Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para
todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise
pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular,
quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda
de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma
redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar
de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente
justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que
acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas
que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até
tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São
aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos
rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os
primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas
preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando
e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira
necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos,
colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas
os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros
não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao
luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São
detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que
fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países
longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se
deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de
onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza
que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o
pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que
é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que
se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para
a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a
totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de
consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou
criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é
efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na
economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do
país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação
económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise
esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um
por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o
sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com
eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem
atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que
menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a
que se vive atualmente.