No sábado fomos jantar a casa de uma
colega. Foi bom. Ambiente agradável, comida boa, conversa amena. Perfeito, para
umas horas de descontração. A determinada altura, no meio da conversa, veio a
lume o considerada “insuficiente” cuidado dos franceses com a limpeza pessoal e
dos seus espaços privados. Na altura, lembrei-me também do caso dos ingleses,
que parecem afinar pelo mesmo diapasão. Pelo menos para mim, quando com eles convivi
de modo mais intenso e usufrui da respetiva hospitalidade, sempre me fez um
pouco de confusão o respetivo desprendimento para com as questões da higiene
(modo simpático de dizer que me pareciam sujos).
Na segunda-feira, cedo pela manhã, tive de
viajar de comboio, rumo a Caminha. Cada vez gosto mais de usar o transporte
público e, de modo particular, o comboio. Para além, claro, da questão de
(menor) custo que lhe está associada e que, na atual conjuntura, não é despicienda.
Portanto, com os campos ainda cobertos pelo orvalho da manhã, onde o Sol
incidia criando reflexos de pérolas, recostei-me na confortável poltrona, e pese
o menos agradável cheiro a gasóleo libertado pela locomotiva, preparei-me para
uma agradável viagem.
Infelizmente, não foi tão agradável como
isso. Duas razões explicam que o prazer da viagem não tenha sido o desejável.
Primeiro, o caos arquitetónico que me foi dado ver. Não se tratou apenas de uma
mera questão de gosto pessoal, mas sim de situações de uma fealdade atroz que
povoa uma paisagem natural que seria agradável, a que se junta a falta de
manutenção das construções implantadas no meio do verde dos campos e ou dos
pinhais. As construções nas bermas da linha causavam arrepios, tão feias eram.
Aliás, aquilo que me pareceu era que os proprietários se preocupam
essencialmente com a frente das suas propriedades, desmazelando os “fundos” das
mesmas, a parte virada para a linha, que são sujos e feios.
Segundo motivo, mas muito estreitamente
ligado ao primeiro, o lixo atirado para a berma da linha que, em determinados
zonas, principalmente junto de estradas que cruzavam a via-férrea, eram
autênticas lixeiras a céu aberto. Horrível, mesmo para mim que habitualmente
não me perco com os detalhes e prefiro olhar para o longe e procurar abarcar o
belo da paisagem na linha do horizonte.
Não pude evitar voltar a reviver a
conversa durante o jantar de sábado e a opinião que formulámos dos franceses (e
ingleses). Com pena minha, tive de concluir que se estes povos não prezam pelo
asseio e limpeza no interior das suas casas, ou mesmo na sua higiene pessoal, são
de extremo asseio no domínio público. Nós, os portugueses, tendemos a
apresentar comportamentos diametralmente opostos. No domínio privado somos exímios
na limpeza e asseio; no domínio público, somos o terror. Tudo o que nos estorva
em casa, tende a ser lançado no espaço público, sem cuidarmos de que este não
nos pertence integralmente, mas tem de ser partilhado com todos os restantes.
Apesar dos investimentos efetuados na recolha de lixos, que nalgumas
localidades, chega a ser personalizado, no sentido de que as autarquias
respondem objetivamente às necessidades dos cidadãos e a pedido destes, as
mentalidades tendem não mudar. Fora dos muros dos nossos “castelos” todo o
terreno é propício para alijarmos a porcaria que fazemos, atropelando sem dó
nem piedade os direitos dos nossos concidadãos.
Que vergonha!