sábado, 10 de março de 2012

Um olhar à semana que termina.

Talvez eu não devesse escrever quando estou com um humor menos positivo, porque a escrita sai com tom muito negativo. Mas o facto é que se eu não escrever agora acabarei por me esquecer daquilo que nesta semana me marcou mais.
Foi uma semana fértil em acontecimentos. O meu olhar sobre os que me marcaram mais.

1. Abri o meu primeiro blog, este onde estou a escrever. Ainda não sei quais as consequências que daqui advirão, mas estou disponível para experimentar. É certo que não terei muito tempo para o alimentar, mas farei o possível para que ele não cristalize no tempo.

2. Por falar em alimentar, uma notícia assustadora apareceu nos meios de comunicação nos últimos dias: o modo como produzimos os alimentos que comemos não é sustentável no tempo. Dentro de 20/30 anos, se não alterarmos o modo como nos alimentamos e, simultaneamente, reduzirmos o actual desperdício de alimentos, não haverá condições para alimentar a população mundial. Bem, já hoje não existe, embora atualmente o problema seja mais ao nível da distribuição do que é produzido, do que da quantidade produzida. Segundo as estatísticas, diariamente cerca de 1000 milhões de pessoas - sim! um milhar de milhão - vão para a cama com fome. Se esta gritante injustiça social, assente na desigual distribuição do que é produzido, não tem feito perder o apetite aos habitantes dos países ocidentais, esperemos que a perspetiva de poderem sofrer privações dentro de alguns anos possa alertar para a necessidade de se mudarem os comportamentos alimentares, quer ao nível das quantidades (excessivas) ingeridas, mas também e sobretudo do desperdício (que nos países ocidentais chega a atingir 50% da comida produzida). Como um dos alimentos que mais recursos necessita na produção é a carne, que tal começarmos por reduzir (um pouquinho) o tamanho do naco desta que quase todos os dias nos cai no prato? São os pequenos gestos individuais que, globalmente, fazem a diferença.

3. Já escrevi no post precedente que em cada dia vamos sendo confrontados com a dura realidade de que a crise não é igual para todos. Primeiro foi a TAP, que conseguiu a exceção de não ter de cortar aos seus funcionários os salários mensais em 5%. "Não haverá mais exceções", sentenciou o Ministério das Finanças, antes que a caixa de Pandora das reivindicações se abrisse. Pois não. As restantes já tinham sido concedidas. Ficamos hoje a saber que a CGD, a ANA e a NAV estão entre elas, a par de não sabemos quantas mais que ainda não foram publicamente anunciadas. Pergunto-me, face à justificação do Governo para conceder tais exceções: onde e quando é que a ANA é uma empresa que atua em mercado concorrencial? Tretas, é o que é. Assim não vamos lá, pois o medo de comprar uma briga com os trabalhadores de tais empresas tem como consequência imediata o hipotecar da adesão ao projeto nacional de ultrapassagem da crise da grande massa de trabalhadores que viram, sem apelo nem agravo, os seus vencimentos cortados. Isto é, que viram os contratos que os ligavam ao empregador Estado incumpridos por parte deste.

4. Mas nem sempre o Governo tem esse desprezo pelos contratos em devido tempo rubricados. Esta semana ficámos a saber, também, que um zeloso Secretário de Estado mandou transferir para a Lusoponte a "modesta" quantia de 4,4 milhões de Euros, para pagar a esta o direito de livre passagem dos automobilistas durante o mês de Agosto de 2011 na Ponte 25 de Abril. Ora, acontece que nesse mês a passagem não foi livre e a empresa cobrou as respetivas portagens ... e ainda embolsou a referida transferência. Não fora alguém na Assembleia da República ter "levantado a lebre" e não sabemos qual o desfecho final desta verba (estou a ser pessimista?). A justificação do dito secretário para a decisão tomada foi a de não querer incumprir o contrato com a concessionária! Esta justificação dá para rir, embora devêssemos chorar de raiva. Se no momento há algo que está a ser diariamente incumprido pelo Governo, em nome do Estado Português, são os contratos com os seus fornecedores (funcionários públicos incluídos). Por exemplo, esta semana fomos confrontados com a notícia (incrível) de um hospital que teve de pedir emprestadas compressas para poder continuar a fazer operações cirúrgicas. Porquê?! Porque o Governo não está a pagar aos fornecedores de material cirúrgico e medicamentoso há longos meses. Não é isto um atropelo dos direitos dos fornecedores e dos contratos como Estado? E quantos outros exemplos, de idêntico teor, podiam ser aduzidos …

5. O Presidente da República decidiu esta semana, também, dar um ar da sua graça. No âmbito da publicação de mais um livro com os seus discursos – ainda gostava de saber quem é o público-alvo que compra este tipo de livros – escreveu um prefácio em que zurze no anterior governo e, de modo particular, no seu líder, o Engº José Sócrates. O Presidente até nem disse nada que antes não tivesse sido do conhecimento público, como o caso da deslealdade política do primeiro-ministro de então em não lhe ter dado conhecimento prévio do pacote de austeridade PEC IV. O que o Presidente se esqueceu é que no momento, todos, incluindo os políticos, andamos com os nervos à flor da pele. Qualquer pequena “brisa”, por mais suave que seja, é passível de desencadear uma tempestade. Foi o caso, ainda está a ser. O país não precisava disto no momento, pois já temos (verdadeiros) problemas que nos cheguem e, de modo particular, que exigem todo o nosso esforço coletivo para serem ultrapassados. Portanto, esta intervenção do Presidente era desnecessária, porque não resolveu o que quer que fosse e, pior, criou ainda mais tensão e desunião na sociedade.

6. A crise tem, pois, o condão de nos tornar mais tensos e híper-reativos. Porém, como já antes referi neste blog, a crise que vivemos, como em geral todas as crises, tem impacto assimétrico sobre os cidadãos. Afeta uns de forma esmagadora – sobretudo os que perdem o emprego; passa ao lado de outros podendo, inclusive, melhorar a respetiva situação económica e financeira. A última coisa que deveria acontecer era que estes últimos ostentassem junto dos primeiros a respetiva situação. Nem falo de partilha, embora fosse o ideal. Falo apenas de evitar a ostentação. Usando uma alegoria, se nos defrontamos com alguém que passa fome e não queremos, ou não podemos, partilhar o nosso pão com essa pessoa, o mínimo que seria de esperar da nossa parte era abstermo-nos de ir para a frente desse alguém lambuzar-nos com o pão que temos. Na sua simplicidade, tal tipo de atitude já seria, em minha opinião, um sinal pessoal, ainda que mínimo, de que não somos indiferentes à (pouca) sorte dos nossos concidadãos mais atingidos. Porém, todos os dias, somos “agredidos” com sinais de ostentação … 

7. A terminar, uma nota sobre poupança. As estatísticas mostram que a taxa portuguesa, que três dezenas de anos atrás era das mais elevadas do mundo, conhece dias pouco risonhos. Mesmo assim, por estranho que possa parecer, aumentou … desde que a crise financeira despoletou em 2008. O futuro deixou de ter o grau de certeza que pensávamos ter … Também neste domínio, a assimetria é a regra: 80% da poupança é assegurada por 20% dos cidadãos; 30% dos cidadãos apresentam uma “taxa de poupança negativa”, significando que o respetivo padrão de consumo é superior ao rendimento pessoal. Dada a importância da poupança nacional para o financiamento da economia, evitando (ou reduzindo) o recurso ao financiamento exterior, seria desejável que se adotassem políticas ativas de educação dos cidadãos para a poupança, começando pelas crianças na escola. Porém, os Governos, nos últimos anos, não só não têm investido neste domínio como, pelo contrário, com algumas intervenções como, por exemplo, a alteração das regras de remuneração dos Certificados de Aforro, propiciaram incentivos para … que não se poupe.  
  
7. Uf! Escrevi demais. Deve ser a euforia inicial de ter um blog e querer “enchê-lo” de um dia para o outro. Serei mais comedido para futuro. Se não for por outra razão, porque o tempo é escasso.

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