terça-feira, 4 de setembro de 2012

À descoberta do país: a Adega do Maneca


Há uma ideia que é do mais elementar bom-senso: não se deve improvisar. Deve-se, sim, planear, programar, definir objetivos ou destinos. Comungo dessa ideia. Porém, uma pequena dose de improviso, sobretudo em viagem, coloca um pouco de “sal” e aproxima o simples viajar da aventura.

Foi o que aconteceu desta vez. Destino: “Parque Nacional do Alvão”, com entrada pelo norte. Pesquisa-se um hotel de preço acessível, numa localidade que se não conhece – de nome Cerva –, não se faz reserva. Chega-se ao hotel quase por acaso, pois o trajeto não foi pródigo em sinalização. A sorte está presente: só havia um quarto disponível.
De caminho, ainda houve oportunidade de aprender que Mondim de Basto, encostada ao cónico monte da Sra. da Graça, não se confunde com Celorico ou Cabeceiras, também das terras de Basto. 

Cerva foi uma agradável surpresa. Plena de história, com as suas pontes românicas e as suas casas brasonadas; com infraestruturas atuais, que tornam agradável a vida dos seus moradores e daqueles que a visitam, onde avulta uma belíssima praia fluvial e variados restaurantes e estabelecimentos comerciais.
Fim de dia, hora de procurar local para jantar. Muita oferta, mas quase todos os locais vazios. E isso é um problema, pois um restaurante vazio tende a ser frio, despido daquele mínimo de calor humano que torna minimamente agradável qualquer repasto.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Triângulo de interesses associados à solidariedade …


No espaço de poucos dias os meios de comunicação social fizeram eco de duas situações do mesmo teor: há atividades que necessitam de trabalhadores para trabalhos sazonais – como a apanha do tomate ou das uvas – e não os conseguem obter.
Tendo em consideração o desemprego galopante que castiga o país, este tipo de notícias é sempre objeto de parangonas que confrontam as duas realidades – o desemprego e a escassez de trabalhadores – de forma a realçarem o paradoxo associado. Um terceiro elemento é, também, geralmente associado à publicitação deste tipo de notícias: o dos subsídios que os desempregados, ou as famílias com muito baixos recursos, recebem dos sistemas de segurança social e solidariedade, alimentados pelos impostos dos contribuintes.
Pode-se argumentar que este tipo de notícias, e o enquadramento que lhes é dado, é enviesado; que notícias pontuais de procura de trabalhadores não refletem a realidade nacional, onde escasseia o trabalho; que desencontros de natureza geográfica, entre a oferta e a procura de trabalho, nunca são tidos em consideração para enquadrar as notícias.
Pode-se, efetivamente. Porém, é justo pensar que há instrumentos de política social, como o caso da atribuição de um subsídio a quem cai numa situação de desemprego, que são justificáveis no contexto de um país solidário e socialmente comprometido, mas que podem acabar por ter um efeito nefasto sobre o funcionamento do mercado de trabalho e o “casamento” entre oferta e procura.

“Cortinas de fumo”, em ambiente de desconfiança …


Foi há cerca de uma semana. A notícia surgiu de repente, primeiro num jornal eletrónico, depois num canal televisivo com uma entrevista à respetiva “fonte”: o Governo já tem plano para a RTP, passando por encerrar o Canal 2 e concessionar o restante serviço por 15 ou 20 anos.

1. Desde então não se tem falado de outra coisa. Sem que o Governo expressamente tenha assumido a notícia como credível, as opiniões são esgrimidas sem descanso nos órgãos de comunicação. Partidários versus opositores. Entre estes últimos, sobressai em tons garridos aquela desconfiança endémica que é um traço caraterístico da nossa cultura: a medida é um meio para favorecer os amigos dos partidos no Governo.
Eu não posso afirmar que não venha a produzir esse resultado. O que eu não concordo é que, mesmo antes de se conhecerem os contornos da operação – supondo que efetivamente se trata de uma notícia verdadeira – se comece por assumir que há favorecimentos, que há ilicitude, que os poderes públicos instituídos não são capazes de contrariar e punir comportamentos menos adequados no tratamento da “rés publica”. É triste que a discussão de aspetos importantes da nossa vida coletiva nunca seja feita com argumentos esclarecedores e fomentadores de uma troca de opiniões sã e abrangente. Não, as “discussões” versam sempre a desconfiança no outro, partem sempre do princípio de que ele é criminoso, mesmo antes de se ter encetado qualquer ação.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nunca há responsáveis …


Lê-se na imprensa e não se acredita.
Caso 1: Em 2001 o Estado português adquiriu um conjunto de helicópteros. Como na altura não havia fundos para os pagar, os responsáveis do Ministério da Defesa à altura inventaram um complexo esquema de engenharia financeira destinado a possibilitar a compra. Na prática, simplificando as teias das intrincadas relações de sociedades envolvidas no caso, aquilo que aconteceu foi os referidos equipamentos terem sido adquiridos em “locação operacional”. Traduzido, significa terem sido alugados, contra pagamento de uma renda à sociedade que efetivamente os adquiriu. Resultado: o custo efetivo dos equipamentos verificou um desvio para mais, relativo ao preço original, de mais de 50%, ou seja, qualquer coisa como mais 120 milhões de euros!
Como se tudo isto não bastasse para se pedirem responsabilidades, vem agora o Tribunal de Contas alertar para o facto de se terem vindo a pagar em duplicado faturas relativas à referida operação. Pura e simplesmente, no meio de tanta engenharia financeira, não se assegurou que um qualquer organismo tivesse ficado responsável pelo controlo das “contas”.
O Ministério da Defesa vai mandar fazer um inquérito ao sucedido. Já sabemos o que significa isso: mais tempo e recursos desperdiçados, pois nunca se apuram responsáveis e responsabilidades.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Um país de “doutores” …


Jornal Público de 21/7/2012: “Anúncios de emprego oferecem mais dinheiro a serralheiros que a engenheiros”. A informação que substanciava tal título referia que “No site da Netemprego [Instituto do Emprego e Formação Profissional] oferece-se um lugar para um engenheiro mecânico, em Lousada, com conhecimento de três línguas (Inglês, Francês e Espanhol) e um salário de 600 euros, inferior aos 800 euros pagos a um torneiro mecânico, em Alcobaça, um serralheiro mecânico, em Pombal ou a um montador de tubagens, em Valença.”

Depois de nas últimas semanas termos ficado chocados com os 3,5 Euros/hora que o Ministério da Saúde tinha recebido como oferta a uma consulta de mercado para a aquisição de serviços de enfermagem, ou os 4,5 Euros para serviços médicos, esta notícia é mais uma achega que nos remete para os enviesamentos que ao longo das últimas décadas a formação (educação) profissional no país verificou.
Ser “doutor”, num país que tinham falta de licenciados, era (é )o sonho de todo o jovem. E ao longo dos anos uma grande parte dos recursos públicos foi afeta a criar as condições para que o sistema de ensino, publico e privado, possibilitasse esse desiderato. Os cursos de licenciatura brotaram a esmo, às centenas, nalguns casos diplomando pessoas em especialidades bizarras para as quais, nem com muita imaginação, se conseguia perspetivar uma aplicação profissional direta.

domingo, 1 de julho de 2012

O emprego que não é gerado …


O tema do seminário era a discussão das perspetivas de evolução futura da economia portuguesa. Dois oradores. O primeiro, apresentando dados macroeconómicos relativos à evolução recente e tendências de evolução futura das exportações portuguesas. O segundo, administrador de uma empresa portuguesa dedicada ao fabrico e comercialização de azeite e óleo alimentar – a Sovena –, descrevendo as principais etapas do respetivo processo de internacionalização.
Centro-me nesta última apresentação. O referido senhor, a determinada altura, a propósito do azeite, referia o facto da sua empresa ao longo dos anos ter vindo a fazer vultuosos investimentos.
"A nossa atividade, que é verticalizada, abrange desde a produção da azeitona à comercialização do azeite e é totalmente automatizada." – referiu. Com mais detalhe, explicou que a plantação das oliveiras em imensos olivais é mecanizada; a rega das oliveiras é automatizada, sendo controlada a partir do Alentejo, não só para os olivais que têm nessa região, mas também para os que têm em Espanha e em Marrocos; a recolha da azeitona é mecânica, e é automatizado o processo fabril inerente ao fabrico e o engarrafamento.
Em virtude disso, uma empresa verticalizada como esta, que tem uma quota superior a 6% do mercado mundial de azeite, não emprega no conjunto, nos diversos países onde está implantada, mais de 1000 pessoas.

sábado, 30 de junho de 2012

A crise à mesa de um restaurante …


Por questões profissionais, há dias participei num jantar de negócios. Um daqueles encontros agradáveis, descontraídos, num restaurante bonito que, além de outros predicados, tinha o aliciante de proporcionar boa comida.
Os restantes convivas, pessoas simpáticas e bem-falantes, denotavam traquejo de participação em muitos encontros sociais semelhantes. Isso era facilmente percetível pelo modo como cada um contribuía para a conversa sem, no entanto, a monopolizar; como cada um, qual ator ensaiado, assegurava que a conversa não esmorecia, alimentando-a, esticando o assunto umas vezes, outras introduzindo-lhe subtis mudanças de rumo.
Neste ambiente deveras agradável a nota menos positiva, para alguém com o meu orçamento mensal, foi pensar no preço da refeição. Sem ser uma refeição de exageros, uma pequena entrada, o prato principal, a sobremesa e um pouco de vinho – uma garrafa para seis – rondou os 50 euros por pessoa. Um montante que, confesso, não é irrelevante no meu orçamento. É, em termos médios, o montante mensal que me permito gastar em atividades sociais e ou de lazer.
Face a este nível de preços e ao facto de se tratar de uma quinta-feira, esperava outra afluência ao restaurante. Porém, durante as mais de duas horas que a refeição durou ele esteve sempre completamente cheio. Cedo me convenci que aquela situação que então vivia era mais uma evidência de que os efeitos da crise são assimétricos, esmagando os financeiramente mais débeis, passando ao lado dos restantes.