No passado domingo, a propósito do dia da
Terra, o jornal Público, na respetiva revista, oferecia um conjunto de
trabalhos sobre o consumo de recursos no dia-a-dia. Num deles, a jornalista
Alexandra Prado Coelho descrevia a tarefa a que se devotou durante um dia para
poupar água.
Poupou uns quantos litros ao reduzir a
duração do chuveiro, ao usar sabonete em vez de gel de banho – segundo ela, o
primeiro é mais fácil de ser retirado do corpo –, ao lavar os dentes sem ter a
torneira abrta. Toda a sua poupança foi “pelo cano abaixo” (passe a expressão)
quando ao almoço comeu um bife. Segundo ela, um bife de 300 gramas corresponde a
um gasto de água de cerca de 4650 litros! Gasto com a água ingerida pelo
animal e com a produção das rações e pastos que o alimentaram.
Há mais de uma semana que não deixava
umas linhas no meu blog. Hoje, na
sala de espera do hospital, decidi aproveitar o tempo para escrever umas
coisitas. Para descontrair …
Esta manhã, um jornal, em grandes
parangonas, informava que nos dois primeiros meses do ano a dívida pública
portuguesa aumentou mais de, se não estou em erro, 2 mil milhões de euros. Aqui
há dias, a propósito dos encargos com as parcerias público-privadas – onde
sobressaem os respeitantes às auto-estradas –, veio a público que o montante a
pagar no corrente ano excede os 2 mil e cem milhões de euros. Há duas ou três
semanas, relativamente à dívida das autarquias, alguém informava que a mesma
não era de 6 mil milhões, mas sim de mais de 13 mil milhões de euros.
Tomei recentemente consciência de que os
números que vão sendo atirados já nem me incomodam. Referem “milhares de
milhões” e eu continuo pacificamente tranquilo, como se isso não implicasse da
minha parte a obrigatoriedade de vir a comparticipar no esforço “coletivo” de
pagamento dessas dívidas.
Analisando o meu próprio comportamento,
julgo que a regularidade com que se fala de milhares de milhões – a propósito
de dívidas do Estado – levou a que nos tornássemos relativamente anestesiados
face à dimensão desses valores, sem consciência do que números de tal grandeza
implicam para cada cidadão.
Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para
todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise
pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular,
quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda
de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma
redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar
de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente
justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que
acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas
que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até
tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São
aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos
rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os
primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas
preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando
e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira
necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos,
colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas
os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros
não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao
luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São
detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que
fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países
longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se
deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de
onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza
que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o
pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que
é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que
se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para
a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a
totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de
consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou
criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é
efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na
economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do
país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação
económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise
esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um
por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o
sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com
eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem
atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que
menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a
que se vive atualmente.
Uma meta existe para ser
cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente.
E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma
miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a
“corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de
ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em
especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância
da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem
metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no
último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente
dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi
uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse
objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista
dos passos percorridos e a percorrer.
As forças por vezes escasseavam,
o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de
todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está
aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que
me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a
meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do
hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o
“12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me
parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um
pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo
existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o
tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho
plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um
doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa
realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial,
o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra
é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas
“metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas
permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à
saúde.
Hoje é, pois, um dia especial.
O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o
“12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo
desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida,
por ser mais uma batalha vencida.
[na
sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu
murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que
a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em
que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no
decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente,
a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde
estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar
onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que
não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este
seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam
dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das
regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto
químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de
sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da
segunda.
Paciência. A vida é mesmo
assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja
o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem
decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.
[em
tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou
preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um
pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal
e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".
A notícia chegou pelos jornais, sem
grande destaque. Em Coimbra, alguns “doutores”, no âmbito das atividades da
praxe académica, agrediram duas colegas estudantes cujo único “crime” foi o
serem “caloiras” na Universidade e não quererem entrar na (estúpida)
brincadeira. A gravidade da situação não provocou outra consequência para além
de uma suspensão temporária, por parte da Associação Académica (AA), até que se
apurassem responsabilidades.
Isto já seria suficiente grave. Porém, há
sempre umas “bestas” (não me ocorre forma mais suave de os apelidar, com o devido
respeito pelos animais assim chamados) que se arvoram defensores do
indefensável. A fazer fé na informação veiculada pela imprensa, não desmentida,
um grupo de estudantes (“doutores”) da Faculdade de Economia do Porto viajou de
propósito para Coimbra, para continuar as atividades da praxe, porque a decisão
suspensiva da AA não se lhes aplicava e era a forma de protestarem contra a
suspensão da praxe. Incrível! Incrível por existirem tais “bestas”, que com
tantas formas de serem úteis à sociedade – a começar pela obtenção de
aproveitamento escolar – aplicam os seus esforços a dar cabo da vida dos
outros.
Incrível, também, por as autoridades não
tomarem medidas para colocarem termo, de uma vez por todas, a essa aberração
que se dá peno nome de praxe académica. Os reitores das universidades não
querem comprar uma briga, apesar dos graves incidentes que ao longo dos últimos
anos foram ocorrendo. Viram a cara para o lado, assobiam para o ar. E não é por
falta de aviso e de pressão por parte dos docentes do ensino superior, que veem
parte do seu esforço letivo esvair-se no tempo desperdiçado pelos alunos nesse
tipo de atividade. Um exemplo concreto. Ao longo dos últimos anos, a denominada
semana da Queima das Fitas era período em que não havia aulas, de modo a
permitir aos alunos dedicarem-se de “alma e coração” a todos os excessos e
desmandos. Este ano, a Reitoria da universidade deve ter considerado,
finalmente, que não fazia sentido parar as aulas a poucas semanas do final do
semestre letivo. O que fez?! Quando aprovou o calendário letivo deixou as
coisas numa situação dúbia, porque não marcou a semana como período de
“férias”, mas também não foi assertiva quanto ao facto de ser semana de
trabalho. Empurrou, portanto, a “batata quente” para os diretores das escolas,
deixando ao cuidado de cada um tomar a decisão adequada. E se um empurra o
assunto com a barriga, porque não pode o seguinte fazê-lo também? O diretor da
Faculdade, com o beneplácito do Conselho Pedagógico, também empurrou o assunto,
agora para os docentes. Cabe a estes, em cada disciplina, decidir se existe ou
não aulas nessa semana. Parece impossível, mas é verdade! Assim, as entidades
que deviam assumir a responsabilidade por introduzir algum sentido de
responsabilidade neste processo, têm as suas mãos limpas, qual Pilatos,
deixando para o fim da linha o odioso de contrariar as camadas jovens cujos
interesses se centram em aberrantes brincadeiras que, na maior parte dos casos,
conflituam com a dignidade dos estudantes que acabam de chegar à Universidade.
Não compreendo como é que o Governo do
país, sempre pronto a fazer tábua rasa de qualquer direito ou autonomia que
permita poupar uns tostões, não decide intervir neste domínio, onde se esbanjam
milhões anualmente – sem falar dos efeitos de longo prazo – por via do efeito
da praxe sobre o aproveitamento escolar dos alunos.
Por favor, haja alguém que nos livre das
praxes! Por favor …
No sábado fomos jantar a casa de uma
colega. Foi bom. Ambiente agradável, comida boa, conversa amena. Perfeito, para
umas horas de descontração. A determinada altura, no meio da conversa, veio a
lume o considerada “insuficiente” cuidado dos franceses com a limpeza pessoal e
dos seus espaços privados. Na altura, lembrei-me também do caso dos ingleses,
que parecem afinar pelo mesmo diapasão. Pelo menos para mim, quando com eles convivi
de modo mais intenso e usufrui da respetiva hospitalidade, sempre me fez um
pouco de confusão o respetivo desprendimento para com as questões da higiene
(modo simpático de dizer que me pareciam sujos).
Na segunda-feira, cedo pela manhã, tive de
viajar de comboio, rumo a Caminha. Cada vez gosto mais de usar o transporte
público e, de modo particular, o comboio. Para além, claro, da questão de
(menor) custo que lhe está associada e que, na atual conjuntura, não é despicienda.
Portanto, com os campos ainda cobertos pelo orvalho da manhã, onde o Sol
incidia criando reflexos de pérolas, recostei-me na confortável poltrona, e pese
o menos agradável cheiro a gasóleo libertado pela locomotiva, preparei-me para
uma agradável viagem.
Infelizmente, não foi tão agradável como
isso. Duas razões explicam que o prazer da viagem não tenha sido o desejável.
Primeiro, o caos arquitetónico que me foi dado ver. Não se tratou apenas de uma
mera questão de gosto pessoal, mas sim de situações de uma fealdade atroz que
povoa uma paisagem natural que seria agradável, a que se junta a falta de
manutenção das construções implantadas no meio do verde dos campos e ou dos
pinhais. As construções nas bermas da linha causavam arrepios, tão feias eram.
Aliás, aquilo que me pareceu era que os proprietários se preocupam
essencialmente com a frente das suas propriedades, desmazelando os “fundos” das
mesmas, a parte virada para a linha, que são sujos e feios.
Segundo motivo, mas muito estreitamente
ligado ao primeiro, o lixo atirado para a berma da linha que, em determinados
zonas, principalmente junto de estradas que cruzavam a via-férrea, eram
autênticas lixeiras a céu aberto. Horrível, mesmo para mim que habitualmente
não me perco com os detalhes e prefiro olhar para o longe e procurar abarcar o
belo da paisagem na linha do horizonte.
Não pude evitar voltar a reviver a
conversa durante o jantar de sábado e a opinião que formulámos dos franceses (e
ingleses). Com pena minha, tive de concluir que se estes povos não prezam pelo
asseio e limpeza no interior das suas casas, ou mesmo na sua higiene pessoal, são
de extremo asseio no domínio público. Nós, os portugueses, tendemos a
apresentar comportamentos diametralmente opostos. No domínio privado somos exímios
na limpeza e asseio; no domínio público, somos o terror. Tudo o que nos estorva
em casa, tende a ser lançado no espaço público, sem cuidarmos de que este não
nos pertence integralmente, mas tem de ser partilhado com todos os restantes.
Apesar dos investimentos efetuados na recolha de lixos, que nalgumas
localidades, chega a ser personalizado, no sentido de que as autarquias
respondem objetivamente às necessidades dos cidadãos e a pedido destes, as
mentalidades tendem não mudar. Fora dos muros dos nossos “castelos” todo o
terreno é propício para alijarmos a porcaria que fazemos, atropelando sem dó
nem piedade os direitos dos nossos concidadãos.
A conversa seguia agradável, passado de
uns assuntos a outros, numa espécie de contínuo. E chegou à corrupção, vinda da
quase nunca clara e consistente fraseologia da Lei. “Não compreendo como alguém
pode deixar-se corromper.”, disse. “Será que essas pessoas [os corruptos]
conseguem dormir descansados?”. Atirei para a conversa algumas ideias
recolhidas na literatura da especialidade: “Eu penso que sim. Aquilo que essas
pessoas tendem a fazer é encontrar uma justificação para o ato que cometem, uma
espécie de lenitivo moral. A partir daí o ato deixa de ser reprovável para o
sujeito, encontrando-se justificado à luz da respetiva consciência.”
Concordámos que, por exemplo, um funcionário público que sinta que está a ser
injustiçado e a ser remunerado abaixo do esforço dispendido, como é o caso dos
cortes nos subsídios de férias e de Natal, poderá encontrar aí uma justificação
para um eventual ato de corrupção passiva. Para ele(a) o ato de corrupção
tenderá a ser um ato plenamente justificado, pois é apenas um ato de justiça.
Diz o povo que as conversas são como as
cerejas: atrás de uma vem outra. E assim foi. A corrupção puxou a questão dos
impostos e da evasão fiscal. “Se puder não pagar o IVA, não pago.”, disse.
“Isto porque toda a gente ‘foge’ ao imposto.” E alinhavou um quantos exemplos,
como o do imposto sobre imóveis, para demonstrar que não era racional ser
cumpridor, até porque, em sua opinião, a Lei já está preparada para que cada um
não cumpra na totalidade as suas obrigações fiscais. Sem pretender julgar a
moralidade de tal raciocínio, não pude deixar de sorrir interiormente, ao
verificar que juntamente com a confissão do ato associal que é a evasão fiscal
veio a justificação (pessoal) para o cometimento do reprovável ato. Comportamento
consistente com o que a literatura teoriza sobre o assunto.
A conversa avançou para outros temas, com
a mesma vivacidade. Porém, na minha mente ficou a bailar a questão que não me
atrevi a colocar ao meu interlocutor: “Porque será que alguém recusa liminarmente
a possibilidade de ser parte de um ato de corrupção e, no entanto, encara com
normalidade um ato igualmente associal (e criminoso) como é a evasão fiscal?”
Gostaria de ter uma resposta para dar a
mim próprio, mas não tenho. O mais que consigo aventar são meras hipóteses
explicativas, sob a forma de outras questões. Será o “amor próprio” do
profissional, o denominado “brio profissional”, que se sobrepõe à expetativa do
provento associado à corrupção? Será a dificuldade de ter de tratar, “olhar no
olhar”, com o corruptor os detalhes de uma ação menos corrente, apesar de tudo,
do que a evasão fiscal? Será o medo da eventual penalização, potencialmente
mais gravosa do que o da evasão fiscal?
Não sei qual será a explicação, embora,
em abstrato, me incline mais para a primeira. Porquê maior inclinação para
esta?! Não sei.