terça-feira, 1 de maio de 2012

Dez anos passados …


Dia 2 de Maio de 2002. Às 14:00 horas, numa pequena sala da Lancaster University Management School, frente a dois arguentes, iniciei a defesa da minha tese de doutoramento. Duas horas e meia para justificar um trabalho que me levou cerca de quatro anos a elaborar.
Olhando para trás no tempo, para esse momento, eu não consigo lembrar-me do quão nervoso estaria. Penso que não estava muito e que encarei a sessão com relativa calma. Lembro-me, sim, no término, quando os arguentes deram por encerrado o questionamento do meu trabalho, que olhei para o relógio e fiquei admirado por ter passado tanto tempo desde o início da sessão. O tempo “voara” enquanto eu esgrima argumentos em defesa do trabalho compactado numa brochura com cerca de 250 páginas. Fui aprovado, com a obrigação de efetuar umas ligeiras correções ao trabalho. Algo que, numa tarde de trabalho, facilmente resolvi.
Lancaster University - Chaplaincy Centre
Foi um alívio. Respirei fundo, olhei para o fim de tarde soalheiro e dei graças a Deus por me ter guiado ao longo de um processo longo e nem sempre isento de dúvidas, de receios e de pressão. O meu orientador, o Prof. Peter Pope, no final da sessão, quando passei pelo seu gabinete para lhe dar conta do resultado da prova, sorriu, como que a querer significar que já sabia qual seria o desfecho, e convidou-me para ir com ele e um professor visitante que estava no seu gabinete beber uma “pint” de cerveja à cidade, a um desses “pubs” bem ingleses. Aceitei o convite. Quando voltei para casa era quase hora do jantar. Eu sentia aquela paz interior que está associada ao “dever cumprido”.

A minha ideia do que é um líder …


No decurso da minha juventude, devorei muitos livros de aventuras marítimas. Ainda hoje não me ponho de fora quando tenho oportunidade de me deixar embalar nas ondas de uma boa aventura por mares “nunca dantes navegados”. Talvez por isso, formei uma ideia do capitão de um navio como a pessoa que guia os seus homens, que sofre as mesmas vicissitudes destes e, além disso, quando a aventura corre mal, é o último a abandonar o navio.
Esta minha ideia da figura do capitão pode ser considerada idílica, a julgar pelo exemplo mais recente do capitão do famigerado navio de cruzeiro Costa Concordia, em que ele foi um dos primeiros a fugir, enquanto aquele naufragava. Porém, aceitando que possa tratar-se de uma visão idílica, continuo a achar que ela se confunde com a ideia que eu tenho do que deve ser um líder.

Um bom bife …


No passado domingo, a propósito do dia da Terra, o jornal Público, na respetiva revista, oferecia um conjunto de trabalhos sobre o consumo de recursos no dia-a-dia. Num deles, a jornalista Alexandra Prado Coelho descrevia a tarefa a que se devotou durante um dia para poupar água.
Poupou uns quantos litros ao reduzir a duração do chuveiro, ao usar sabonete em vez de gel de banho – segundo ela, o primeiro é mais fácil de ser retirado do corpo –, ao lavar os dentes sem ter a torneira abrta. Toda a sua poupança foi “pelo cano abaixo” (passe a expressão) quando ao almoço comeu um bife. Segundo ela, um bife de 300 gramas corresponde a um gasto de água de cerca de 4650 litros! Gasto com a água ingerida pelo animal e com a produção das rações e pastos que o alimentaram.

Anestesiados …


Há mais de uma semana que não deixava umas linhas no meu blog. Hoje, na sala de espera do hospital, decidi aproveitar o tempo para escrever umas coisitas. Para descontrair …
Esta manhã, um jornal, em grandes parangonas, informava que nos dois primeiros meses do ano a dívida pública portuguesa aumentou mais de, se não estou em erro, 2 mil milhões de euros. Aqui há dias, a propósito dos encargos com as parcerias público-privadas – onde sobressaem os respeitantes às auto-estradas –, veio a público que o montante a pagar no corrente ano excede os 2 mil e cem milhões de euros. Há duas ou três semanas, relativamente à dívida das autarquias, alguém informava que a mesma não era de 6 mil milhões, mas sim de mais de 13 mil milhões de euros.
Tomei recentemente consciência de que os números que vão sendo atirados já nem me incomodam. Referem “milhares de milhões” e eu continuo pacificamente tranquilo, como se isso não implicasse da minha parte a obrigatoriedade de vir a comparticipar no esforço “coletivo” de pagamento dessas dívidas.
Analisando o meu próprio comportamento, julgo que a regularidade com que se fala de milhares de milhões – a propósito de dívidas do Estado – levou a que nos tornássemos relativamente anestesiados face à dimensão desses valores, sem consciência do que números de tal grandeza implicam para cada cidadão.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A crise não é para todos …


Costuma dizer-se que o Sol quando nasce é para todos. Com as crises, como a que vivemos, assim não acontece. A uns, a crise pura e simplesmente esmaga, quando perdem o emprego e, de modo particular, quando as prestações sociais deixam de contribuir para a minimização da perda de rendimento. A outros, que conseguiram preservar o emprego a troco de uma redução do rendimento, provoca abanões mais ou menos violentos, implica mudar de hábitos e cortar nas despesas, mesmo as mais inocentes e aparentemente justificáveis. Finalmente, para outros, a crise é apenas um folhetim que acompanham, mais ou menos em contínuo, pelos meios de comunicação social, mas que lhes passa ao lado. De tal modo ao lado, que o seu poder de compra até tende a aumentar, por via da redução do preço da generalidade dos bens. São aqueles que “passam pelo meio da chuva sem se molharem”.
Não é preciso ser muito atento à realidade que nos rodeia para se detetarem no espaço público cidadãos destas três categorias. Os primeiros, de faces carregadas e testa franzida, denotando as suas preocupações, percorrem os corredores das grandes superfícies devagar, olhando e tornando a olhar, para chegarem à caixa com uns poucos artigos de primeira necessidade, pagos com os trocos retirados do vazio porta-moedas. Os segundos, colocam na passadeira da caixa compras para vários dias, mas sobressaem nelas os rótulos de “cor branca”, a marca própria do estabelecimento. Os terceiros não são tão fáceis de detetar no supermercado, talvez porque se possam dar ao luxo de diversificar as suas compras por “boutiques” e lojas “gourmet”. São detetados, sobretudo, quando abrem a boca e falam em público das férias que fizeram na Páscoa, e dos projetos de férias grandes que afanosamente estão preparando. Países longínquos constam dessas conversas, decisões complicadas de tomar, como se deve ir à Finlândia ou, pelo contrário, passar um mês nos Estados Unidos, de onde o filho regressou recentemente.
Quanto a estes últimos, gostaria de ter a certeza que cumprem escrupulosamente os seus deveres sociais, de modo especial o pagamento dos impostos. Verificado este pressuposto central, sou de opinião que é salutar que façam despesa com o rendimento que têm. O pior que poderia acontecer era que se limitassem a entesourar esse rendimento, pois nesse caso contribuiriam para a verificação do denominado paradoxo da poupança: se todos poupassem a totalidade do respetivo rendimento a atividade económica pararia, por falta de consumo.
Porém, se a despesa contribui para a manutenção ou criação de postos de trabalho, isto é, para o crescimento económico, quando é efetuada no estrangeiro, ou implica importações, o respetivo impacto na economia nacional é reduzido ou nulo. Portanto, pouco ajudam à necessidades do país. Além disso, quando ostentam nos espaços públicos a sua favorável situação económica, incapazes de se comiserarem com o sofrimento daqueles que a crise esmaga, estão a mostrar, acima de tudo, que a estratégia a adoptar é “cada um por si”. A prática da solidariedade é deixada para o Estado, como se o sofrimento dos seus concidadãos – a “gentinha” – nada tivesse nada a ver com eles. E, no entanto, se outras razões mais fortes não existissem para estarem atentos aos mais atingidos, podiam, pelo menos, ter presente que são estes os que menos responsabilidades têm na formação e eclosão de crises económicas como a que se vive atualmente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A meta


[na sala de espera]
Uma meta existe para ser cruzada. E existe para evitar que o sujeito continue a correr indefinidamente. E é a meta, a sua visão – mesmo quando de tão longínqua não passa ainda de uma miragem – que leva esse sujeito a encontrar as forças para prosseguir a “corrida” até a cruzar.
Pouco se fala da meta depois de ter sido cruzada. Centra-se a análise e o comentário no sujeito, muito em especial no que chegou à frente, o denominado vencedor. Esquece-se a importância da meta, enquanto referência para se continuar a “correr”. Porém, a vida sem metas para cruzar é difícil de imaginar.
A minha meta mais importante no último ano tem sido o “12”. O número mágico que eu sempre tenho tido em frente dos olhos, mesmo quando ainda estava muito longe. Cada passo a caminho do “12” foi uma pequena vitória, mesmo sendo apenas um passo intermédio a caminho desse objetivo principal. Pequena vitória que eu, com todo o gosto, riscava na lista dos passos percorridos e a percorrer. 
As forças por vezes escasseavam, o desconforto era enorme, mas para além do carinho e incentivo que usufruía de todos os que me acompanhavam na “corrida” – muito em especial da Lucinda, que está aqui comigo na “linha da meta”, para me ver cruzá-la –, era o “12”, a meta, que me dava alento.
O dia chegou. O dia de cruzar a meta, o dia de atingir o “12”. Hoje estou novamente na sala de espera do hospital, aguardando que me chamem … para cruzar a meta, isto é, para efetuar o “12”, o décimo segundo e último tratamento que me foi prescrito no (que me parece ser o) longínquo mês de Junho de 2011. Sinto-me eufórico, embora um pouquinho receoso por ainda não me terem chamado. Lá no fundo de mim mesmo existe sempre latente uma pontinha desse receio de não poder fazer o tratamento.
Ao cruzar “esta” meta, tenho plena consciência de que pode não ser a meta final, a “meta das metas”. Um doente crónico, como sou definido em termos médicos, aprende a viver com essa realidade. Talvez por isso, o ultrapassar de cada meta tem um sabor muito especial, o de que se foi capaz de ultrapassar mais um obstáculo. E, tal como uma guerra é sempre feita de muitas batalhas, também a vida de um doente é feita de muitas “metas” e de uma forte esperança que, no conjunto, a ultrapassagem de todas elas permitirá cruzar a “meta das metas”, como acima a apelidei, que dá acesso à saúde.
Hoje é, pois, um dia especial. O “12” está à vista, esperando por mim para ser ultrapassado. Dentro de dias o “12” será esquecido, como o é a meta depois de ter sido cruzada pelo desportista. Mas nem por isso deixará de ser um marco importante na minha vida, por ser mais uma batalha vencida.
[na sala de tratamento]
O tratamento está em curso. Eu murchei na minha euforia de cruzar o “12”.
Em termos desportivos diria que a meta foi movida para mais longe. Quase como nos meus tempos de juventude, em que se começava um jogo de futebol com a baliza num determinado local e, no decorrer do mesmo, por razões várias, ela ia sendo movida para local diferente, a ponto de antes de cada pontapé na bola ser imprescindível perceber onde estava a baliza.
Pois bem, hoje esqueci-me de confirmar onde estava realmente a “meta”. Quando, muito contente, disse à enfermeira que não precisava de se preocupar com a marcação do próximo tratamento, pois este seria o último, ela arrefeceu a minha euforia e disse-me que ainda faltavam dois. A explicação para tal é simples e não se tratou de um falseamento das regras do “jogo”. A determinada altura do processo a médica alterou o composto químico do tratamento (o protocolo, em linguagem médica) … e também o número de sessões. Falou-me da primeira alteração, não me lembro que me tenha falado da segunda.
Paciência. A vida é mesmo assim. Às vezes as “metas” são movidas. As expetativas são reajustadas e, seja o “12” ou o “14”, continua no horizonte. A mente, essa, mantém a contagem decrescente até que a “meta” seja ultrapassada.   

[em tempo]
Felizmente, a Lucinda não ficou preocupada com o facto da “meta” ser mais longe. Até parece ter ficado um pouquinho satisfeita. Concordo com ela. Mais dois tratamentos não me fazem mal e até podem fazer bem para o objetivo último que é ultrapassar a "meta das metas".   

domingo, 8 de abril de 2012

Acabem com as praxes académicas … Já!


A notícia chegou pelos jornais, sem grande destaque. Em Coimbra, alguns “doutores”, no âmbito das atividades da praxe académica, agrediram duas colegas estudantes cujo único “crime” foi o serem “caloiras” na Universidade e não quererem entrar na (estúpida) brincadeira. A gravidade da situação não provocou outra consequência para além de uma suspensão temporária, por parte da Associação Académica (AA), até que se apurassem responsabilidades.
Isto já seria suficiente grave. Porém, há sempre umas “bestas” (não me ocorre forma mais suave de os apelidar, com o devido respeito pelos animais assim chamados) que se arvoram defensores do indefensável. A fazer fé na informação veiculada pela imprensa, não desmentida, um grupo de estudantes (“doutores”) da Faculdade de Economia do Porto viajou de propósito para Coimbra, para continuar as atividades da praxe, porque a decisão suspensiva da AA não se lhes aplicava e era a forma de protestarem contra a suspensão da praxe. Incrível! Incrível por existirem tais “bestas”, que com tantas formas de serem úteis à sociedade – a começar pela obtenção de aproveitamento escolar – aplicam os seus esforços a dar cabo da vida dos outros.
Incrível, também, por as autoridades não tomarem medidas para colocarem termo, de uma vez por todas, a essa aberração que se dá peno nome de praxe académica. Os reitores das universidades não querem comprar uma briga, apesar dos graves incidentes que ao longo dos últimos anos foram ocorrendo. Viram a cara para o lado, assobiam para o ar. E não é por falta de aviso e de pressão por parte dos docentes do ensino superior, que veem parte do seu esforço letivo esvair-se no tempo desperdiçado pelos alunos nesse tipo de atividade. Um exemplo concreto. Ao longo dos últimos anos, a denominada semana da Queima das Fitas era período em que não havia aulas, de modo a permitir aos alunos dedicarem-se de “alma e coração” a todos os excessos e desmandos. Este ano, a Reitoria da universidade deve ter considerado, finalmente, que não fazia sentido parar as aulas a poucas semanas do final do semestre letivo. O que fez?! Quando aprovou o calendário letivo deixou as coisas numa situação dúbia, porque não marcou a semana como período de “férias”, mas também não foi assertiva quanto ao facto de ser semana de trabalho. Empurrou, portanto, a “batata quente” para os diretores das escolas, deixando ao cuidado de cada um tomar a decisão adequada. E se um empurra o assunto com a barriga, porque não pode o seguinte fazê-lo também? O diretor da Faculdade, com o beneplácito do Conselho Pedagógico, também empurrou o assunto, agora para os docentes. Cabe a estes, em cada disciplina, decidir se existe ou não aulas nessa semana. Parece impossível, mas é verdade! Assim, as entidades que deviam assumir a responsabilidade por introduzir algum sentido de responsabilidade neste processo, têm as suas mãos limpas, qual Pilatos, deixando para o fim da linha o odioso de contrariar as camadas jovens cujos interesses se centram em aberrantes brincadeiras que, na maior parte dos casos, conflituam com a dignidade dos estudantes que acabam de chegar à Universidade.   
Não compreendo como é que o Governo do país, sempre pronto a fazer tábua rasa de qualquer direito ou autonomia que permita poupar uns tostões, não decide intervir neste domínio, onde se esbanjam milhões anualmente – sem falar dos efeitos de longo prazo – por via do efeito da praxe sobre o aproveitamento escolar dos alunos.
Por favor, haja alguém que nos livre das praxes! Por favor …