domingo, 8 de abril de 2012

Acudam-nos! Livrem-nos dos porcos …


No sábado fomos jantar a casa de uma colega. Foi bom. Ambiente agradável, comida boa, conversa amena. Perfeito, para umas horas de descontração. A determinada altura, no meio da conversa, veio a lume o considerada “insuficiente” cuidado dos franceses com a limpeza pessoal e dos seus espaços privados. Na altura, lembrei-me também do caso dos ingleses, que parecem afinar pelo mesmo diapasão. Pelo menos para mim, quando com eles convivi de modo mais intenso e usufrui da respetiva hospitalidade, sempre me fez um pouco de confusão o respetivo desprendimento para com as questões da higiene (modo simpático de dizer que me pareciam sujos).
Na segunda-feira, cedo pela manhã, tive de viajar de comboio, rumo a Caminha. Cada vez gosto mais de usar o transporte público e, de modo particular, o comboio. Para além, claro, da questão de (menor) custo que lhe está associada e que, na atual conjuntura, não é despicienda. Portanto, com os campos ainda cobertos pelo orvalho da manhã, onde o Sol incidia criando reflexos de pérolas, recostei-me na confortável poltrona, e pese o menos agradável cheiro a gasóleo libertado pela locomotiva, preparei-me para uma agradável viagem.
Infelizmente, não foi tão agradável como isso. Duas razões explicam que o prazer da viagem não tenha sido o desejável. Primeiro, o caos arquitetónico que me foi dado ver. Não se tratou apenas de uma mera questão de gosto pessoal, mas sim de situações de uma fealdade atroz que povoa uma paisagem natural que seria agradável, a que se junta a falta de manutenção das construções implantadas no meio do verde dos campos e ou dos pinhais. As construções nas bermas da linha causavam arrepios, tão feias eram. Aliás, aquilo que me pareceu era que os proprietários se preocupam essencialmente com a frente das suas propriedades, desmazelando os “fundos” das mesmas, a parte virada para a linha, que são sujos e feios.
Segundo motivo, mas muito estreitamente ligado ao primeiro, o lixo atirado para a berma da linha que, em determinados zonas, principalmente junto de estradas que cruzavam a via-férrea, eram autênticas lixeiras a céu aberto. Horrível, mesmo para mim que habitualmente não me perco com os detalhes e prefiro olhar para o longe e procurar abarcar o belo da paisagem na linha do horizonte.
Não pude evitar voltar a reviver a conversa durante o jantar de sábado e a opinião que formulámos dos franceses (e ingleses). Com pena minha, tive de concluir que se estes povos não prezam pelo asseio e limpeza no interior das suas casas, ou mesmo na sua higiene pessoal, são de extremo asseio no domínio público. Nós, os portugueses, tendemos a apresentar comportamentos diametralmente opostos. No domínio privado somos exímios na limpeza e asseio; no domínio público, somos o terror. Tudo o que nos estorva em casa, tende a ser lançado no espaço público, sem cuidarmos de que este não nos pertence integralmente, mas tem de ser partilhado com todos os restantes. Apesar dos investimentos efetuados na recolha de lixos, que nalgumas localidades, chega a ser personalizado, no sentido de que as autarquias respondem objetivamente às necessidades dos cidadãos e a pedido destes, as mentalidades tendem não mudar. Fora dos muros dos nossos “castelos” todo o terreno é propício para alijarmos a porcaria que fazemos, atropelando sem dó nem piedade os direitos dos nossos concidadãos.
Que vergonha!   

Lenitivos morais …


A conversa seguia agradável, passado de uns assuntos a outros, numa espécie de contínuo. E chegou à corrupção, vinda da quase nunca clara e consistente fraseologia da Lei. “Não compreendo como alguém pode deixar-se corromper.”, disse. “Será que essas pessoas [os corruptos] conseguem dormir descansados?”. Atirei para a conversa algumas ideias recolhidas na literatura da especialidade: “Eu penso que sim. Aquilo que essas pessoas tendem a fazer é encontrar uma justificação para o ato que cometem, uma espécie de lenitivo moral. A partir daí o ato deixa de ser reprovável para o sujeito, encontrando-se justificado à luz da respetiva consciência.” Concordámos que, por exemplo, um funcionário público que sinta que está a ser injustiçado e a ser remunerado abaixo do esforço dispendido, como é o caso dos cortes nos subsídios de férias e de Natal, poderá encontrar aí uma justificação para um eventual ato de corrupção passiva. Para ele(a) o ato de corrupção tenderá a ser um ato plenamente justificado, pois é apenas um ato de justiça.
Diz o povo que as conversas são como as cerejas: atrás de uma vem outra. E assim foi. A corrupção puxou a questão dos impostos e da evasão fiscal. “Se puder não pagar o IVA, não pago.”, disse. “Isto porque toda a gente ‘foge’ ao imposto.” E alinhavou um quantos exemplos, como o do imposto sobre imóveis, para demonstrar que não era racional ser cumpridor, até porque, em sua opinião, a Lei já está preparada para que cada um não cumpra na totalidade as suas obrigações fiscais. Sem pretender julgar a moralidade de tal raciocínio, não pude deixar de sorrir interiormente, ao verificar que juntamente com a confissão do ato associal que é a evasão fiscal veio a justificação (pessoal) para o cometimento do reprovável ato. Comportamento consistente com o que a literatura teoriza sobre o assunto.
A conversa avançou para outros temas, com a mesma vivacidade. Porém, na minha mente ficou a bailar a questão que não me atrevi a colocar ao meu interlocutor: “Porque será que alguém recusa liminarmente a possibilidade de ser parte de um ato de corrupção e, no entanto, encara com normalidade um ato igualmente associal (e criminoso) como é a evasão fiscal?”
Gostaria de ter uma resposta para dar a mim próprio, mas não tenho. O mais que consigo aventar são meras hipóteses explicativas, sob a forma de outras questões. Será o “amor próprio” do profissional, o denominado “brio profissional”, que se sobrepõe à expetativa do provento associado à corrupção? Será a dificuldade de ter de tratar, “olhar no olhar”, com o corruptor os detalhes de uma ação menos corrente, apesar de tudo, do que a evasão fiscal? Será o medo da eventual penalização, potencialmente mais gravosa do que o da evasão fiscal?
Não sei qual será a explicação, embora, em abstrato, me incline mais para a primeira. Porquê maior inclinação para esta?! Não sei.   

domingo, 1 de abril de 2012

Educação e matérias relacionadas …


Exames
Uma aula prática. Deambulava pelo meio dos alunos, incentivando-os a resolver o problema que lhes havia proposto e, também, prestando esclarecimentos sempre que solicitado. Uma aluna chamou-me. Queria saber se a solução que encontrara era a correta. Olhei e disse-lhe que não. Comecei a explicar-lhe, passo por passo, o procedimento adequado para resolver o problema, esperando entre cada dois passos que ela, no seu caderno, concretizasse o anterior. A determinada altura chegou ao seguinte resultado: a empresa poderia comprar 10 000 ações ao preço de 6,4 euros cada. Esperava eu que ela escrevesse o montante gasto na compra para passarmos ao passo seguinte. Ela olhou para mim à espera, penso, que eu lhe indicasse esse montante. Quando lhe disse que estava à espera que ela o fizesse para passarmos ao passo seguinte, respondeu-me que não tinha máquina de calcular. Olhei para ela e a minha cara devia expressar a minha incredulidade. Ela fez um sorriso amarelo e encolheu os ombros. “Faça a conta e depois chame-me.”, disse-lhe, virando as costas e indo atender outro aluno que por mim chamava.
Eu até nem me devia surpreender com o acontecido porque, infelizmente, não é caso raro alunos não conseguirem fazer mentalmente operações de multiplicação/divisão por 10, 100 ou 1 000. Porém, sempre que disso me apercebo não deixo de me interrogar sobre o tipo de formação escolar que esses alunos receberam até chegarem à Universidade. Tenha-se presente que, para poderem ter entrado na Faculdade onde leciono, os alunos a que me refiro obtiveram média superior a 16 valores no ensino secundário.
Nesse mesmo dia, ou no dia anterior, já não me lembro bem, o Ministro da Educação foi ao Parlamento apresentar uma proposta de lei que introduz a obrigatoriedade dos alunos, no final do primeiro ciclo (antiga 4ª classe), serem submetidos a um exame cuja classificação conta para efeitos de passagem de ciclo. Foi o bom e o bonito, com uma “certa esquerda” a considerar que essa medida era o retorno ao tempo do fascismo e que essa medida era o equivalente a separar os alunos, no início do respetivo percurso escolar, entre os que vão para a Universidade e os que vão trabalhar como operários pelo salário mínimo! Se o ridículo matasse, nessa sessão o país teria perdido uma parte substancial dos seus parlamentares (não discuto as vantagens de uma redução do número de deputados ...). Não discuto, também, o papel das oposições, quaisquer que sejam, nem o facto de que poderão não colher benefícios junto dos seus eleitorados quando votam favoravelmente propostas do Governo. Mas, caramba, é possível votar contra sem ter necessidade de usar tal tipo de atoardas.
Quase quatro décadas após a revolução, se é um facto que o acesso ao ensino se democratizou, tornando-se universal, também é iniludível que essa universalização tem ocorrido em simultâneo com uma baixa do nível de exigência da formação escolar.
A educação tem sido alfobre onde se têm cruzado todo o tipo de “teorias”, sem se cuidar das consequências daí resultantes para a formação dos alunos. Quem não se lembra, por exemplo, das “teorias” de que o ensino tem de ser lúdico, ou de que não devem existir exames para não se correr o risco de traumatizar as “criancinhas”? A consequência mais perceptível dessas e outras experiências no ensino é a chegada dos alunos ao ensino superior sem algumas das ferramentas básicas – como na ilustração supra, o cálculo mental –, sem capacidade de trabalho e com o que parece ser a certeza de que o sistema de ensino, com maior ou menor protelamento, lhes há-de certificar, com diploma e título de doutor, competências que eles na verdade não possuem.
De quem é a culpa?! De todos em geral, de ninguém em particular. Ainda que inconscientemente, os intervenientes no sistema de ensino, face à mole de alunos mal preparados que lhes chegam do nível de ensino anterior, acabam por “baixar a fasquia” da exigência, deixando pessoas mal preparadas passar para o nível seguinte e, no fim do processo, entrar no mercado de trabalho. Não é alheio a este baixar do nível de exigência o facto do sistema exigir “resultados”, mesmo quando estes realmente não existem para mostrar. O docente que reprova os alunos terá de fazer relatórios e mais relatórios para se defender, pois o ónus da culpa das reprovações está sempre sobre ele e nunca, ou quase nunca, sobre os alunos e o insuficiente volume de trabalho escolar que desenvolvem.
Neste contexto, mesmo que as medidas agora propostas não venham a resolver completamente o problema – as famílias, que não referi, não são isentas de culpas no processo –, pelo menos ajudar-nos-ão a ir queimando etapas no percurso para percebermos as (verdadeiras) raízes do problema.


Emigração
Caiu o Carmo e a Trindade quando, há um par de meses, o Primeiro-Ministro (PM) disse que os nossos jovens diplomados deviam incluir entre as suas opções profissionais a possibilidade de emigrarem para locais onde exista aquilo que no presente Portugal não tem para lhes oferecer: trabalho.
É triste que o país não consiga no momento gerar o emprego necessário para permitir aos nossos jovens poderem planear as suas vidas pessoais e profissionais. A “tirada” do PM chocou porque, em minha opinião, não estamos habituados a que os nossos políticos nos dêem más notícias abertamente, com todas as letras. Estamos habituados, sim, é que eles as escondam de nós.
Quanto à emigração, não considero que seja um “bicho de sete cabeças”. Pelo contrário, julgo que daí podem advir vantagens para as pessoas e para o país. Por exemplo, permitirá que quem parte recolha uma experiência de vida junto de povos que agem e pensam de forma diferente da nossa, permitindo que cada um confronte o que é com o que pode ser, retendo aquilo que os outros fazem melhor do que nós (pontualidade, empreendedorismo, planeamento, ritmo de trabalho, produtividade, etc., etc.). Deste modo, voltem as pessoas mais tarde ao país – e este é o verdadeiro risco social, o de que não retornem – e poderão dar um valioso contributo para que a sociedade “pendurada” no Estado em que nos transformamos evolua no sentido de que cada um seja mais autónomo e, desse modo, possa dar um maior contributo para uma sociedade mais justa e equitativa.

quinta-feira, 29 de março de 2012

As tertúlias pós-modernas

Nunca tive apetência por ler ou fazer blogues. No entanto, sempre que procuro uma informação na net, qualquer que seja, há sempre um blogue que salta para o ecrã do meu PC, como castanhas a assar em lume forte. Vivemos na era do “Eu acho que …”; “Eu julgo que …” ou “Eu penso que…”. A partir de finais dos anos 90 toda a gente desatou a ter opinião sobre quase tudo. É claro que é muito importante ter opinião, principalmente se essa opinião for alicerçada em pressupostos, mesmo que sejam distintos daqueles que nós usaríamos para opinar sobre o mesmo assunto. Caberá ao leitor decidir fazer correr o cursor para ler essa opinião ou fechar a página. É isso que eu faço muitas vezes porque aprendi a seleccionar a informação.
Na década de oitenta, quando comecei a lidar com a internet, fiquei maravilhada com a facilidade com que se obtinha informação e com a quantidade que estava ao nosso dispor. As subidas e descidas que fazia à prateleira superior da minha estante para consultar a enciclopédia tinham acabado. Já não corria o risco de cair quando ficava entusiasmada por encontrar, ainda no local de arrumação da obra (leia-se no cimo da escada), o assunto que procurava. Apesar da dificuldade em aceder à Internet (era quase necessário ter um curso de programação!) e do tempo que demorava a fazer a ligação (o ruído também não é despiciente nesta avaliação), entrar na World Wide Web era entrar no paraíso. Na década de setenta e oitenta os jovens mais endinheirados iam de propósito a Paris e a Londres comprar livros e discos. Os menos abonados, como eu, iam a Vigo. Cá, em Portugal, só por encomenda se conseguiam comprar determinadas obras (arte, principalmente) e/ou discos. Tal como no conto de Charles Dickens, A Tale of Two Cities, para mim foi o melhor dos tempos, mas foi também o pior dos tempos. Como não conseguia processar toda a informação em conhecimento julguei estar a desenvolver uma doença chamada “estupidez aguda”. À medida que aumentava a frequência de utilização da Web, mais “deprimida” ficava com a incapacidade de guardar a informação na minha cabeça. A noção de que a informação estava ao alcance de um click era muito remota.
Nessa altura, as discussões sobre um determinado assunto (quase sempre sobre política ou arte no sentido lato do termo - cinema, fotografia…) faziam-se nos cafés. Éramos capazes de estar agarrados às palavras, aos gestos e aos olhares toda a tarde e toda a noite. Parte da minha formação foi feita dessa maneira. A outra foi lendo os livros (os tais que nem sempre estavam à venda em Portugal) que eram referidos nessas discussões. A escola era muito conservadora e nada criativa.
Se quero acompanhar os tempos, tenho que olhar os blogues como as tertúlias da década de setenta e oitenta. Por isso, seria bom que os assuntos aqui tratados fossem discutidos, principalmente por todos aqueles que vierem por bem.

terça-feira, 27 de março de 2012

No hospital ...

Hoje estou escrever fora do recato do gabinete de trabalho do meu lar. Estou numa sala de espera de um hospital, aguardando que chegue a minha vez de ser chamado para tratamento. Há muitas pessoas sentadas nas cadeiras disponíveis, caras fechadas e denotando o que parece ser medo ou, no mínimo, preocupação. As poucas conversas que têm lugar decorrem em voz moderada, como se houvesse o cuidado da parte de quem fala de não perturbar a introspeção dos restantes pacientes e acompanhantes. Como tende a acontecer em todos os espaços públicos, uma das paredes da sala acolhe um enorme televisor, plano, onde passam as imagens da "Praça da Alegria", sem som. Também aqui, o televisor faz as vezes de um quadro, de uma gravura para a qual quase ninguém olha. A mais elementar justiça impõem que se diga, no entanto, que o espaço é agradável e está decorado com fotografias do rio Douro e das suas pontes, e na parede junto à saída tem uma enorme tela de Armanda Passos, onde em fundo branco a tradicional matrona colorida aparece acompanhada de um dos seus pássaros.

[chegou a minha vez]

Uf! Uma boa notícia. A análise sanguínea que havia feito mostrou que o sangue estava em condições de receber mais um tratamento. Tenho que confessar que os momentos de espera, preliminares ao tratamento, provocam sempre um pouquinho de tensão interior, devido ao receio de não se poder fazer o almejado tratamento. Há sentimentos contraditórios associados à vinda ao hospital pela razão que cá me trouxe hoje: por um lado, o desejo de fazer o tratamento; por outro, o antecipar do desconforto e mau-estar provocado por esse mesmo tratamento, que perdurará por vários dias. Vence sempre o primeiro deles, pois tem subjacente que quanto mais depressa esses tratamentos tiverem lugar mais depressa se chega ao fim (assim se espera) dos tratamentos e do dito desconforto.

Do meu cadeirão, costas voltadas para a janela, o ecrã de televisão individual onde passa um programa do National Geographic, sem som, do meu lado esquerdo, olho em redor para os meus colegas de tratamento. As faces parecem ainda mais fechadas do que na sala de espera, mas todos os rostos, ou quase, transmitem uma sensação de resignação. Lá no fundo, cada um deve pensar, como eu, que esta provação é temporária, que melhores dias virão, dias em que sentiremos a doçura inefável da saúde, doçura que só sentimos em plenitude depois da provação. Por exemplo, hoje de manhã, quando saí de casa o Sol ainda não se tinha levantado no horizonte. Havia uma luminosidade especial, alaranjada, que salientava os contornos escuros do perfil das casas, das árvores, da linha do horizonte. Simultaneamente, a temperatura era amena, com uma ligeira brisa. Enquanto abria o carro, tive uma tomada de consciência de como é bom estar vivo e estar na posse de todas as faculdades físicas e mentais.

[o líquido vai correndo, gota a gota, do pequeno saco pendurado num suporte de aço inoxidável, deslizando pelo tubo que penetra no meu corpo] 

Aqui, agora, apesar do desconforto, físico e psicológico associado a este tipo de lugares e tratamentos, dou Graças por haver hospitais para nos tratarem e pessoas que, para além do seu profissionalismo, nos dispensam, aqui e ali, um sorriso que ameniza a tensão que nos preenche; outras que, voluntariamente, nos trazem um pouco de alimento para aconchegar o estômago.
Os meus vizinhos da frente foram agora embora, terminado o respetivo tratamento. A minha vez também não deve tardar, embora a enfermeira me tenha dito agora mesmo que a "bomba" ainda não chegou da farmácia. Este pequeno atraso até nem é mau de todo, pois permite que a Lucinda chegue antes de eu terminar. Ela, que nunca me abandona e sempre me apoia, hoje não pôde estar aqui todo o tempo devido a reunião na escola a que não podia faltar. Senti a tristeza na sua voz por estar ausente, e mal a reunião terminou pôs-se a caminho para aqui se encontrar comigo. Deve estar a chegar.


domingo, 25 de março de 2012

Ao jantar …

  1.     Jantar agradável, em Coimbra. Incluiu fado, mas também conversa sobre a crise. E, como é habitual, apareceu alguém a alocar as culpas da crise: a banca. Não concordei. Não há um único culpado, mas vários. A banca não está isenta, mas é escamotear a realidade deixar de fora, nomeadamente, a responsabilidade de cada indivíduo no volume de endividamento que contratou. Há evidência que aponta no sentido de que os maiores problemas de endividamento ocorrem com pessoas que contraíram empréstimos junto de diversas entidades, pois esses volumes de crédito seriam impossíveis de obter junto de um único financiador, dado o risco que não poderia deixar de ser reconhecido ao devedor. Portanto, não há aqui um desconhecimento do que cada indivíduo estava a fazer, nem do que as instituições estavam a fazer. “Ah!”, diz-se, “mas a banca fez publicidade agressiva, quase que obrigava as pessoas a ficar com eles!”. Pois é, mas as Testemunhas de Jeová também fazem uma Evangelização agressiva, e não consta que os seus centros de culto estejam cheios de crentes. “E os bancos não sabiam que muitos dos seus potenciais clientes tinham um défice de cultura financeira?”, também se costuma argumentar. Mas o que diria cada sujeito que, dirigindo-se a uma instituição financeira para obter um financiamento, fosse barrado por ser considerado “financeiramente iletrado”? E entra-se no domínio da liberdade de cada sujeito em contratar. Aliás, questiono-me sobre qual seria a reação da sociedade se o Governo, ou qualquer outra entidade reguladora, tivesse imposto que determinada camada da população não poderia aceder ao crédito. Argumentos à parte, eu julgo que houve três falhas fundamentais para chegarmos ao sobre-endividamento das famílias: i) até muito tarde no tempo, cada banco ou instituição de crédito tendeu a tratar cada caso de crédito a particulares internamente, sobretudo nos créditos pessoais e garantidos por hipotecas reais, sem ter em consideração responsabilidades do sujeito junto de outras instituições. Só a partir da centralização das responsabilidades financeiras numa base de dados no Banco de Portugal houve possibilidade de, mais facilmente, essas instituições terem uma perspetiva abrangente das responsabilidades globais de cada sujeito; ii) se a cada banco cabia a responsabilidade de ajuizar cada operação particular, ao Banco de Portugal caberia ajuizar das consequências macroeconómicas de uma generalização do acesso ao crédito. E parece não o ter feito, até muito tarde, e nunca, tanto quanto se sabe, de forma clara e incisiva. (o “castigo” do seu Governador foi um lugar principescamente pago no BCE.) Duas falhas grave por parte de uma instituição pejada de técnicos principescamente pagos, o considerar que um país do Euro não tinha limites ao endividamento e o não antecipar o problema macro do endividamento das famílias; iii) o silêncio das agências de “rating” durante quase dez anos, não pontuando o risco crescente de cada país à medida que o seu endividamento aumentava. A terem feito isso, com um “downgrading” do “rating” atempado, não se teria chegado onde se chegou, pois o custo do dinheiro teria aumentado e, por essa via, reduzido a procura de crédito. Agora, essas agências procuram recuperar o tempo perdido … com os nefastos efeitos que se conhecem.

2.   O Teixeira dos Santos esteve indicado para ocupar um lugar na administração da PT, indicado pelo governo (!). “Uau!, afinal não se olha à cor da camisola”, terão pensado os mais inocentes, onde me incluo. Pois é, mas um lugar tão apetecível não deixaria de provocar acesa luta. Foi o que aconteceu e o ex-ministro das Finanças parece ter perdido a hipótese de ser recompensado do esforço mal pago que fez durante os anos que esteve no Governo.

3.      Um olhar sobre o mundo da academia, concretamente sobre o domínio dos júris de provas académicas de doutoramento. Não há júri que não tenha mais de cinco elementos. Podem ser sete, nove ou até mais. Um desperdício de esforços/recursos, que o Simplex não acautelou. Começa pela dificuldade em definir uma data e hora que sirva a todos os membros … implicando, por vezes, meses de dilação das provas, com o que isso pode significar de custos para o candidato. Depois, surge o custo financeiro de deslocar pessoas de diversos pontos do país, quando não do estrangeiro, para o lugar das provas. E termina, para se ser breve, com o facto de a dimensão do júri não ser sinónimo de melhor avaliação do trabalho do candidato. Pelo contrário, quanto maior o número de membros do júri, maior parece ser a diluição de responsabilidades na definição e votação do veredicto final. Seria um estudo interessante voltar às teses de doutoramento arquivadas nas bolorentas prateleiras das bibliotecas universitárias e reavaliar os contributos científicos desses trabalhos e relacioná-los com as classificações atribuídas. Talvez se chegasse à conclusão de que tem algum grau de verdade aquela “piada” que os ingleses usam de que, para o resultado final das provas de doutoramento, não interessa o tópico escolhido pelo candidato, a profundidade do seu trabalho e os contributos científicos (ou falta deles), mas sim o nome e posição do respetivo orientador (cujas qualidades profissionais nem sempre coincidem com a qualidade da orientação efetuada). Os ingleses, pelo menos, se não podem obviar a tal facto, são mais comedidos na questão dos júris: duas pessoas é o suficiente para avaliar os trabalhos. E num júri tão pequeno, qual dos membros não pensa na respetiva responsabilidade pessoal ao pronunciar o veredicto final?  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Estamos todos às escuras!

Esta semana houve quatro situações que considerei merecerem uma nota neste blog.
  1. Em primeiro lugar, a baixa no Governo: a saída do Secretário de Estado da Energia. Discutem-se as razões. Para uns foi inábil nas negociações com a EDP, para outros o Governo tirou-lhe o tapete debaixo dos pés. Porém, aquilo que eu acho mais relevante na sua saída foi o ter-se discutido o “mundo” das PPP e das rendas da energia. É assustador o panorama: se consumimos energia, pagamos; se não consumimos, pagamos na mesma (via impostos e as ditas rendas). O mesmo nas estradas e nas PPP: se transitamos, pagamos; se não transitamos, pagamos na mesma. É assustador, repito. Como foi possível ter-se chegado a este ponto? E, não menos assustador, é que apesar do elevado custo que pagamos pela energia ainda há um défice tarifário que é atirado para o futuro e que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de ser pago: milhares de milhões de euros! É de loucos!!!
  1. Em segundo, a “chicana política” na AR, a propósito do caso BPN. Teve a presidente de ameaçar demitir-se para conseguir um mínimo de bom-senso nos partidos do centro, PS vs PSD/PP, que acordaram fazer apenas uma comissão de investigação ao caso BPN. E andamos nós a pagar a pessoas que apenas cuidam dos seus próprios interesses. Neste caso concreto, concluímos sem margem para dúvida que essas pessoas/grupos não têm o minimo interesse em saber exatamente o que aconteceu no BPN e porque é que os contribuintes têm de pagar milhares de milhões de euros para resolver a embrulhada. É vergonhoso! Simplesmente, vergonhoso!!!
  1. A Parque Escolar tinha orçamento para recuperar 320 escolas. Gastou o dinheiro a recuperar sensivelmente metade. Parece impossível como ninguém, a começar pela instituição, controlou os custos. Foi “gastar à tripa forra”. Responsáveis? Ninguém. Paga Zé! E como se não bastasse este descalabro, ainda vem a senhora ex-ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, defender essa instituição enaltecendo o facto de ter feito mais obra do que qualquer outra instituição antes! Os valores andam todos virados. Só pode ser. Então não é suposto que uma instituição pública faça a obra que está mandatada para fazer, dentro dos prazos e orçamentos? Porquê “agradecimentos”, ainda por cima quando ela não cumpriu o seu papel? Triste é constatar que a dita ministra não teve uma palavra que fosse a propósito dos mil e tal milhões de euros que foram gastos a mais. Porra, a “ordem pode ser rica e os frades serem poucos”, mas há um limite para tudo. Tenha um pingo de vergonha na cara, minha senhora.
  1. O emprego tornou-se um bem escasso, por muito que isso nos custe. Porém, os nossos políticos empurram o problema com a barriga, ninguém se atreve a dar a má notícia ao Zé Pagode. O sintoma mais evidente de todos, a propósito dessa escassez e do que significam empregos, é o facto de as virtualidades de qualquer projeto que hoje seja concretizado se reduzirem ao número de postos de trabalho criados. Um exemplo: uma brigada qualquer da Nato vem ocupar umas instalações militares em Oeiras. A rádio deixou nas entrelinhas uma nota sobre a importância dessa ocupação, anunciando que vai permitir criar 100 postos de trabalho. Veja-se ao que chegamos: salientar a criação de um punhado de postos de trabalho num país onde cerca de um milhão de pessoas está desempregado. Uf! A coisa está mesma má.
  1. Como eu anseio por uma ou outra boa notícia que preencha o espaço noticioso semanal …