A parte urbana de Vila Pouca de Aguiar é muito
agradável. Um núcleo estruturado em torno da parte mais antiga, numa simbiose
pensada e executada para agradar ao visitante. Foi uma primeira visita, mas permitiu
constatar que por lá havia noutros tempos passado o comboio. Não que os carris
de ferro fossem prova disso, pois não existem, mas a estação de ontem estava lá
a atestar esse passado, bem preservada e transformada em centro cultural. O
comboio, que existiu e hoje não existe. Um passado que é olhado, por alguns,
como condicionante (negativa) do presente.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
À descoberta do país: uma época que tarda em voltar a Vidago
terça-feira, 4 de setembro de 2012
À descoberta do país: o peixeiro
“Sardinha,
chucharro, salmão, camarão, polvo e outros peixes … a bom preço”, apregoados
em alto som, tendo como música de fundo um vira minhoto. Eram 9:30 horas da
manhã, o carro do peixeiro parado mesmo por baixo da janela do hotel. Um modo
inesperado de acordar. Se o sono tivesse varrido essa consciência, o barulho
não permitia escamoteá-la: estava-se no Portugal profundo, onde o tempo parece decorrer
mais vagarosamente.
A chegada à sala do
pequeno-almoço foi feita já para além de hora aceitável. Porém, o sorriso da
gerente foi aberto e sincero: “Não há problema. Não se esqueçam de provar o
doce de figos.” E para que assim fosse, foi buscar o frasco e colocou-o na
mesa. Uma maravilha, adicionada a um pão gostoso com sementes. “Eis uma das
vantagens de se estar instalado num hotel pequeno, onde cada cliente é tratado de
modo particular”, pensei para com os meus botões, enquanto saboreava o pão com
doce.
À descoberta do país: a Adega do Maneca
Há uma ideia que é do mais
elementar bom-senso: não se deve improvisar. Deve-se, sim, planear, programar,
definir objetivos ou destinos. Comungo dessa ideia. Porém, uma pequena dose de
improviso, sobretudo em viagem, coloca um pouco de “sal” e aproxima o simples
viajar da aventura.
Foi o que aconteceu desta vez.
Destino: “Parque Nacional do Alvão”, com entrada pelo norte. Pesquisa-se um
hotel de preço acessível, numa localidade que se não conhece – de nome Cerva –,
não se faz reserva. Chega-se ao hotel quase por acaso, pois o trajeto não foi
pródigo em sinalização. A sorte está presente: só havia um quarto disponível.
De caminho, ainda houve
oportunidade de aprender que Mondim de Basto, encostada ao cónico monte da Sra.
da Graça, não se confunde com Celorico ou Cabeceiras, também das terras de
Basto.
Cerva foi uma agradável
surpresa. Plena de história, com as suas pontes românicas e as suas casas
brasonadas; com infraestruturas atuais, que tornam agradável a vida dos seus
moradores e daqueles que a visitam, onde avulta uma belíssima praia fluvial e
variados restaurantes e estabelecimentos comerciais.
Fim de dia, hora de procurar
local para jantar. Muita oferta, mas quase todos os locais vazios. E isso é um
problema, pois um restaurante vazio tende a ser frio, despido daquele mínimo de
calor humano que torna minimamente agradável qualquer repasto.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Triângulo de interesses associados à solidariedade …
No espaço de poucos dias os meios de comunicação
social fizeram eco de duas situações do mesmo teor: há atividades que
necessitam de trabalhadores para trabalhos sazonais – como a apanha do tomate
ou das uvas – e não os conseguem obter.
Pode-se argumentar que este tipo de notícias, e o enquadramento
que lhes é dado, é enviesado; que notícias pontuais de procura de trabalhadores
não refletem a realidade nacional, onde escasseia o trabalho; que desencontros
de natureza geográfica, entre a oferta e a procura de trabalho, nunca são tidos
em consideração para enquadrar as notícias.
Pode-se, efetivamente. Porém, é justo pensar que há
instrumentos de política social, como o caso da atribuição de um subsídio a
quem cai numa situação de desemprego, que são justificáveis no contexto de um
país solidário e socialmente comprometido, mas que podem acabar por ter um
efeito nefasto sobre o funcionamento do mercado de trabalho e o “casamento”
entre oferta e procura.
“Cortinas de fumo”, em ambiente de desconfiança …
Foi há cerca de uma semana. A notícia surgiu de repente,
primeiro num jornal eletrónico, depois num canal televisivo com uma entrevista
à respetiva “fonte”: o Governo já tem plano para a RTP, passando por encerrar o
Canal 2 e concessionar o restante serviço por 15 ou 20 anos.
1. Desde então não se tem falado de outra coisa. Sem que o
Governo expressamente tenha assumido a notícia como credível, as opiniões são
esgrimidas sem descanso nos órgãos de comunicação. Partidários versus opositores. Entre estes últimos,
sobressai em tons garridos aquela desconfiança endémica que é um traço
caraterístico da nossa cultura: a medida é um meio para favorecer os amigos dos
partidos no Governo.
Eu não posso afirmar que não venha a produzir esse
resultado. O que eu não concordo é que, mesmo antes de se conhecerem os
contornos da operação – supondo que efetivamente se trata de uma notícia
verdadeira – se comece por assumir que há favorecimentos, que há ilicitude, que
os poderes públicos instituídos não são capazes de contrariar e punir
comportamentos menos adequados no tratamento da “rés publica”. É triste que a
discussão de aspetos importantes da nossa vida coletiva nunca seja feita com
argumentos esclarecedores e fomentadores de uma troca de opiniões sã e abrangente. Não,
as “discussões” versam sempre a desconfiança no outro, partem sempre do
princípio de que ele é criminoso, mesmo antes de se ter encetado qualquer ação.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Nunca há responsáveis …
Lê-se na imprensa e não se acredita.
Caso 1: Em 2001 o Estado português adquiriu um conjunto
de helicópteros. Como na altura não havia fundos para os pagar, os responsáveis
do Ministério da Defesa à altura inventaram um complexo esquema de engenharia
financeira destinado a possibilitar a compra. Na prática, simplificando as
teias das intrincadas relações de sociedades envolvidas no caso, aquilo que
aconteceu foi os referidos equipamentos terem sido adquiridos em “locação
operacional”. Traduzido, significa terem sido alugados, contra pagamento de uma
renda à sociedade que efetivamente os adquiriu. Resultado: o custo efetivo dos
equipamentos verificou um desvio para mais, relativo ao preço original, de mais
de 50%, ou seja, qualquer coisa como mais 120 milhões de euros!
Como se tudo isto não bastasse para se pedirem
responsabilidades, vem agora o Tribunal de Contas alertar para o facto de se terem
vindo a pagar em duplicado faturas relativas à referida operação. Pura e
simplesmente, no meio de tanta engenharia financeira, não se assegurou que um
qualquer organismo tivesse ficado responsável pelo controlo das “contas”.
O Ministério da Defesa vai mandar fazer um
inquérito ao sucedido. Já sabemos o que significa isso: mais tempo e recursos desperdiçados,
pois nunca se apuram responsáveis e responsabilidades.
segunda-feira, 23 de julho de 2012
Um país de “doutores” …
Jornal Público de 21/7/2012: “Anúncios de emprego oferecem mais dinheiro a serralheiros que a engenheiros”. A informação que substanciava tal título referia que “No site da Netemprego [Instituto do Emprego e Formação Profissional] oferece-se um lugar para um engenheiro mecânico, em Lousada, com conhecimento de três línguas (Inglês, Francês e Espanhol) e um salário de 600 euros, inferior aos 800 euros pagos a um torneiro mecânico, em Alcobaça, um serralheiro mecânico, em Pombal ou a um montador de tubagens, em Valença.” Depois de nas últimas semanas termos ficado chocados com os 3,5 Euros/hora que o Ministério da Saúde tinha recebido como oferta a uma consulta de mercado para a aquisição de serviços de enfermagem, ou os 4,5 Euros para serviços médicos, esta notícia é mais uma achega que nos remete para os enviesamentos que ao longo das últimas décadas a formação (educação) profissional no país verificou.
Ser “doutor”, num país que tinham falta de licenciados, era (é )o sonho de todo o jovem. E ao longo dos anos uma grande parte dos recursos públicos foi afeta a criar as condições para que o sistema de ensino, publico e privado, possibilitasse esse desiderato. Os cursos de licenciatura brotaram a esmo, às centenas, nalguns casos diplomando pessoas em especialidades bizarras para as quais, nem com muita imaginação, se conseguia perspetivar uma aplicação profissional direta.
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