sexta-feira, 13 de abril de 2012

A crise não é para todos …


Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular, quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos, colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a que se vive atualmente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A meta


[na sala de espera]
Uma meta existe para ser cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente. E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a “corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista dos passos percorridos e a percorrer. 
As forças por vezes escasseavam, o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o “12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial, o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas “metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à saúde.
Hoje é, pois, um dia especial. O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o “12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida, por ser mais uma batalha vencida.
[na sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente, a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da segunda.
Paciência. A vida é mesmo assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.   

[em tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".   

domingo, 8 de abril de 2012

Acabem com as praxes académicas … Já!


A notícia chegou pelos jornais, sem grande destaque. Em Coimbra, alguns “doutores”, no âmbito das atividades da praxe académica, agrediram duas colegas estudantes cujo único “crime” foi o serem “caloiras” na Universidade e não quererem entrar na (estúpida) brincadeira. A gravidade da situação não provocou outra consequência para além de uma suspensão temporária, por parte da Associação Académica (AA), até que se apurassem responsabilidades.
Isto já seria suficiente grave. Porém, há sempre umas “bestas” (não me ocorre forma mais suave de os apelidar, com o devido respeito pelos animais assim chamados) que se arvoram defensores do indefensável. A fazer fé na informação veiculada pela imprensa, não desmentida, um grupo de estudantes (“doutores”) da Faculdade de Economia do Porto viajou de propósito para Coimbra, para continuar as atividades da praxe, porque a decisão suspensiva da AA não se lhes aplicava e era a forma de protestarem contra a suspensão da praxe. Incrível! Incrível por existirem tais “bestas”, que com tantas formas de serem úteis à sociedade – a começar pela obtenção de aproveitamento escolar – aplicam os seus esforços a dar cabo da vida dos outros.
Incrível, também, por as autoridades não tomarem medidas para colocarem termo, de uma vez por todas, a essa aberração que se dá peno nome de praxe académica. Os reitores das universidades não querem comprar uma briga, apesar dos graves incidentes que ao longo dos últimos anos foram ocorrendo. Viram a cara para o lado, assobiam para o ar. E não é por falta de aviso e de pressão por parte dos docentes do ensino superior, que veem parte do seu esforço letivo esvair-se no tempo desperdiçado pelos alunos nesse tipo de atividade. Um exemplo concreto. Ao longo dos últimos anos, a denominada semana da Queima das Fitas era período em que não havia aulas, de modo a permitir aos alunos dedicarem-se de “alma e coração” a todos os excessos e desmandos. Este ano, a Reitoria da universidade deve ter considerado, finalmente, que não fazia sentido parar as aulas a poucas semanas do final do semestre letivo. O que fez?! Quando aprovou o calendário letivo deixou as coisas numa situação dúbia, porque não marcou a semana como período de “férias”, mas também não foi assertiva quanto ao facto de ser semana de trabalho. Empurrou, portanto, a “batata quente” para os diretores das escolas, deixando ao cuidado de cada um tomar a decisão adequada. E se um empurra o assunto com a barriga, porque não pode o seguinte fazê-lo também? O diretor da Faculdade, com o beneplácito do Conselho Pedagógico, também empurrou o assunto, agora para os docentes. Cabe a estes, em cada disciplina, decidir se existe ou não aulas nessa semana. Parece impossível, mas é verdade! Assim, as entidades que deviam assumir a responsabilidade por introduzir algum sentido de responsabilidade neste processo, têm as suas mãos limpas, qual Pilatos, deixando para o fim da linha o odioso de contrariar as camadas jovens cujos interesses se centram em aberrantes brincadeiras que, na maior parte dos casos, conflituam com a dignidade dos estudantes que acabam de chegar à Universidade.   
Não compreendo como é que o Governo do país, sempre pronto a fazer tábua rasa de qualquer direito ou autonomia que permita poupar uns tostões, não decide intervir neste domínio, onde se esbanjam milhões anualmente – sem falar dos efeitos de longo prazo – por via do efeito da praxe sobre o aproveitamento escolar dos alunos.
Por favor, haja alguém que nos livre das praxes! Por favor …

Acudam-nos! Livrem-nos dos porcos …


No sábado fomos jantar a casa de uma colega. Foi bom. Ambiente agradável, comida boa, conversa amena. Perfeito, para umas horas de descontração. A determinada altura, no meio da conversa, veio a lume o considerada “insuficiente” cuidado dos franceses com a limpeza pessoal e dos seus espaços privados. Na altura, lembrei-me também do caso dos ingleses, que parecem afinar pelo mesmo diapasão. Pelo menos para mim, quando com eles convivi de modo mais intenso e usufrui da respetiva hospitalidade, sempre me fez um pouco de confusão o respetivo desprendimento para com as questões da higiene (modo simpático de dizer que me pareciam sujos).
Na segunda-feira, cedo pela manhã, tive de viajar de comboio, rumo a Caminha. Cada vez gosto mais de usar o transporte público e, de modo particular, o comboio. Para além, claro, da questão de (menor) custo que lhe está associada e que, na atual conjuntura, não é despicienda. Portanto, com os campos ainda cobertos pelo orvalho da manhã, onde o Sol incidia criando reflexos de pérolas, recostei-me na confortável poltrona, e pese o menos agradável cheiro a gasóleo libertado pela locomotiva, preparei-me para uma agradável viagem.
Infelizmente, não foi tão agradável como isso. Duas razões explicam que o prazer da viagem não tenha sido o desejável. Primeiro, o caos arquitetónico que me foi dado ver. Não se tratou apenas de uma mera questão de gosto pessoal, mas sim de situações de uma fealdade atroz que povoa uma paisagem natural que seria agradável, a que se junta a falta de manutenção das construções implantadas no meio do verde dos campos e ou dos pinhais. As construções nas bermas da linha causavam arrepios, tão feias eram. Aliás, aquilo que me pareceu era que os proprietários se preocupam essencialmente com a frente das suas propriedades, desmazelando os “fundos” das mesmas, a parte virada para a linha, que são sujos e feios.
Segundo motivo, mas muito estreitamente ligado ao primeiro, o lixo atirado para a berma da linha que, em determinados zonas, principalmente junto de estradas que cruzavam a via-férrea, eram autênticas lixeiras a céu aberto. Horrível, mesmo para mim que habitualmente não me perco com os detalhes e prefiro olhar para o longe e procurar abarcar o belo da paisagem na linha do horizonte.
Não pude evitar voltar a reviver a conversa durante o jantar de sábado e a opinião que formulámos dos franceses (e ingleses). Com pena minha, tive de concluir que se estes povos não prezam pelo asseio e limpeza no interior das suas casas, ou mesmo na sua higiene pessoal, são de extremo asseio no domínio público. Nós, os portugueses, tendemos a apresentar comportamentos diametralmente opostos. No domínio privado somos exímios na limpeza e asseio; no domínio público, somos o terror. Tudo o que nos estorva em casa, tende a ser lançado no espaço público, sem cuidarmos de que este não nos pertence integralmente, mas tem de ser partilhado com todos os restantes. Apesar dos investimentos efetuados na recolha de lixos, que nalgumas localidades, chega a ser personalizado, no sentido de que as autarquias respondem objetivamente às necessidades dos cidadãos e a pedido destes, as mentalidades tendem não mudar. Fora dos muros dos nossos “castelos” todo o terreno é propício para alijarmos a porcaria que fazemos, atropelando sem dó nem piedade os direitos dos nossos concidadãos.
Que vergonha!   

Lenitivos morais …


A conversa seguia agradável, passado de uns assuntos a outros, numa espécie de contínuo. E chegou à corrupção, vinda da quase nunca clara e consistente fraseologia da Lei. “Não compreendo como alguém pode deixar-se corromper.”, disse. “Será que essas pessoas [os corruptos] conseguem dormir descansados?”. Atirei para a conversa algumas ideias recolhidas na literatura da especialidade: “Eu penso que sim. Aquilo que essas pessoas tendem a fazer é encontrar uma justificação para o ato que cometem, uma espécie de lenitivo moral. A partir daí o ato deixa de ser reprovável para o sujeito, encontrando-se justificado à luz da respetiva consciência.” Concordámos que, por exemplo, um funcionário público que sinta que está a ser injustiçado e a ser remunerado abaixo do esforço dispendido, como é o caso dos cortes nos subsídios de férias e de Natal, poderá encontrar aí uma justificação para um eventual ato de corrupção passiva. Para ele(a) o ato de corrupção tenderá a ser um ato plenamente justificado, pois é apenas um ato de justiça.
Diz o povo que as conversas são como as cerejas: atrás de uma vem outra. E assim foi. A corrupção puxou a questão dos impostos e da evasão fiscal. “Se puder não pagar o IVA, não pago.”, disse. “Isto porque toda a gente ‘foge’ ao imposto.” E alinhavou um quantos exemplos, como o do imposto sobre imóveis, para demonstrar que não era racional ser cumpridor, até porque, em sua opinião, a Lei já está preparada para que cada um não cumpra na totalidade as suas obrigações fiscais. Sem pretender julgar a moralidade de tal raciocínio, não pude deixar de sorrir interiormente, ao verificar que juntamente com a confissão do ato associal que é a evasão fiscal veio a justificação (pessoal) para o cometimento do reprovável ato. Comportamento consistente com o que a literatura teoriza sobre o assunto.
A conversa avançou para outros temas, com a mesma vivacidade. Porém, na minha mente ficou a bailar a questão que não me atrevi a colocar ao meu interlocutor: “Porque será que alguém recusa liminarmente a possibilidade de ser parte de um ato de corrupção e, no entanto, encara com normalidade um ato igualmente associal (e criminoso) como é a evasão fiscal?”
Gostaria de ter uma resposta para dar a mim próprio, mas não tenho. O mais que consigo aventar são meras hipóteses explicativas, sob a forma de outras questões. Será o “amor próprio” do profissional, o denominado “brio profissional”, que se sobrepõe à expetativa do provento associado à corrupção? Será a dificuldade de ter de tratar, “olhar no olhar”, com o corruptor os detalhes de uma ação menos corrente, apesar de tudo, do que a evasão fiscal? Será o medo da eventual penalização, potencialmente mais gravosa do que o da evasão fiscal?
Não sei qual será a explicação, embora, em abstrato, me incline mais para a primeira. Porquê maior inclinação para esta?! Não sei.   

domingo, 1 de abril de 2012

Educação e matérias relacionadas …


Exames
Uma aula prática. Deambulava pelo meio dos alunos, incentivando-os a resolver o problema que lhes havia proposto e, também, prestando esclarecimentos sempre que solicitado. Uma aluna chamou-me. Queria saber se a solução que encontrara era a correta. Olhei e disse-lhe que não. Comecei a explicar-lhe, passo por passo, o procedimento adequado para resolver o problema, esperando entre cada dois passos que ela, no seu caderno, concretizasse o anterior. A determinada altura chegou ao seguinte resultado: a empresa poderia comprar 10 000 ações ao preço de 6,4 euros cada. Esperava eu que ela escrevesse o montante gasto na compra para passarmos ao passo seguinte. Ela olhou para mim à espera, penso, que eu lhe indicasse esse montante. Quando lhe disse que estava à espera que ela o fizesse para passarmos ao passo seguinte, respondeu-me que não tinha máquina de calcular. Olhei para ela e a minha cara devia expressar a minha incredulidade. Ela fez um sorriso amarelo e encolheu os ombros. “Faça a conta e depois chame-me.”, disse-lhe, virando as costas e indo atender outro aluno que por mim chamava.
Eu até nem me devia surpreender com o acontecido porque, infelizmente, não é caso raro alunos não conseguirem fazer mentalmente operações de multiplicação/divisão por 10, 100 ou 1 000. Porém, sempre que disso me apercebo não deixo de me interrogar sobre o tipo de formação escolar que esses alunos receberam até chegarem à Universidade. Tenha-se presente que, para poderem ter entrado na Faculdade onde leciono, os alunos a que me refiro obtiveram média superior a 16 valores no ensino secundário.
Nesse mesmo dia, ou no dia anterior, já não me lembro bem, o Ministro da Educação foi ao Parlamento apresentar uma proposta de lei que introduz a obrigatoriedade dos alunos, no final do primeiro ciclo (antiga 4ª classe), serem submetidos a um exame cuja classificação conta para efeitos de passagem de ciclo. Foi o bom e o bonito, com uma “certa esquerda” a considerar que essa medida era o retorno ao tempo do fascismo e que essa medida era o equivalente a separar os alunos, no início do respetivo percurso escolar, entre os que vão para a Universidade e os que vão trabalhar como operários pelo salário mínimo! Se o ridículo matasse, nessa sessão o país teria perdido uma parte substancial dos seus parlamentares (não discuto as vantagens de uma redução do número de deputados ...). Não discuto, também, o papel das oposições, quaisquer que sejam, nem o facto de que poderão não colher benefícios junto dos seus eleitorados quando votam favoravelmente propostas do Governo. Mas, caramba, é possível votar contra sem ter necessidade de usar tal tipo de atoardas.
Quase quatro décadas após a revolução, se é um facto que o acesso ao ensino se democratizou, tornando-se universal, também é iniludível que essa universalização tem ocorrido em simultâneo com uma baixa do nível de exigência da formação escolar.
A educação tem sido alfobre onde se têm cruzado todo o tipo de “teorias”, sem se cuidar das consequências daí resultantes para a formação dos alunos. Quem não se lembra, por exemplo, das “teorias” de que o ensino tem de ser lúdico, ou de que não devem existir exames para não se correr o risco de traumatizar as “criancinhas”? A consequência mais perceptível dessas e outras experiências no ensino é a chegada dos alunos ao ensino superior sem algumas das ferramentas básicas – como na ilustração supra, o cálculo mental –, sem capacidade de trabalho e com o que parece ser a certeza de que o sistema de ensino, com maior ou menor protelamento, lhes há-de certificar, com diploma e título de doutor, competências que eles na verdade não possuem.
De quem é a culpa?! De todos em geral, de ninguém em particular. Ainda que inconscientemente, os intervenientes no sistema de ensino, face à mole de alunos mal preparados que lhes chegam do nível de ensino anterior, acabam por “baixar a fasquia” da exigência, deixando pessoas mal preparadas passar para o nível seguinte e, no fim do processo, entrar no mercado de trabalho. Não é alheio a este baixar do nível de exigência o facto do sistema exigir “resultados”, mesmo quando estes realmente não existem para mostrar. O docente que reprova os alunos terá de fazer relatórios e mais relatórios para se defender, pois o ónus da culpa das reprovações está sempre sobre ele e nunca, ou quase nunca, sobre os alunos e o insuficiente volume de trabalho escolar que desenvolvem.
Neste contexto, mesmo que as medidas agora propostas não venham a resolver completamente o problema – as famílias, que não referi, não são isentas de culpas no processo –, pelo menos ajudar-nos-ão a ir queimando etapas no percurso para percebermos as (verdadeiras) raízes do problema.


Emigração
Caiu o Carmo e a Trindade quando, há um par de meses, o Primeiro-Ministro (PM) disse que os nossos jovens diplomados deviam incluir entre as suas opções profissionais a possibilidade de emigrarem para locais onde exista aquilo que no presente Portugal não tem para lhes oferecer: trabalho.
É triste que o país não consiga no momento gerar o emprego necessário para permitir aos nossos jovens poderem planear as suas vidas pessoais e profissionais. A “tirada” do PM chocou porque, em minha opinião, não estamos habituados a que os nossos políticos nos dêem más notícias abertamente, com todas as letras. Estamos habituados, sim, é que eles as escondam de nós.
Quanto à emigração, não considero que seja um “bicho de sete cabeças”. Pelo contrário, julgo que daí podem advir vantagens para as pessoas e para o país. Por exemplo, permitirá que quem parte recolha uma experiência de vida junto de povos que agem e pensam de forma diferente da nossa, permitindo que cada um confronte o que é com o que pode ser, retendo aquilo que os outros fazem melhor do que nós (pontualidade, empreendedorismo, planeamento, ritmo de trabalho, produtividade, etc., etc.). Deste modo, voltem as pessoas mais tarde ao país – e este é o verdadeiro risco social, o de que não retornem – e poderão dar um valioso contributo para que a sociedade “pendurada” no Estado em que nos transformamos evolua no sentido de que cada um seja mais autónomo e, desse modo, possa dar um maior contributo para uma sociedade mais justa e equitativa.

quinta-feira, 29 de março de 2012

As tertúlias pós-modernas

Nunca tive apetência por ler ou fazer blogues. No entanto, sempre que procuro uma informação na net, qualquer que seja, há sempre um blogue que salta para o ecrã do meu PC, como castanhas a assar em lume forte. Vivemos na era do “Eu acho que …”; “Eu julgo que …” ou “Eu penso que…”. A partir de finais dos anos 90 toda a gente desatou a ter opinião sobre quase tudo. É claro que é muito importante ter opinião, principalmente se essa opinião for alicerçada em pressupostos, mesmo que sejam distintos daqueles que nós usaríamos para opinar sobre o mesmo assunto. Caberá ao leitor decidir fazer correr o cursor para ler essa opinião ou fechar a página. É isso que eu faço muitas vezes porque aprendi a seleccionar a informação.
Na década de oitenta, quando comecei a lidar com a internet, fiquei maravilhada com a facilidade com que se obtinha informação e com a quantidade que estava ao nosso dispor. As subidas e descidas que fazia à prateleira superior da minha estante para consultar a enciclopédia tinham acabado. Já não corria o risco de cair quando ficava entusiasmada por encontrar, ainda no local de arrumação da obra (leia-se no cimo da escada), o assunto que procurava. Apesar da dificuldade em aceder à Internet (era quase necessário ter um curso de programação!) e do tempo que demorava a fazer a ligação (o ruído também não é despiciente nesta avaliação), entrar na World Wide Web era entrar no paraíso. Na década de setenta e oitenta os jovens mais endinheirados iam de propósito a Paris e a Londres comprar livros e discos. Os menos abonados, como eu, iam a Vigo. Cá, em Portugal, só por encomenda se conseguiam comprar determinadas obras (arte, principalmente) e/ou discos. Tal como no conto de Charles Dickens, A Tale of Two Cities, para mim foi o melhor dos tempos, mas foi também o pior dos tempos. Como não conseguia processar toda a informação em conhecimento julguei estar a desenvolver uma doença chamada “estupidez aguda”. À medida que aumentava a frequência de utilização da Web, mais “deprimida” ficava com a incapacidade de guardar a informação na minha cabeça. A noção de que a informação estava ao alcance de um click era muito remota.
Nessa altura, as discussões sobre um determinado assunto (quase sempre sobre política ou arte no sentido lato do termo - cinema, fotografia…) faziam-se nos cafés. Éramos capazes de estar agarrados às palavras, aos gestos e aos olhares toda a tarde e toda a noite. Parte da minha formação foi feita dessa maneira. A outra foi lendo os livros (os tais que nem sempre estavam à venda em Portugal) que eram referidos nessas discussões. A escola era muito conservadora e nada criativa.
Se quero acompanhar os tempos, tenho que olhar os blogues como as tertúlias da década de setenta e oitenta. Por isso, seria bom que os assuntos aqui tratados fossem discutidos, principalmente por todos aqueles que vierem por bem.