segunda-feira, 28 de maio de 2012

A reeleição dos autarcas …


Fui convidado para fazer parte do comité científico de um congresso na área da Contabilidade, que decorrerá em Setembro, em Ofir. O efeito mais imediato deste tipo de convites, quando aceite, é recebermos um conjunto de potenciais comunicações ao congresso, para efeitos de avaliação. O objetivo desta tarefa é selecionar, para apresentação, comunicações que proponham algo de inovador e sejam bem elaboradas.
 
Dos cinco trabalhos que me couberam, todos na área da Contabilidade Pública, quatro podem ser considerados como “eventualmente apresentáveis”, embora se situem, em termos de qualidade, na metade inferior da tabela. Por outras palavras, trata-se de trabalhos a pender para o fraco. Uns porque não propõem nada de novo; outros porque apresentam lacunas metodológico-científicas.

Quando eu já desesperava face à fraca qualidade do lote que me coubera avaliar, eis que o quinto, e último, apareceu como uma “lufada de ar fresco” para aliviar o meu desconforto. 


O mesmo tipo de efeito que ocorre quando, no âmbito da correção de provas de exame, o meu desconforto vai aumentando na razão direta das asneiras propostas pelos alunos na prova, até ao momento em que uma boa prova me reconcilia com o mundo e, sobretudo, com os alunos, diluindo a amargura até então acumulada. Quando essa (boa) prova tarda em aparecer, o desconforto é de tal ordem que tenho de parar a correção das provas, sob pena das classificações refletirem em forte baixa os efeitos de tal desconforto.

[Aqui há anos, participando num jantar em que a generalidade dos convivas eram padres, fiquei a saber que eles sentem mais ou menos o mesmo quando ouvem em confissão os fiéis. A intervalos regulares, segundo eles, têm de fazer uma paragem para recuperarem do desconforto e angústia que vão acumulando.]
 
Mas voltemos à questão da revisão das comunicações. Dizia eu que o quinto trabalho foi um lenitivo para o meu desconforto. O tema era interessante e com o seu quê de inovador; o trabalho era sintético mas muito bem estruturado e justificado. 

Um bom estudo, de autoria de investigadores espanhóis, versando sobre o efeito das despesas das autarquias na reeleição dos autarcas. Mais concretamente, esse trabalho discute, apoiado num estudo empírico, se as despesas efetuadas pelas autarquias contribuem para a reeleição dos autarcas no poder. A evidência recolhida pelos autores apoia uma resposta a tal questão positiva. Nas autarquias onde são efetuadas mais despesas municipais os autarcas têm maior probabilidade de serem ser reeleitos em próximas eleições.

Porém, o trabalho mostra que não é qualquer tipo de despesas, nem em qualquer momento do mandato, que produz tal efeito. São as despesas de capital – em obras – efetuadas no ano anterior à eleição que provocam mais efeitos positivos ao nível da reeleição. Ou seja, rotundas e outras “benfeitorias” em vésperas de eleições dão um empurrãozito na reeleição dos autarcas.
Desconfio que a generalidade dos autarcas portugueses nunca leu um artigo científico sobre este assunto. Porém, o respetivo “sexto sentido” leva-os a atuarem de forma adequada (para os seus interesses) quando almejam a reeleição. Só isso explica as obras que eles “oferecem” aos munícipes em véspera de eleições.

Gente esperta, sem dúvida. Só é pena que essa esperteza não seja canalizada para outros domínios que não impliquem para os contribuintes o terem de pagar, com juros, obras de que, muitas vezes, não se vê utilidade … pelo menos no imediato.

Serão os nossos autarcas uns visionários, quando pensam em colocar de pé essas obras? Ou será que não lhes importa o que constroem, desde que isso “encha o olho” dos (pobres) munícipes?

1 comentário:

  1. É extraordinária a fotografia da rotunda. É uma excelente metáfora de alguma política autárquica: paradoxal e, acima de tudo, uma política de "encher o olho".
    Conheço bem esta rotunda. Quase todos os dias a tenho de contornar. Hoje já existe uma estrada que é interrompida por esta enorme rotunda que continua a não regular trânsito algum. E é assim que se gasta o dinheiro público!!! A rotunda serve como mero enfeite de um sítio que por si só não necessita de qualquer atavio. Está inserida num mata ampla, com vegetação variada e com vida selvagem (pelo menos com coelhos. Esse espaço é que bem poderia ser um espaço público, para usufruto de todos não só em termos de lazer, mas também de garantia na preservação de um pulmão para Alfena.
    A "rotunda-enfeite" está a desmembrar-se. Os nomes das freguesias foram substituídos por cascalho e o símbolo do município há muito que "desapareceu". Será que foi por causa dos custos de manutenção? Arrancar as ervas que se misturavam com o buxo que desenhava as letras saía muito caro. Projetar uma obra, prevendo os custos de manutenção, é uma grande canseira!!! Com a continuação da crise e da falência(pelo menos técnica) da Câmara , quem sabe se a seguir não se tira também a relva, ou até mesmo a própria rotunda!!!
    Uma coisa eu sei, pelo menos foi noticiado, o responsável por este município já se cansou do cargo para o qual foi eleito.Será que isso aconteceu porque já não tem dinheiro para gastar?!

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