segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um país de “doutores” …


Jornal Público de 21/7/2012: “Anúncios de emprego oferecem mais dinheiro a serralheiros que a engenheiros”. A informação que substanciava tal título referia que “No site da Netemprego [Instituto do Emprego e Formação Profissional] oferece-se um lugar para um engenheiro mecânico, em Lousada, com conhecimento de três línguas (Inglês, Francês e Espanhol) e um salário de 600 euros, inferior aos 800 euros pagos a um torneiro mecânico, em Alcobaça, um serralheiro mecânico, em Pombal ou a um montador de tubagens, em Valença.”

Depois de nas últimas semanas termos ficado chocados com os 3,5 Euros/hora que o Ministério da Saúde tinha recebido como oferta a uma consulta de mercado para a aquisição de serviços de enfermagem, ou os 4,5 Euros para serviços médicos, esta notícia é mais uma achega que nos remete para os enviesamentos que ao longo das últimas décadas a formação (educação) profissional no país verificou.
Ser “doutor”, num país que tinham falta de licenciados, era (é )o sonho de todo o jovem. E ao longo dos anos uma grande parte dos recursos públicos foi afeta a criar as condições para que o sistema de ensino, publico e privado, possibilitasse esse desiderato. Os cursos de licenciatura brotaram a esmo, às centenas, nalguns casos diplomando pessoas em especialidades bizarras para as quais, nem com muita imaginação, se conseguia perspetivar uma aplicação profissional direta.

domingo, 1 de julho de 2012

O emprego que não é gerado …


O tema do seminário era a discussão das perspetivas de evolução futura da economia portuguesa. Dois oradores. O primeiro, apresentando dados macroeconómicos relativos à evolução recente e tendências de evolução futura das exportações portuguesas. O segundo, administrador de uma empresa portuguesa dedicada ao fabrico e comercialização de azeite e óleo alimentar – a Sovena –, descrevendo as principais etapas do respetivo processo de internacionalização.
Centro-me nesta última apresentação. O referido senhor, a determinada altura, a propósito do azeite, referia o facto da sua empresa ao longo dos anos ter vindo a fazer vultuosos investimentos.
"A nossa atividade, que é verticalizada, abrange desde a produção da azeitona à comercialização do azeite e é totalmente automatizada." – referiu. Com mais detalhe, explicou que a plantação das oliveiras em imensos olivais é mecanizada; a rega das oliveiras é automatizada, sendo controlada a partir do Alentejo, não só para os olivais que têm nessa região, mas também para os que têm em Espanha e em Marrocos; a recolha da azeitona é mecânica, e é automatizado o processo fabril inerente ao fabrico e o engarrafamento.
Em virtude disso, uma empresa verticalizada como esta, que tem uma quota superior a 6% do mercado mundial de azeite, não emprega no conjunto, nos diversos países onde está implantada, mais de 1000 pessoas.

sábado, 30 de junho de 2012

A crise à mesa de um restaurante …


Por questões profissionais, há dias participei num jantar de negócios. Um daqueles encontros agradáveis, descontraídos, num restaurante bonito que, além de outros predicados, tinha o aliciante de proporcionar boa comida.
Os restantes convivas, pessoas simpáticas e bem-falantes, denotavam traquejo de participação em muitos encontros sociais semelhantes. Isso era facilmente percetível pelo modo como cada um contribuía para a conversa sem, no entanto, a monopolizar; como cada um, qual ator ensaiado, assegurava que a conversa não esmorecia, alimentando-a, esticando o assunto umas vezes, outras introduzindo-lhe subtis mudanças de rumo.
Neste ambiente deveras agradável a nota menos positiva, para alguém com o meu orçamento mensal, foi pensar no preço da refeição. Sem ser uma refeição de exageros, uma pequena entrada, o prato principal, a sobremesa e um pouco de vinho – uma garrafa para seis – rondou os 50 euros por pessoa. Um montante que, confesso, não é irrelevante no meu orçamento. É, em termos médios, o montante mensal que me permito gastar em atividades sociais e ou de lazer.
Face a este nível de preços e ao facto de se tratar de uma quinta-feira, esperava outra afluência ao restaurante. Porém, durante as mais de duas horas que a refeição durou ele esteve sempre completamente cheio. Cedo me convenci que aquela situação que então vivia era mais uma evidência de que os efeitos da crise são assimétricos, esmagando os financeiramente mais débeis, passando ao lado dos restantes.

sábado, 23 de junho de 2012

Estratégias do tipo “eu também quero” …


Não é preciso alguém ser um observador muito atento para se aperceber, com facilidade, que de há cerca de dois anos a esta parte as lojas de compra de ouro usado têm surgido quase como “cogumelos em tempo de chuva”.
Primeiro nas zonas urbanas mais populosas, depois, quase como um “tsunami” que se desloca para os arredores das grandes cidades e, daí, para o interior. Por mais intensa que seja a crise para alguns dos cidadãos portugueses, dificilmente se consegue acreditar que haja tanto ouro para vender de modo a gerar negócio para todas as lojas existentes. [Mesmo que as margens de lucro do negócio sejam elevadas.] Em certas localidades, mesmo que pequenas, este tipo de negócio aparece implantado (quase) porta sim, porta sim, com as suas janelas pintadas de cores vivas opacas, permitindo salvaguardar a privacidade de quem em desespero se socorre de tal fonte de financiamento e servindo de superfície onde se anuncia em grandes parangonas “Compra-se ouro usado”.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Responsabilidades …


De acordo com a imprensa escrita de ontem (15 de junho), a Madeira recebeu a primeira prestação do acordo financeiro que negociou com o governo da República Portuguesa. Esse montante destina-se a pagar uma pequena parte das muitas dívidas que a Região Autónoma foi acumulando ao longo dos últimos anos. Dívidas que, recorde-se, em parte foram escondidas até ao limite em que a respectiva dimensão já não possibilitava continuar a fazê-lo.
Ontem, também, essa mesma imprensa fazia eco de mais um relatório do Tribunal de Contas onde se denuncia que, na área do desporto e turismo, o governo da Madeira escondeu quase duas centenas de milhões de euros de dívidas.
Mas o caso da Madeira não é único. Ainda há poucos dias se ficou a saber, a partir gualmente do Tribunal de Contas, que no caso da renegociação de parcerias público-privadas relativas a auto-estradas houve sonegação de informação, o que levou a que o respectivo contrato tivesse sido (indevidamente) despachado de modo favorável por aquele tribunal.
Apesar destes casos de fraude na prestação de contas, o facto é que não se notam indícios de que as autoridades judiciais se aprestem para apurar responsabilidades e penalizar as pessoas que cometeram tais atos. O que pontualmente se toma conhecimento é de estes episódios serem objecto de “chicana política” numa qualquer comissão parlamentar.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A banca em Espanha …


Há minutos a rádio noticiava que a agência de notação Fitch tinha cortado o “rating” de Espanha – uma medida da capacidade deste país solver os seus compromissos – em três níveis de uma só vez. É preocupante a notícia. Refiro duas razões.

Primeira, um corte desta dimensão indicia uma alteração muito substancial num curto prazo das condições inerentes à economia espanhola. Se bem que a Espanha já há muito não estivesse na “crista da onda” em termos das boas graças dos mercados, as últimas semanas neste domínio têm sido devastadoras. No centro, a má situação de parte dos bancos espanhóis, a necessitarem urgentemente de injeções astronómicas de dinheiro para evitarem a falência. Se é comumente aceite que os responsáveis do recentemente empossado governo espanhol não têm sido eficazes ao nível da gestão mediática dos problemas que o país atravessa, demonstrando uma enorme inabilidade – com constantes “tiros nos pés” –, o facto é que até o cidadão comum vai tomando consciência a cada dia que passa da muito difícil situação do sistema bancário espanhol, bem pior do que se poderia pensar.

terça-feira, 5 de junho de 2012

O aluno …


Imagine o leitor uma turma com cerca de cinquenta alunos, onde a maioria está desmotivada para o estudo (qualquer que este seja). Por mais que o professor faça, nas aulas e fora delas, a desmotivação dos alunos é uma constante. Se, por acaso, uma qualquer novidade quebra por breves momentos a sua apatia, logo esta está de volta. Às vezes imagino que mesmo que o teto da sala começasse a desabar, os alunos não se mexeriam. (Estou a ser exagerado.) 

Mas eis que um dia – há algumas semanas –, quando entrei na sala de aula, constatei que havia um aluno novo. Pode parecer estranho que disso me tenha apercebido, no meio de quase meia centena de estudantes, em particular num contexto em que a turma tem uma composição variável no tempo. Não tivesse eu notado a existência de um novo aluno e rapidamente me teria confrontado com tal situação, pois ele veio ter comigo, apresentou-se, pediu desculpa por desde o início do semestre ainda não ter vindo às aulas e justificou a ausência com o ter estado adoentado.

A aula começou e, quase de imediato, apercebi-me que o referido aluno estava super-motivado, intervindo continuamente, com achegas sobre os assuntos em discussão e não só. Sempre que eu projetava um “slide” ou escrevia algo no quadro negro, a sua intervenção não se fazia esperar.

Pensará o leitor que este era o milagre de que eu estava à espera para que a turma se motivasse. Não me parece. Já explicarei porquê. Antes, deixe-me dizer porque detetei a presença do novo aluno mal entrei na sala.