Hoje estou escrever fora do recato do gabinete de trabalho do meu lar. Estou numa sala de espera de um hospital, aguardando que chegue a minha vez de ser chamado para tratamento. Há muitas pessoas sentadas nas cadeiras disponíveis, caras fechadas e denotando o que parece ser medo ou, no mínimo, preocupação. As poucas conversas que têm lugar decorrem em voz moderada, como se houvesse o cuidado da parte de quem fala de não perturbar a introspeção dos restantes pacientes e acompanhantes. Como tende a acontecer em todos os espaços públicos, uma das paredes da sala acolhe um enorme televisor, plano, onde passam as imagens da "Praça da Alegria", sem som. Também aqui, o televisor faz as vezes de um quadro, de uma gravura para a qual quase ninguém olha. A mais elementar justiça impõem que se diga, no entanto, que o espaço é agradável e está decorado com fotografias do rio Douro e das suas pontes, e na parede junto à saída tem uma enorme tela de Armanda Passos, onde em fundo branco a tradicional matrona colorida aparece acompanhada de um dos seus pássaros.
[chegou a minha vez]
Uf! Uma boa notícia. A análise sanguínea que havia feito mostrou que o sangue estava em condições de receber mais um tratamento. Tenho que confessar que os momentos de espera, preliminares ao tratamento, provocam sempre um pouquinho de tensão interior, devido ao receio de não se poder fazer o almejado tratamento. Há sentimentos contraditórios associados à vinda ao hospital pela razão que cá me trouxe hoje: por um lado, o desejo de fazer o tratamento; por outro, o antecipar do desconforto e mau-estar provocado por esse mesmo tratamento, que perdurará por vários dias. Vence sempre o primeiro deles, pois tem subjacente que quanto mais depressa esses tratamentos tiverem lugar mais depressa se chega ao fim (assim se espera) dos tratamentos e do dito desconforto.
Do meu cadeirão, costas voltadas para a janela, o ecrã de televisão individual onde passa um programa do National Geographic, sem som, do meu lado esquerdo, olho em redor para os meus colegas de tratamento. As faces parecem ainda mais fechadas do que na sala de espera, mas todos os rostos, ou quase, transmitem uma sensação de resignação. Lá no fundo, cada um deve pensar, como eu, que esta provação é temporária, que melhores dias virão, dias em que sentiremos a doçura inefável da saúde, doçura que só sentimos em plenitude depois da provação. Por exemplo, hoje de manhã, quando saí de casa o Sol ainda não se tinha levantado no horizonte. Havia uma luminosidade especial, alaranjada, que salientava os contornos escuros do perfil das casas, das árvores, da linha do horizonte. Simultaneamente, a temperatura era amena, com uma ligeira brisa. Enquanto abria o carro, tive uma tomada de consciência de como é bom estar vivo e estar na posse de todas as faculdades físicas e mentais.
[o líquido vai correndo, gota a gota, do pequeno saco pendurado num suporte de aço inoxidável, deslizando pelo tubo que penetra no meu corpo]
Aqui, agora, apesar do desconforto, físico e psicológico associado a este tipo de lugares e tratamentos, dou Graças por haver hospitais para nos tratarem e pessoas que, para além do seu profissionalismo, nos dispensam, aqui e ali, um sorriso que ameniza a tensão que nos preenche; outras que, voluntariamente, nos trazem um pouco de alimento para aconchegar o estômago.
Os meus vizinhos da frente foram agora embora, terminado o respetivo tratamento. A minha vez também não deve tardar, embora a enfermeira me tenha dito agora mesmo que a "bomba" ainda não chegou da farmácia. Este pequeno atraso até nem é mau de todo, pois permite que a Lucinda chegue antes de eu terminar. Ela, que nunca me abandona e sempre me apoia, hoje não pôde estar aqui todo o tempo devido a reunião na escola a que não podia faltar. Senti a tristeza na sua voz por estar ausente, e mal a reunião terminou pôs-se a caminho para aqui se encontrar comigo. Deve estar a chegar.
As caras fechadas abrir-se-ão quando descobrirem que olhando para o céu podem encontrar o sol que tu viste nesse dia de manhã.
ResponderEliminarAssustaste-me. Não estava a ver quem era o(a) Lumaque. Pensei que o sistema estava sujeito a intromissões não permitidas.
ResponderEliminarQue bom que eras tu. A partir de agora podes contribuir para alimentar "a coisa".