domingo, 1 de abril de 2012

Educação e matérias relacionadas …


Exames
Uma aula prática. Deambulava pelo meio dos alunos, incentivando-os a resolver o problema que lhes havia proposto e, também, prestando esclarecimentos sempre que solicitado. Uma aluna chamou-me. Queria saber se a solução que encontrara era a correta. Olhei e disse-lhe que não. Comecei a explicar-lhe, passo por passo, o procedimento adequado para resolver o problema, esperando entre cada dois passos que ela, no seu caderno, concretizasse o anterior. A determinada altura chegou ao seguinte resultado: a empresa poderia comprar 10 000 ações ao preço de 6,4 euros cada. Esperava eu que ela escrevesse o montante gasto na compra para passarmos ao passo seguinte. Ela olhou para mim à espera, penso, que eu lhe indicasse esse montante. Quando lhe disse que estava à espera que ela o fizesse para passarmos ao passo seguinte, respondeu-me que não tinha máquina de calcular. Olhei para ela e a minha cara devia expressar a minha incredulidade. Ela fez um sorriso amarelo e encolheu os ombros. “Faça a conta e depois chame-me.”, disse-lhe, virando as costas e indo atender outro aluno que por mim chamava.
Eu até nem me devia surpreender com o acontecido porque, infelizmente, não é caso raro alunos não conseguirem fazer mentalmente operações de multiplicação/divisão por 10, 100 ou 1 000. Porém, sempre que disso me apercebo não deixo de me interrogar sobre o tipo de formação escolar que esses alunos receberam até chegarem à Universidade. Tenha-se presente que, para poderem ter entrado na Faculdade onde leciono, os alunos a que me refiro obtiveram média superior a 16 valores no ensino secundário.
Nesse mesmo dia, ou no dia anterior, já não me lembro bem, o Ministro da Educação foi ao Parlamento apresentar uma proposta de lei que introduz a obrigatoriedade dos alunos, no final do primeiro ciclo (antiga 4ª classe), serem submetidos a um exame cuja classificação conta para efeitos de passagem de ciclo. Foi o bom e o bonito, com uma “certa esquerda” a considerar que essa medida era o retorno ao tempo do fascismo e que essa medida era o equivalente a separar os alunos, no início do respetivo percurso escolar, entre os que vão para a Universidade e os que vão trabalhar como operários pelo salário mínimo! Se o ridículo matasse, nessa sessão o país teria perdido uma parte substancial dos seus parlamentares (não discuto as vantagens de uma redução do número de deputados ...). Não discuto, também, o papel das oposições, quaisquer que sejam, nem o facto de que poderão não colher benefícios junto dos seus eleitorados quando votam favoravelmente propostas do Governo. Mas, caramba, é possível votar contra sem ter necessidade de usar tal tipo de atoardas.
Quase quatro décadas após a revolução, se é um facto que o acesso ao ensino se democratizou, tornando-se universal, também é iniludível que essa universalização tem ocorrido em simultâneo com uma baixa do nível de exigência da formação escolar.
A educação tem sido alfobre onde se têm cruzado todo o tipo de “teorias”, sem se cuidar das consequências daí resultantes para a formação dos alunos. Quem não se lembra, por exemplo, das “teorias” de que o ensino tem de ser lúdico, ou de que não devem existir exames para não se correr o risco de traumatizar as “criancinhas”? A consequência mais perceptível dessas e outras experiências no ensino é a chegada dos alunos ao ensino superior sem algumas das ferramentas básicas – como na ilustração supra, o cálculo mental –, sem capacidade de trabalho e com o que parece ser a certeza de que o sistema de ensino, com maior ou menor protelamento, lhes há-de certificar, com diploma e título de doutor, competências que eles na verdade não possuem.
De quem é a culpa?! De todos em geral, de ninguém em particular. Ainda que inconscientemente, os intervenientes no sistema de ensino, face à mole de alunos mal preparados que lhes chegam do nível de ensino anterior, acabam por “baixar a fasquia” da exigência, deixando pessoas mal preparadas passar para o nível seguinte e, no fim do processo, entrar no mercado de trabalho. Não é alheio a este baixar do nível de exigência o facto do sistema exigir “resultados”, mesmo quando estes realmente não existem para mostrar. O docente que reprova os alunos terá de fazer relatórios e mais relatórios para se defender, pois o ónus da culpa das reprovações está sempre sobre ele e nunca, ou quase nunca, sobre os alunos e o insuficiente volume de trabalho escolar que desenvolvem.
Neste contexto, mesmo que as medidas agora propostas não venham a resolver completamente o problema – as famílias, que não referi, não são isentas de culpas no processo –, pelo menos ajudar-nos-ão a ir queimando etapas no percurso para percebermos as (verdadeiras) raízes do problema.


Emigração
Caiu o Carmo e a Trindade quando, há um par de meses, o Primeiro-Ministro (PM) disse que os nossos jovens diplomados deviam incluir entre as suas opções profissionais a possibilidade de emigrarem para locais onde exista aquilo que no presente Portugal não tem para lhes oferecer: trabalho.
É triste que o país não consiga no momento gerar o emprego necessário para permitir aos nossos jovens poderem planear as suas vidas pessoais e profissionais. A “tirada” do PM chocou porque, em minha opinião, não estamos habituados a que os nossos políticos nos dêem más notícias abertamente, com todas as letras. Estamos habituados, sim, é que eles as escondam de nós.
Quanto à emigração, não considero que seja um “bicho de sete cabeças”. Pelo contrário, julgo que daí podem advir vantagens para as pessoas e para o país. Por exemplo, permitirá que quem parte recolha uma experiência de vida junto de povos que agem e pensam de forma diferente da nossa, permitindo que cada um confronte o que é com o que pode ser, retendo aquilo que os outros fazem melhor do que nós (pontualidade, empreendedorismo, planeamento, ritmo de trabalho, produtividade, etc., etc.). Deste modo, voltem as pessoas mais tarde ao país – e este é o verdadeiro risco social, o de que não retornem – e poderão dar um valioso contributo para que a sociedade “pendurada” no Estado em que nos transformamos evolua no sentido de que cada um seja mais autónomo e, desse modo, possa dar um maior contributo para uma sociedade mais justa e equitativa.

quinta-feira, 29 de março de 2012

As tertúlias pós-modernas

Nunca tive apetência por ler ou fazer blogues. No entanto, sempre que procuro uma informação na net, qualquer que seja, há sempre um blogue que salta para o ecrã do meu PC, como castanhas a assar em lume forte. Vivemos na era do “Eu acho que …”; “Eu julgo que …” ou “Eu penso que…”. A partir de finais dos anos 90 toda a gente desatou a ter opinião sobre quase tudo. É claro que é muito importante ter opinião, principalmente se essa opinião for alicerçada em pressupostos, mesmo que sejam distintos daqueles que nós usaríamos para opinar sobre o mesmo assunto. Caberá ao leitor decidir fazer correr o cursor para ler essa opinião ou fechar a página. É isso que eu faço muitas vezes porque aprendi a seleccionar a informação.
Na década de oitenta, quando comecei a lidar com a internet, fiquei maravilhada com a facilidade com que se obtinha informação e com a quantidade que estava ao nosso dispor. As subidas e descidas que fazia à prateleira superior da minha estante para consultar a enciclopédia tinham acabado. Já não corria o risco de cair quando ficava entusiasmada por encontrar, ainda no local de arrumação da obra (leia-se no cimo da escada), o assunto que procurava. Apesar da dificuldade em aceder à Internet (era quase necessário ter um curso de programação!) e do tempo que demorava a fazer a ligação (o ruído também não é despiciente nesta avaliação), entrar na World Wide Web era entrar no paraíso. Na década de setenta e oitenta os jovens mais endinheirados iam de propósito a Paris e a Londres comprar livros e discos. Os menos abonados, como eu, iam a Vigo. Cá, em Portugal, só por encomenda se conseguiam comprar determinadas obras (arte, principalmente) e/ou discos. Tal como no conto de Charles Dickens, A Tale of Two Cities, para mim foi o melhor dos tempos, mas foi também o pior dos tempos. Como não conseguia processar toda a informação em conhecimento julguei estar a desenvolver uma doença chamada “estupidez aguda”. À medida que aumentava a frequência de utilização da Web, mais “deprimida” ficava com a incapacidade de guardar a informação na minha cabeça. A noção de que a informação estava ao alcance de um click era muito remota.
Nessa altura, as discussões sobre um determinado assunto (quase sempre sobre política ou arte no sentido lato do termo - cinema, fotografia…) faziam-se nos cafés. Éramos capazes de estar agarrados às palavras, aos gestos e aos olhares toda a tarde e toda a noite. Parte da minha formação foi feita dessa maneira. A outra foi lendo os livros (os tais que nem sempre estavam à venda em Portugal) que eram referidos nessas discussões. A escola era muito conservadora e nada criativa.
Se quero acompanhar os tempos, tenho que olhar os blogues como as tertúlias da década de setenta e oitenta. Por isso, seria bom que os assuntos aqui tratados fossem discutidos, principalmente por todos aqueles que vierem por bem.

terça-feira, 27 de março de 2012

No hospital ...

Hoje estou escrever fora do recato do gabinete de trabalho do meu lar. Estou numa sala de espera de um hospital, aguardando que chegue a minha vez de ser chamado para tratamento. Há muitas pessoas sentadas nas cadeiras disponíveis, caras fechadas e denotando o que parece ser medo ou, no mínimo, preocupação. As poucas conversas que têm lugar decorrem em voz moderada, como se houvesse o cuidado da parte de quem fala de não perturbar a introspeção dos restantes pacientes e acompanhantes. Como tende a acontecer em todos os espaços públicos, uma das paredes da sala acolhe um enorme televisor, plano, onde passam as imagens da "Praça da Alegria", sem som. Também aqui, o televisor faz as vezes de um quadro, de uma gravura para a qual quase ninguém olha. A mais elementar justiça impõem que se diga, no entanto, que o espaço é agradável e está decorado com fotografias do rio Douro e das suas pontes, e na parede junto à saída tem uma enorme tela de Armanda Passos, onde em fundo branco a tradicional matrona colorida aparece acompanhada de um dos seus pássaros.

[chegou a minha vez]

Uf! Uma boa notícia. A análise sanguínea que havia feito mostrou que o sangue estava em condições de receber mais um tratamento. Tenho que confessar que os momentos de espera, preliminares ao tratamento, provocam sempre um pouquinho de tensão interior, devido ao receio de não se poder fazer o almejado tratamento. Há sentimentos contraditórios associados à vinda ao hospital pela razão que cá me trouxe hoje: por um lado, o desejo de fazer o tratamento; por outro, o antecipar do desconforto e mau-estar provocado por esse mesmo tratamento, que perdurará por vários dias. Vence sempre o primeiro deles, pois tem subjacente que quanto mais depressa esses tratamentos tiverem lugar mais depressa se chega ao fim (assim se espera) dos tratamentos e do dito desconforto.

Do meu cadeirão, costas voltadas para a janela, o ecrã de televisão individual onde passa um programa do National Geographic, sem som, do meu lado esquerdo, olho em redor para os meus colegas de tratamento. As faces parecem ainda mais fechadas do que na sala de espera, mas todos os rostos, ou quase, transmitem uma sensação de resignação. Lá no fundo, cada um deve pensar, como eu, que esta provação é temporária, que melhores dias virão, dias em que sentiremos a doçura inefável da saúde, doçura que só sentimos em plenitude depois da provação. Por exemplo, hoje de manhã, quando saí de casa o Sol ainda não se tinha levantado no horizonte. Havia uma luminosidade especial, alaranjada, que salientava os contornos escuros do perfil das casas, das árvores, da linha do horizonte. Simultaneamente, a temperatura era amena, com uma ligeira brisa. Enquanto abria o carro, tive uma tomada de consciência de como é bom estar vivo e estar na posse de todas as faculdades físicas e mentais.

[o líquido vai correndo, gota a gota, do pequeno saco pendurado num suporte de aço inoxidável, deslizando pelo tubo que penetra no meu corpo] 

Aqui, agora, apesar do desconforto, físico e psicológico associado a este tipo de lugares e tratamentos, dou Graças por haver hospitais para nos tratarem e pessoas que, para além do seu profissionalismo, nos dispensam, aqui e ali, um sorriso que ameniza a tensão que nos preenche; outras que, voluntariamente, nos trazem um pouco de alimento para aconchegar o estômago.
Os meus vizinhos da frente foram agora embora, terminado o respetivo tratamento. A minha vez também não deve tardar, embora a enfermeira me tenha dito agora mesmo que a "bomba" ainda não chegou da farmácia. Este pequeno atraso até nem é mau de todo, pois permite que a Lucinda chegue antes de eu terminar. Ela, que nunca me abandona e sempre me apoia, hoje não pôde estar aqui todo o tempo devido a reunião na escola a que não podia faltar. Senti a tristeza na sua voz por estar ausente, e mal a reunião terminou pôs-se a caminho para aqui se encontrar comigo. Deve estar a chegar.


domingo, 25 de março de 2012

Ao jantar …

  1.     Jantar agradável, em Coimbra. Incluiu fado, mas também conversa sobre a crise. E, como é habitual, apareceu alguém a alocar as culpas da crise: a banca. Não concordei. Não há um único culpado, mas vários. A banca não está isenta, mas é escamotear a realidade deixar de fora, nomeadamente, a responsabilidade de cada indivíduo no volume de endividamento que contratou. Há evidência que aponta no sentido de que os maiores problemas de endividamento ocorrem com pessoas que contraíram empréstimos junto de diversas entidades, pois esses volumes de crédito seriam impossíveis de obter junto de um único financiador, dado o risco que não poderia deixar de ser reconhecido ao devedor. Portanto, não há aqui um desconhecimento do que cada indivíduo estava a fazer, nem do que as instituições estavam a fazer. “Ah!”, diz-se, “mas a banca fez publicidade agressiva, quase que obrigava as pessoas a ficar com eles!”. Pois é, mas as Testemunhas de Jeová também fazem uma Evangelização agressiva, e não consta que os seus centros de culto estejam cheios de crentes. “E os bancos não sabiam que muitos dos seus potenciais clientes tinham um défice de cultura financeira?”, também se costuma argumentar. Mas o que diria cada sujeito que, dirigindo-se a uma instituição financeira para obter um financiamento, fosse barrado por ser considerado “financeiramente iletrado”? E entra-se no domínio da liberdade de cada sujeito em contratar. Aliás, questiono-me sobre qual seria a reação da sociedade se o Governo, ou qualquer outra entidade reguladora, tivesse imposto que determinada camada da população não poderia aceder ao crédito. Argumentos à parte, eu julgo que houve três falhas fundamentais para chegarmos ao sobre-endividamento das famílias: i) até muito tarde no tempo, cada banco ou instituição de crédito tendeu a tratar cada caso de crédito a particulares internamente, sobretudo nos créditos pessoais e garantidos por hipotecas reais, sem ter em consideração responsabilidades do sujeito junto de outras instituições. Só a partir da centralização das responsabilidades financeiras numa base de dados no Banco de Portugal houve possibilidade de, mais facilmente, essas instituições terem uma perspetiva abrangente das responsabilidades globais de cada sujeito; ii) se a cada banco cabia a responsabilidade de ajuizar cada operação particular, ao Banco de Portugal caberia ajuizar das consequências macroeconómicas de uma generalização do acesso ao crédito. E parece não o ter feito, até muito tarde, e nunca, tanto quanto se sabe, de forma clara e incisiva. (o “castigo” do seu Governador foi um lugar principescamente pago no BCE.) Duas falhas grave por parte de uma instituição pejada de técnicos principescamente pagos, o considerar que um país do Euro não tinha limites ao endividamento e o não antecipar o problema macro do endividamento das famílias; iii) o silêncio das agências de “rating” durante quase dez anos, não pontuando o risco crescente de cada país à medida que o seu endividamento aumentava. A terem feito isso, com um “downgrading” do “rating” atempado, não se teria chegado onde se chegou, pois o custo do dinheiro teria aumentado e, por essa via, reduzido a procura de crédito. Agora, essas agências procuram recuperar o tempo perdido … com os nefastos efeitos que se conhecem.

2.   O Teixeira dos Santos esteve indicado para ocupar um lugar na administração da PT, indicado pelo governo (!). “Uau!, afinal não se olha à cor da camisola”, terão pensado os mais inocentes, onde me incluo. Pois é, mas um lugar tão apetecível não deixaria de provocar acesa luta. Foi o que aconteceu e o ex-ministro das Finanças parece ter perdido a hipótese de ser recompensado do esforço mal pago que fez durante os anos que esteve no Governo.

3.      Um olhar sobre o mundo da academia, concretamente sobre o domínio dos júris de provas académicas de doutoramento. Não há júri que não tenha mais de cinco elementos. Podem ser sete, nove ou até mais. Um desperdício de esforços/recursos, que o Simplex não acautelou. Começa pela dificuldade em definir uma data e hora que sirva a todos os membros … implicando, por vezes, meses de dilação das provas, com o que isso pode significar de custos para o candidato. Depois, surge o custo financeiro de deslocar pessoas de diversos pontos do país, quando não do estrangeiro, para o lugar das provas. E termina, para se ser breve, com o facto de a dimensão do júri não ser sinónimo de melhor avaliação do trabalho do candidato. Pelo contrário, quanto maior o número de membros do júri, maior parece ser a diluição de responsabilidades na definição e votação do veredicto final. Seria um estudo interessante voltar às teses de doutoramento arquivadas nas bolorentas prateleiras das bibliotecas universitárias e reavaliar os contributos científicos desses trabalhos e relacioná-los com as classificações atribuídas. Talvez se chegasse à conclusão de que tem algum grau de verdade aquela “piada” que os ingleses usam de que, para o resultado final das provas de doutoramento, não interessa o tópico escolhido pelo candidato, a profundidade do seu trabalho e os contributos científicos (ou falta deles), mas sim o nome e posição do respetivo orientador (cujas qualidades profissionais nem sempre coincidem com a qualidade da orientação efetuada). Os ingleses, pelo menos, se não podem obviar a tal facto, são mais comedidos na questão dos júris: duas pessoas é o suficiente para avaliar os trabalhos. E num júri tão pequeno, qual dos membros não pensa na respetiva responsabilidade pessoal ao pronunciar o veredicto final?  

segunda-feira, 19 de março de 2012

Estamos todos às escuras!

Esta semana houve quatro situações que considerei merecerem uma nota neste blog.
  1. Em primeiro lugar, a baixa no Governo: a saída do Secretário de Estado da Energia. Discutem-se as razões. Para uns foi inábil nas negociações com a EDP, para outros o Governo tirou-lhe o tapete debaixo dos pés. Porém, aquilo que eu acho mais relevante na sua saída foi o ter-se discutido o “mundo” das PPP e das rendas da energia. É assustador o panorama: se consumimos energia, pagamos; se não consumimos, pagamos na mesma (via impostos e as ditas rendas). O mesmo nas estradas e nas PPP: se transitamos, pagamos; se não transitamos, pagamos na mesma. É assustador, repito. Como foi possível ter-se chegado a este ponto? E, não menos assustador, é que apesar do elevado custo que pagamos pela energia ainda há um défice tarifário que é atirado para o futuro e que, mais tarde ou mais cedo, vai ter de ser pago: milhares de milhões de euros! É de loucos!!!
  1. Em segundo, a “chicana política” na AR, a propósito do caso BPN. Teve a presidente de ameaçar demitir-se para conseguir um mínimo de bom-senso nos partidos do centro, PS vs PSD/PP, que acordaram fazer apenas uma comissão de investigação ao caso BPN. E andamos nós a pagar a pessoas que apenas cuidam dos seus próprios interesses. Neste caso concreto, concluímos sem margem para dúvida que essas pessoas/grupos não têm o minimo interesse em saber exatamente o que aconteceu no BPN e porque é que os contribuintes têm de pagar milhares de milhões de euros para resolver a embrulhada. É vergonhoso! Simplesmente, vergonhoso!!!
  1. A Parque Escolar tinha orçamento para recuperar 320 escolas. Gastou o dinheiro a recuperar sensivelmente metade. Parece impossível como ninguém, a começar pela instituição, controlou os custos. Foi “gastar à tripa forra”. Responsáveis? Ninguém. Paga Zé! E como se não bastasse este descalabro, ainda vem a senhora ex-ministra da educação, Maria de Lurdes Rodrigues, defender essa instituição enaltecendo o facto de ter feito mais obra do que qualquer outra instituição antes! Os valores andam todos virados. Só pode ser. Então não é suposto que uma instituição pública faça a obra que está mandatada para fazer, dentro dos prazos e orçamentos? Porquê “agradecimentos”, ainda por cima quando ela não cumpriu o seu papel? Triste é constatar que a dita ministra não teve uma palavra que fosse a propósito dos mil e tal milhões de euros que foram gastos a mais. Porra, a “ordem pode ser rica e os frades serem poucos”, mas há um limite para tudo. Tenha um pingo de vergonha na cara, minha senhora.
  1. O emprego tornou-se um bem escasso, por muito que isso nos custe. Porém, os nossos políticos empurram o problema com a barriga, ninguém se atreve a dar a má notícia ao Zé Pagode. O sintoma mais evidente de todos, a propósito dessa escassez e do que significam empregos, é o facto de as virtualidades de qualquer projeto que hoje seja concretizado se reduzirem ao número de postos de trabalho criados. Um exemplo: uma brigada qualquer da Nato vem ocupar umas instalações militares em Oeiras. A rádio deixou nas entrelinhas uma nota sobre a importância dessa ocupação, anunciando que vai permitir criar 100 postos de trabalho. Veja-se ao que chegamos: salientar a criação de um punhado de postos de trabalho num país onde cerca de um milhão de pessoas está desempregado. Uf! A coisa está mesma má.
  1. Como eu anseio por uma ou outra boa notícia que preencha o espaço noticioso semanal …

sábado, 10 de março de 2012

Um olhar à semana que termina.

Talvez eu não devesse escrever quando estou com um humor menos positivo, porque a escrita sai com tom muito negativo. Mas o facto é que se eu não escrever agora acabarei por me esquecer daquilo que nesta semana me marcou mais.
Foi uma semana fértil em acontecimentos. O meu olhar sobre os que me marcaram mais.

1. Abri o meu primeiro blog, este onde estou a escrever. Ainda não sei quais as consequências que daqui advirão, mas estou disponível para experimentar. É certo que não terei muito tempo para o alimentar, mas farei o possível para que ele não cristalize no tempo.

2. Por falar em alimentar, uma notícia assustadora apareceu nos meios de comunicação nos últimos dias: o modo como produzimos os alimentos que comemos não é sustentável no tempo. Dentro de 20/30 anos, se não alterarmos o modo como nos alimentamos e, simultaneamente, reduzirmos o actual desperdício de alimentos, não haverá condições para alimentar a população mundial. Bem, já hoje não existe, embora atualmente o problema seja mais ao nível da distribuição do que é produzido, do que da quantidade produzida. Segundo as estatísticas, diariamente cerca de 1000 milhões de pessoas - sim! um milhar de milhão - vão para a cama com fome. Se esta gritante injustiça social, assente na desigual distribuição do que é produzido, não tem feito perder o apetite aos habitantes dos países ocidentais, esperemos que a perspetiva de poderem sofrer privações dentro de alguns anos possa alertar para a necessidade de se mudarem os comportamentos alimentares, quer ao nível das quantidades (excessivas) ingeridas, mas também e sobretudo do desperdício (que nos países ocidentais chega a atingir 50% da comida produzida). Como um dos alimentos que mais recursos necessita na produção é a carne, que tal começarmos por reduzir (um pouquinho) o tamanho do naco desta que quase todos os dias nos cai no prato? São os pequenos gestos individuais que, globalmente, fazem a diferença.

3. Já escrevi no post precedente que em cada dia vamos sendo confrontados com a dura realidade de que a crise não é igual para todos. Primeiro foi a TAP, que conseguiu a exceção de não ter de cortar aos seus funcionários os salários mensais em 5%. "Não haverá mais exceções", sentenciou o Ministério das Finanças, antes que a caixa de Pandora das reivindicações se abrisse. Pois não. As restantes já tinham sido concedidas. Ficamos hoje a saber que a CGD, a ANA e a NAV estão entre elas, a par de não sabemos quantas mais que ainda não foram publicamente anunciadas. Pergunto-me, face à justificação do Governo para conceder tais exceções: onde e quando é que a ANA é uma empresa que atua em mercado concorrencial? Tretas, é o que é. Assim não vamos lá, pois o medo de comprar uma briga com os trabalhadores de tais empresas tem como consequência imediata o hipotecar da adesão ao projeto nacional de ultrapassagem da crise da grande massa de trabalhadores que viram, sem apelo nem agravo, os seus vencimentos cortados. Isto é, que viram os contratos que os ligavam ao empregador Estado incumpridos por parte deste.

4. Mas nem sempre o Governo tem esse desprezo pelos contratos em devido tempo rubricados. Esta semana ficámos a saber, também, que um zeloso Secretário de Estado mandou transferir para a Lusoponte a "modesta" quantia de 4,4 milhões de Euros, para pagar a esta o direito de livre passagem dos automobilistas durante o mês de Agosto de 2011 na Ponte 25 de Abril. Ora, acontece que nesse mês a passagem não foi livre e a empresa cobrou as respetivas portagens ... e ainda embolsou a referida transferência. Não fora alguém na Assembleia da República ter "levantado a lebre" e não sabemos qual o desfecho final desta verba (estou a ser pessimista?). A justificação do dito secretário para a decisão tomada foi a de não querer incumprir o contrato com a concessionária! Esta justificação dá para rir, embora devêssemos chorar de raiva. Se no momento há algo que está a ser diariamente incumprido pelo Governo, em nome do Estado Português, são os contratos com os seus fornecedores (funcionários públicos incluídos). Por exemplo, esta semana fomos confrontados com a notícia (incrível) de um hospital que teve de pedir emprestadas compressas para poder continuar a fazer operações cirúrgicas. Porquê?! Porque o Governo não está a pagar aos fornecedores de material cirúrgico e medicamentoso há longos meses. Não é isto um atropelo dos direitos dos fornecedores e dos contratos como Estado? E quantos outros exemplos, de idêntico teor, podiam ser aduzidos …

5. O Presidente da República decidiu esta semana, também, dar um ar da sua graça. No âmbito da publicação de mais um livro com os seus discursos – ainda gostava de saber quem é o público-alvo que compra este tipo de livros – escreveu um prefácio em que zurze no anterior governo e, de modo particular, no seu líder, o Engº José Sócrates. O Presidente até nem disse nada que antes não tivesse sido do conhecimento público, como o caso da deslealdade política do primeiro-ministro de então em não lhe ter dado conhecimento prévio do pacote de austeridade PEC IV. O que o Presidente se esqueceu é que no momento, todos, incluindo os políticos, andamos com os nervos à flor da pele. Qualquer pequena “brisa”, por mais suave que seja, é passível de desencadear uma tempestade. Foi o caso, ainda está a ser. O país não precisava disto no momento, pois já temos (verdadeiros) problemas que nos cheguem e, de modo particular, que exigem todo o nosso esforço coletivo para serem ultrapassados. Portanto, esta intervenção do Presidente era desnecessária, porque não resolveu o que quer que fosse e, pior, criou ainda mais tensão e desunião na sociedade.

6. A crise tem, pois, o condão de nos tornar mais tensos e híper-reativos. Porém, como já antes referi neste blog, a crise que vivemos, como em geral todas as crises, tem impacto assimétrico sobre os cidadãos. Afeta uns de forma esmagadora – sobretudo os que perdem o emprego; passa ao lado de outros podendo, inclusive, melhorar a respetiva situação económica e financeira. A última coisa que deveria acontecer era que estes últimos ostentassem junto dos primeiros a respetiva situação. Nem falo de partilha, embora fosse o ideal. Falo apenas de evitar a ostentação. Usando uma alegoria, se nos defrontamos com alguém que passa fome e não queremos, ou não podemos, partilhar o nosso pão com essa pessoa, o mínimo que seria de esperar da nossa parte era abstermo-nos de ir para a frente desse alguém lambuzar-nos com o pão que temos. Na sua simplicidade, tal tipo de atitude já seria, em minha opinião, um sinal pessoal, ainda que mínimo, de que não somos indiferentes à (pouca) sorte dos nossos concidadãos mais atingidos. Porém, todos os dias, somos “agredidos” com sinais de ostentação … 

7. A terminar, uma nota sobre poupança. As estatísticas mostram que a taxa portuguesa, que três dezenas de anos atrás era das mais elevadas do mundo, conhece dias pouco risonhos. Mesmo assim, por estranho que possa parecer, aumentou … desde que a crise financeira despoletou em 2008. O futuro deixou de ter o grau de certeza que pensávamos ter … Também neste domínio, a assimetria é a regra: 80% da poupança é assegurada por 20% dos cidadãos; 30% dos cidadãos apresentam uma “taxa de poupança negativa”, significando que o respetivo padrão de consumo é superior ao rendimento pessoal. Dada a importância da poupança nacional para o financiamento da economia, evitando (ou reduzindo) o recurso ao financiamento exterior, seria desejável que se adotassem políticas ativas de educação dos cidadãos para a poupança, começando pelas crianças na escola. Porém, os Governos, nos últimos anos, não só não têm investido neste domínio como, pelo contrário, com algumas intervenções como, por exemplo, a alteração das regras de remuneração dos Certificados de Aforro, propiciaram incentivos para … que não se poupe.  
  
7. Uf! Escrevi demais. Deve ser a euforia inicial de ter um blog e querer “enchê-lo” de um dia para o outro. Serei mais comedido para futuro. Se não for por outra razão, porque o tempo é escasso.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Há dias assim!

Há dias assim. Estamos aborrecidos, não sabemos exatamente com quê, mas sentimo-nos aborrecidos. E quando assim acontece, procuramos alguma coisa de diferente para fazer. Bem, pelo menos comigo assim acontece. E pronto, desta vez aconteceu que eu me lembrei de abrir um blog. Não sabia muito bem como a "coisa" funcionava. O facto é que ainda não sei. Adiante. 
O primeiro problema que tive que ultrapassar foi o de dar um nome ao blog. Tarefa simples, parecia. Mas não foi. Encalhei nitidamente. Chamo-lhe isto? Chamo-lhe aquilo? Pensa, torna a pensar ... Felizmente o software foi "paciente" e não fechou ao fim de uns minutos como eu receava. Não. Esperou até que eu tivesse escrito "Um Olhar Partilhado". O nome do meu primeiro blog. 
Incrível como eu esperei até tão tarde para abrir uma "coisa" destas. Sinto-me quase como se deve sentir o pai que, de repente, recebe nos braços o seu primeiro filho, isto é, como alguém que não sabe que fazer à "coisa". Ainda ontem, depois de ter enviado um e-mail para o outro lado do mundo e ao fim de menos de um minuto ter uma resposta de volta, eu pensava como a técnica ao nosso dispor é espantosa. O que nós conseguimos, quase sem esforço, num piscar de olhos. E, no entanto, com toda a tecnologia ao dispor, eu nunca tinha pensado em abrir um blog onde fosse, mais ou menos regularmente, deixando umas notas de reflexão sobre a realidade que me rodeia. 
[Ah! Já me esquecia. Eu estava a procurar justificar o nome do blog. Pois bem, como ele irá refletir o meu olhar sobre o mundo e, como é partilhado com quem o quiser visitar (até porque ainda não descobri se é possível, pelo menos até eu ter tempo de afinar a "coisa", escondê-lo do público), julguei que "um olhar partilhado" poderia ser o título que não enganará o visitante que por aqui passe.]
Lembrei-me agora o que me causou aborrecimento. A notícia sobre a TAP e a benesse que os seus funcionários conseguiram do Governo deste país. O que me aborreceu mais até não foi a benesse em si, mas o que ela representou para mim: o fim da inocência. Sim, da inocência de pensar que o sufoco por que estamos a passar - a denominada "crise" - era para ser partilhado por todos. Mas conclui que não é (sim, confesso, demorei tempo a tirar esta conclusão). Basta termos o poder de fazer uma greve que afete muita gente e está assegurado que o sol passará a brilhar mais intensamente do nosso lado. A juntar à revolta que se sente vem o tipo de desculpas do Governo para tal decisão. Dissesse ele "É assim porque nós queremos!" e eu não teria ficado mais furioso (no verdadeiro sentido) do que quando diz que é assim porque a TAP é uma empresa que funciona num mercado concorrencial. Estão a gozar comigo. Se a TAP funcionasse segundo as leis do mercado há muito que teria sido encerrada. Será atuar segundo as regras do mercado quando os prejuízos de uma empresa têm a almofada do Governo - os nossos impostos - para os acolher? Quando os desvarios que foram cometidos ao longo dos anos na sua gestão serão, agora, na altura da privatização, reparados com um chorudo cheque do Governo. Não gozem connosco. Ademais, se para os funcionários públicos os cortes foram justificados porque ganhavam acima da média e não corriam o risco de ser despedidos, o que dizer dos funcionários da TAP? Pronto, vou parar, pois estas coisas deixam-me mesmo fora de mim. Tanta inconsistência na atuação governamental, que levam ao hipotecar do espírito de sacrifício de pessoas que acreditavam que desta vez as coisas iam ser diferentes e os custos da crise seriam distribuídos por todos. Paciência, não há volta a dar. Lá diz o Povo que o que torto nasce tarde ou nunca se endireita. O Povo tem razão.    
Bem vindo ao meu blog, onde encontrará um olhar partilhado.