A notícia chegou pelos jornais, sem
grande destaque. Em Coimbra, alguns “doutores”, no âmbito das atividades da
praxe académica, agrediram duas colegas estudantes cujo único “crime” foi o
serem “caloiras” na Universidade e não quererem entrar na (estúpida)
brincadeira. A gravidade da situação não provocou outra consequência para além
de uma suspensão temporária, por parte da Associação Académica (AA), até que se
apurassem responsabilidades.
Isto já seria suficiente grave. Porém, há
sempre umas “bestas” (não me ocorre forma mais suave de os apelidar, com o devido
respeito pelos animais assim chamados) que se arvoram defensores do
indefensável. A fazer fé na informação veiculada pela imprensa, não desmentida,
um grupo de estudantes (“doutores”) da Faculdade de Economia do Porto viajou de
propósito para Coimbra, para continuar as atividades da praxe, porque a decisão
suspensiva da AA não se lhes aplicava e era a forma de protestarem contra a
suspensão da praxe. Incrível! Incrível por existirem tais “bestas”, que com
tantas formas de serem úteis à sociedade – a começar pela obtenção de
aproveitamento escolar – aplicam os seus esforços a dar cabo da vida dos
outros.
Incrível, também, por as autoridades não
tomarem medidas para colocarem termo, de uma vez por todas, a essa aberração
que se dá peno nome de praxe académica. Os reitores das universidades não
querem comprar uma briga, apesar dos graves incidentes que ao longo dos últimos
anos foram ocorrendo. Viram a cara para o lado, assobiam para o ar. E não é por
falta de aviso e de pressão por parte dos docentes do ensino superior, que veem
parte do seu esforço letivo esvair-se no tempo desperdiçado pelos alunos nesse
tipo de atividade. Um exemplo concreto. Ao longo dos últimos anos, a denominada
semana da Queima das Fitas era período em que não havia aulas, de modo a
permitir aos alunos dedicarem-se de “alma e coração” a todos os excessos e
desmandos. Este ano, a Reitoria da universidade deve ter considerado,
finalmente, que não fazia sentido parar as aulas a poucas semanas do final do
semestre letivo. O que fez?! Quando aprovou o calendário letivo deixou as
coisas numa situação dúbia, porque não marcou a semana como período de
“férias”, mas também não foi assertiva quanto ao facto de ser semana de
trabalho. Empurrou, portanto, a “batata quente” para os diretores das escolas,
deixando ao cuidado de cada um tomar a decisão adequada. E se um empurra o
assunto com a barriga, porque não pode o seguinte fazê-lo também? O diretor da
Faculdade, com o beneplácito do Conselho Pedagógico, também empurrou o assunto,
agora para os docentes. Cabe a estes, em cada disciplina, decidir se existe ou
não aulas nessa semana. Parece impossível, mas é verdade! Assim, as entidades
que deviam assumir a responsabilidade por introduzir algum sentido de
responsabilidade neste processo, têm as suas mãos limpas, qual Pilatos,
deixando para o fim da linha o odioso de contrariar as camadas jovens cujos
interesses se centram em aberrantes brincadeiras que, na maior parte dos casos,
conflituam com a dignidade dos estudantes que acabam de chegar à Universidade.
Não compreendo como é que o Governo do
país, sempre pronto a fazer tábua rasa de qualquer direito ou autonomia que
permita poupar uns tostões, não decide intervir neste domínio, onde se esbanjam
milhões anualmente – sem falar dos efeitos de longo prazo – por via do efeito
da praxe sobre o aproveitamento escolar dos alunos.
Por favor, haja alguém que nos livre das
praxes! Por favor …