o afunilamento em profissões que (quase) só têm como empregador o Estado (áreas da educação e da saúde, principalmente), que passa e irá continuar a passar por constrangimentos financeiros imensos.
Não me admiraria que em profissões como a enfermagem, em que a prática é importante, a breve prazo viessem a aparecer anúncios nos jornais de profissionais a oferecerem-se para trabalhar sem salário, para poderem adquirir e ou manter tal prática.
Entretanto, queremos um picheleiro para nos remendar um cano e não encontramos. E quando o encontramos, pedindo por especial favor, pagamos bem … e muitas vezes sem capacidade para, sequer, pedirmos que nos passe o respetivo recibo.
Não nos enganemos a nós próprios. Infelizmente, a crise económica e financeira que atravessamos só explica uma pequena parte desta situação. O grosso, é resultado das opções políticas feitas pelo país ao longo dos anos e das escolhas pessoais de cada um.
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